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Justiça, Política

Pobre Brasil

Todas as pessoas que entravam no salão oval da Casa Branca, a mais poderosa dependência do poder público mundial, para falar com o presidente Richard Nixon (1969/1974) eram gravadas secretamente por ele. Não havia exceção, qualquer que fosse o tema tratado pelo interlocutor.

Quando uma série de investigações, por diferentes agentes, da imprensa (que disparou o alarme, através do Washington Post) ao FBI, constatou que o mandatário da nação comandara uma quadrilha que penetrara nas engrenagens do seu competidor à reeleição para sabotá-lo e cometer outros ilícitos e tentara obstruir a ação da justiça, as fitas foram a prova definitiva.

Sem saída, um dos mais poderosos presidentes que os Estados Unidos tiveram viu-se obrigado a renunciar para não sofrer impeachment. Foi o primeiro inquilino da sede do governo federal americano a tomar tal atitude.

Ao se ver acuado pelas cobranças do juiz do caso, John Sirica, o equivalente do nosso Sérgio Moro, Nixon tentou negar a existência das gravações secretas. Não conseguiu. Ao repassá-las, por longas horas nortunas, que o desviavam da sua tarefa de comandar o país, começou a apagar trechos críticos ou a esconder fitas inteiras. Tinha plena consciência de que preparara seu próprio desenlace. Uma situação de tal paroxismo e contradição que vários analistas, tentando encontrar uma explicação racional para o ato de Nixon, acabaram chegando a Shakespeare e ao seu atormentado Hamlet, criação imortal de um dos maiores escritores de todos os tempos.

À parte a capitulação penal dos ilícitos de Michel Temer, a serem provados (ou negados) no processo judicial, seu comportamento se assemelha ao de Nixon. Têm até carreiras parecidas. Nixon era um antigo, experiente e muito testado político, advogado por profissão. Temer também, e com uma carreira profissional mais consistente do que a de Nixon. Também se pareciam nos pontos obscuros e suspeitos da sua trajetória, em negócios duvidosos, mas não escancarados nem provados.

Com isso, há de se perguntar: por que aceitou receber Joesley Batista em noite já avançada na residência oficial do vice-presidente da república, em que decidiu permanecer, ao invés de ir para o domicílio do presidente, no Palácio da Alvorada? Por que não submeteu o dono da JBS a revista? Por que não se acautelou, mantendo um nível de conversa compatível com o seu cargo? Por que aceitou tutear com o interlocutor? Por que respondeu a questões com risco automático de tipificação penal através de monossílabos, frases curtas e impulsos hesitantes, sem chegar a se recusar a respondê-las?  Por que parecia constrangido a responder? Por que desceu tanto?

Estas e as demais perguntas que puderem ser feitas a partir da mais vergonhosa conversa documentada de um presidente da república do Brasil com qualquer pessoa, sugerem uma hipótese vergonhosa e triste: Joesley Batista dispunha de armas para chantagear Michel Temer, que, acuado, sem possibilidades limpas de defesa, teve que se deixar chantagear.

Pobre Brasil se assim tiver sido.

Discussão

3 comentários sobre “Pobre Brasil

  1. Desde sempre foi assim. Não à toa despontou o Financiador Habitual da Corrupção, consolidando os bons costumes da tradicional família brasileira.

    Sugestão:https://www.youtube.com/watch?v=JViRj2icPdg

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de junho de 2017, 11:27
  2. Temer não fez diferente porque não podia. O presidente na verdade desde a época Lula era o Josley.

    Falando de conversas presidenciais, coloco a conversa entre a Dilma e o Lula maracuteando contra a Lava Jato no mesmo nível desta conversa entre Temer e Josley. Ambas são um atentado sério contra a nação.

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    Publicado por Jose Silva | 27 de junho de 2017, 21:11
  3. O caso watergate é um caso curioso que já comentaste sobre Nixon e sobre o caso em diversas reportagens. Engraçado foi comparar Nixon a Lula. Mesmo a renuncia sob o risco de impeachment, o caso se assemelharia a Collor ou Dilma os casos mais próximos de impeachment no Brasil de fato. Negociatas politicas, favorecimento de empresas, intimidação de opositores, propinas, gravações. Planos de uma organização criminosa. Tudo isso parece realmente se assemelhar a Temer, além da profissão.

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    Publicado por Fabrício | 19 de setembro de 2017, 00:12

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