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Política

Nossa democracia

Certa vez, o deputado federal Francelino Pereira, presidente da Arena, o partido de sustentação do governo militar (sucedido pelo PDS), fez uma pergunta. Cabalística, ela se tornaria imortal, a despeito do seu autor: que país é este? Parafraseando Francelino, cabe agora perguntar: que democracia é esta que temos?

A ditadura lhe pespegou três adjetivos acompanhantes. Primeiro era “à brasileira”. Mas brasileira, mesmo, só a feijoada (que, aliás, resultou num IPM, o inquisitorial Inquérito Policial Militar dos Torquemadas de 1964, para investigar os”grupos dos 11″, de Leonel Brizola, pretensa guerrilha urbana, inaugurada com uma feijoada na festiva zona sul carioca).

Depois, a democracia social, que não seria lá tanto democrática, mas teria como compensação melhorar a condição do povo (propaganda política que Delfim Netto desautorizou com sua diretriz econômica de fazer crescer o bolo da renda nacional antes de pensar em dividi-lo). Por fim, e ao fim, a democracia relativa do general Geisel, o kaiser da república brasileira. Ele queria manter a democracia sob arreio curto até que ela se tornasse madura.

Nada mais lógico do que escolher por sucessor um general de cavalaria, João Figueiredo, o João (que o jornalista Alexandre Machado, estrela rutilante da Globo, tentou popularizar, levando-o a tomar cafezinho em boteco, apesar do chefe ser avesso ao cheiro do povo, preterido pelo suave odor de um cavalo).

Na fase fascista de Getúlio Vargas, a democracia brasileira era corporativa, à maneira italiana de Mussolini. Gerou barbaridades, sob o tacão do nazista Filinto Müller, mas foi realmente corporativa, acolhendo, acautelando e atrelando ao Estado o nascente operariado nacional, além de lhe garantir o emprego pelo estímulo à industrialização.

Mas e a nossa atual democracia, que dá absurda sobrevida ao chefe do maior dos poderes, maior porque tem a chave do cofre do tesouro nacional, tornando a “monteusquiana” igualdade dos três poderes letra morta da lei: que democracia é esta?

Ela só não é a mais duradoura, nos quase (e apenas) 130 anos de república porque antes houve a carcomida “república velha”. Em meio a levantes, tumultos e estados de sítio, ela durou mais de 40 anos. A atual, está chegando a 32. E chegando precariamente.

As formalidades legais de uma democracia existem e são até abusivas, pela comiseração e tolerância aos abusos, numa mal enjambrada cópia da social-democracia européia. Nas mais duradouras democracias, na condição em que se encontra, um Michel Temer já teria renunciado. No Japão, pensando em sair de cena com um hara-kiri.

Por nossa cultura, ponderada pela cordialidade e o jeitinho, não se pode chegar a tanto. Muito menos começar a catar soluções cirúrgicas e sondar salvadores, profetas e heróis, nos melancólicos pronunciamientos hispano-lusitanos. O caminho democrático a seguir diante da ilegalidade cometida e da ilegitimidade derivada é o afastamento do autor dos delitos.

Lamentavelmente, é ninguém menos do que o presidente da república. A relação de causa e efeito é imediata num país democrático. Não por um golpe de Estado ou qualquer atalho que não tenha acolhida no texto constitucional, ainda que questionado (como no caso do afastamento de Dilma Rousseff). Mas pelo constrangimento que os 7% de aprovação popular (quantos agora?) deveriam impor ao presidente.

Ao invés disso, um sangramento desnecessário, mas imensamente oneroso ao país, por tempo, por enquanto, imprevisível.

Discussão

4 comentários sobre “Nossa democracia

  1. Lúcio,

    Temos a democracia que reflete o que o brasileiro pensa e age. Ninguém votou com a baioneta na cabeça. Todo mundo foi lá depositar o voto a partir da reflexão profunda sobre as informações coletadas e digeridas durante a campanha eleitoral.

    Se um erro grosseiro foi cometido, então cabe a sociedade nacional assumir seu erro e pagar por sua decisão equivocada. Isto faz parte do processo de aprendizagem política pela qual toda sociedade precisa passar. Espera-se que com o reconhecimento do erro + pensamento crítico, a sociedade melhore a sua capacidade de tomar decisões.

    Entretanto, dada a curva de aprendizagem demonstrada por nossa sociedade, nenhuma mudança significativa de paradigma pode ser esperada nos próximos anos. Optamos sempre pela mediocridade. Talvez isto ocorra pelo fato de que ser excepcional exige muito trabalho. Cansa muito o corpo e a mente. Para que tanto esforço? O rame-rame de sempre é o nosso projeto de nação. Viva nós!

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    Publicado por Jose Silva | 27 de junho de 2017, 10:27
  2. A nossa democracia só não reconhece que o povo original desta Terra foi substituído, literalmente, por outro, e que se perpetua pela Sociologia da Reeleição, agora tão clara em suas expostas vísceras.
    Sugestão:http://jornalggn.com.br/noticia/o-pacifismo-hipocrita-dos-bem-pensantes-por-aldo-fornazieri

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de junho de 2017, 11:19
  3. Alexandre Machado é o mesmo Garcia?

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    Publicado por Walter Moraes | 28 de junho de 2017, 07:38

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