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Grandes Projetos, Minério, Política

A história na chapa quente (236)

O Pará e sua doença:

o caciquismo retórico

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 318, de fevereiro de 2004)

Uma das maiores pragas que tem assolado o Pará republicano é a dos caciques brancos. Embora esses morubixabas políticos frequentemente usem a metáfora para afirmar sua liderança, o paralelismo com os índios não lhes é favorável, ao contrário do que pensam. O último dos chefes de taba “civilizada”, o ex-governador Almir Gabriel, foi tão infeliz na inspiração quanto seus antecessores no trono do poder paraense.

O pronunciamento do líder tucano foi na semana passada, durante o II Fórum Paraense de Desenvolvimento, promovido pela Associação Comercial do Pará. Reagindo ao que considerou uma ofensa do palestrante anterior, José Mendo Mizael de Souza, presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Almir falou grosso no revide ao recado do intruso: “Algumas pessoas, lá fora, podem pensar que aqui só existem índios. É verdade que aqui temos os nossos índios, mas essas pessoas devem saber que nós não temos o nariz atravessado”.

Outro tuxaua branco, o também ex-governador Hélio Gueiros, assinaria com embevecimento a frase (antropologicamente desastrosa). Ela era uma das favoritas no seu repertório de preconceitos. A outra o fazia remeter os indesejáveis para uma cubata africana, como se o nosso país servisse de contraste à sujeira, à incivilidade e à pobreza, que seriam a marca do continente negro, do outro lado do Atlântico (preconceito também partilhado pelo muy companheiro Luiz Inácio Lula da Silva).

No momento em que o político Almir discursava, a Companhia Vale do Rio Doce, destinatária de sua mensagem irada, dava mais atenção aos índios do que ao ex-governador e ao seu sucessor. A acreditar-se em O Liberal (se tal temeridade é recomendável), a poderosa empresa anda espionando um dos grupos Gaviões e seus aliados, voluntários ou não. O doutor Almir, com ou sem nariz atravessado, não parece estar sendo espionado, exceto, talvez, por outros tucanos ansiosos.

Caciques & caciques

Um dos caciques (de verdade) teria ameaçado bloquear a ferrovia de Carajás, a segunda mais importante via de escoamento de riquezas do sertão para o litoral brasileiro, caso não lhe seja pago um “por fora” de 10 milhões de reais, obrigando a empresa a monitorar seus passos para não ser novamente apanhada de calça curta (ou saia justa, para ser fiel ao patuá da moda).

Não se trata de extorsão nem de donativo clandestino para fundo de campanha, tão ao gosto dos sobas políticos, de diferentes matizes (do azul ao vermelho) e variada narina. Seria uma compensação pelos infortúnios que a passagem do trem de minério estaria a causar à aldeia. É o que dizem os índios. Como sua extensão urbana, eles também não possuem “o nariz atravessado”. Querem muito mais do que o apito dispensado pelo doutor Almir.

Se dependesse do ex-governador, um desenvolvimentista tout court, os índios já nem deveriam existir como tal, a não ser para servirem de parâmetro abstrato para a retórica do Pará dos sonhos do doutor Almir. Um Pará sem florestas a atrapalhar o avanço da civilização, com suas estradas, hidrelétricas, fábricas, plantios comerciais et caterva.

Durante os oito anos de consulado almirista, o desmatamento se expandiu à larga, os conflitos rurais se agravaram, as condições de vida se deterioraram, mas a plumagem da elite foi tratada a dedo. Ninguém perdeu a pose por causa desses “detalhes”.

O discurso anticolonialista do doutor Almir Gabriel no auditório dos comerciantes está carregado de razão. É pena que o governador Almir Gabriel não tenha levado a sério o pensamento do seu outro tardio, bipartido que ficou – como, de resto, a social-democracia, da qual seu partido se declara porta-voz – entre o pensamento e a ação.

Reconheça-se que essa dissociação não é monopólio dele ou do PSDB. Ninguém poderia imaginar que a esquizofrenia se tornasse tão aguda como está ficando no reinado do presidente Lula (que certamente logo providenciará o seu livro de frases de improviso, made by Duda; o título, com a originalidade própria da categoria, será O livro de pensamentos do presidente Lula).

Silêncio obsequioso

Durante os oito anos do doutor Almir foram crescentes os lucros da CVRD, a timoneira do colonialismo que aflige o Pará e revolta o nobre político. Quase no encerramento do primeiro dos dois mandatos do doutor Almir, a CVRD foi privatizada, mas o então governador não disse um ai a respeito (como não pia quando os repórteres lhe perguntam sobre sua possível candidatura a prefeito de Belém, reagindo irritado por ver os profissionais da imprensa tentando cumprir o que é sua obrigação).

Nem mesmo se revoltou quando, um mês antes da privatização, foi levado a Marabá pela empresa para lançar a pedra fundamental da metalúrgica de cobre da Salobo Metais, que continua a ser um retrato na parede do sertão (e como dói). A exploração do cobre que vai começar não é no Salobo, mas no Sossego, e visa apenas a concentração do metal, não sua transformação em metal.

Durante seus oito anos de império no Pará, aliás, o doutor Almir não deixou passar um mês sem falar na agregação de valor à atividade produtiva, através de investimentos na transformação da matéria prima. De tanta fala o que resultou é quase nada, ou menos do que nada, se formos analisar os resultados da produção de gusa à base de carvão vegetal por uma refinada conta de custo/benefício.

Em matéria de reação ao colonialismo que sangra o Pará, de forma ainda mais selvagem do que sangrou o Amapá, o que significaram os oito anos do cacique – de nariz não atravessado – Almir Gabriel? Zero vezes zero.

Dirão seus correligionários que isso se deve ao monopólio efetivo de poder exercido pelo governo federal, que põe e dispõe na nossa satrapia verde. Em princípio, é verdade. Mas o presidente da república era um correligionário do governador (situação que já não serve de justificativa para a inação do seu sucessor).

Senador-constituinte de destacada atuação no Congresso Nacional, o doutor Almir devia ter conseguido impor ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso uma matéria que tem tido importância apenas decorativa ou formal entre nós (ou entre nós e eles): respeito. Tanto quanto o Pará, entretanto, o governador não foi ouvido nem cheirado, para usar outra pérola da fraseologia dos nossos caciques.

Mas também não mugiu nem tugiu (apud Hélio Gueiros). Quando tem que confrontar poderosos, o doutor Almir costuma perder a pose que impõe a subordinados e áulicos. O grito fica preso na garganta, como na canção de Caetano Veloso.

O brado de protesto saía de vez em quando, mas a própria Vale já sabia que, como de regra no trato com os caciques antecessores, nada que um punhado de miçangas e balangandãs não pudesse resolver (os verdadeiros índios, como já se sabe, passaram da fase dos espelhinhos).

História não é nossa

Uma sismografia da relação governo-CVRD é delimitada pelo toma-lá-dá-cá que faz os momentos de pique serem sucedidos pela linha quase reta do entendimento de bastidores. Daí a descontinuidade do discurso crítico. Por isso, a ausência de resultados concretos desse contencioso entre caciques (tantos) e índios (tão poucos). O governador-imperador põe e a burocracia pública não dispõe. Morre muda (vide Idesp).

Exemplo categórico nesse sentido é a atitude do atual governo, à espera das 30 mil casas que a Vale diz-que-vai-fazer-mas-não-faz, por não ser de sua competência, e a administração estadual, de sua parte, finge-que-não-sabe que está pedindo o indevido. A Vale pode ficar acuada por esses movimentos reativos, mas para sair do córner do ringue ela não precisa mudar. Basta agradar os contendores.

Por isso, o Pará está sempre atrás da empresa, em seu rastro, manipulado por ela, fazendo seu jogo mesmo quando arrota força e independência. O Pará não sabe a agenda da sua história. Logo, não pode fazer a história.

A falta de massa crítica governamental (e da sociedade como um todo) se exemplificou naquela vexatória proposição do governo anterior, de tentar deslocar a empresa exploradora do setor de caulim trazendo um competidor do leste europeu para vir fabricar aqui louça fina, certamente a partir de tecnologia suficientemente inovadora para usar argila que não é cerâmica, como a que alimenta os polos industriais de Barcarena e do Jari.

Ao fulminar o Idesp com os raios de sua intolerância, o doutor Almir feriu gravemente a inteligência do serviço público. Não apenas de forma real, mas também através do simbolismo. Sem crítica e controvérsia o saber não avança. Mas para os espíritos autoritários o que importa é não serem incomodados pelos críticos.

Eles querem a mansidão do pensamento único, do gênio auto-proclamado. É condição do caciquismo que esses personagens cri-cri não existam. Ainda que os que restem fiquem a soldo. E haja matéria paga para mantê-los.

É por isso mesmo que o Pará, dependendo dessas figuras sebastianistas (como os Baratas, Barbalhos ou Gueiros), está parado e, conforme disse Aristides Lobo do povo atropelado pela república madrugadora, bestificado diante dessa história viva e deslumbrante que, devendo redimi-lo, cada vez mais o escraviza, sem que para isso influa um milímetro sequer, em sentido contrário, a retórica revoltada dos seus caciques, na ativa ou aposentados. Com ou sem nariz atravessado.

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (236)

  1. Quanto préstimo o Financiamento Habitual da Corrupção tentou em favor do caciquismo dos sociais-democratas que só manteve o status quo, revelando cada vez mais as apodrecidas estruturas da cultura da corrupção?

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    Publicado por Luiz Mário | 29 de junho de 2017, 13:37
  2. Luiz Mário, permita discordar de você, mais a social-democracia tem sido pelo mundo o melhor modelo econômico e social de se alcançar resultados positivos quando no Poder. Veja os Países escandinavos da Europa. Veja a social-democracia ao contrário da esquerda prega o estado mínimo ora se o estado é mínimo menos cacique teremos, já na esquerda populista criam-se verdadeiros mitos.
    Veja o nosso País quando a social-democracia chegou ao Poder com FHC o Brasil era um País atrasado em todos os sentidos, medidas duras tiveram que ser tomadas, como a Lei Fiscal, Renegociação da Dívida dos Estados e dos Municípios – Organização fiscal do Brasil que era uma bagunça. Na sequência veio as privatizações, PPP, OS, pregão eletrônico, quebra do monopólio da Petrobras, você há de convir e o tempo que é o senhor da razão mostrou que foram medidas acertadas, salvo, as exceção.
    Todas estas medidas tiraram poder de algum grupo político com certeza.
    Agora veja, a esquerda retornou ao poder e de novo toda aquela visão: Trotsky, Lênin, Marx, Antônio Gramsc, vieram ao Poder junto com eles, no início até que parecia uma nova esquerda mais depois………………………..
    Em 2006 Geraldo Alckmin perdeu a eleição para o LULA e frase na camiseta do LULA era “a esperança venceu o medo”. Só que a esperança deu lugar ao que disse a Ministra Cármen Lúcia:
    “Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 (mensalão) e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo”.

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    Publicado por Valdenor Brito | 29 de junho de 2017, 19:15
    • “FHC social-democrata”

      kkkkkkkkkkkkmkkmmkk

      Tu é uma piada cara. PQP.

      Além de DAS do vagabundo do Zenaldo, tu é lambe saco do PSD

      O outro aí em cima é lambe-saco do PT

      Vocês se merecem. kkkkkk

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      Publicado por trolão | 4 de julho de 2017, 11:06
  3. Caro Valdenor Brito, antes de tudo, é uma satisfação teclar contigo, tendo como mote a citação de meu nome. Todavia, gostaria de esclarecer que não há sentido em seu pedido de permissão, afinal, as redes sociais abriram a possibilidade para qualquer conversa, reforçando o dito popular de “quem sai à chuva é para se molhar”. Serei pontual no que tange o caciquismo: “a social-democracia chegou ao Poder com FHC”, pela compra de votos com a emenda da reeleição. Paralelo a sua consolidação que tal observar a arena romana em que se transformou a sociedade fora do ambiente dos caciques, seja ele da política profissional, da engenharia civil, do agro-negócio (quiçá do Judiciário?) e focar apenas onde o povo, infelizmente, é o protagonista no teatro do pão e circo, sugerindo ser este o biombo que ocupa o lugar do agora antigo tapete que, de tanta elitista sujeira, se parece a um grão de areia no deserto?

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    Publicado por Luiz Mário | 30 de junho de 2017, 08:53
  4. Segundo o Gorbachev, a social democacia escandinava fez muito mais pelo socialismo real do que todos os outros “experimentos” juntos.

    O que eu não sei é quem é realmente socio-democrata em nosso patropi. Procuro, procuro, mas não acho.

    Por fim, o populismo brasileiro (tanto da direita como da esquerda, se é que existe esta dicotomia) nunca gostou muito de leis, principalmente de uma tal de lei da responsabilidade fiscal, e fez de tudo para extingui-la.

    Imagine se tivessem conseguido. Como estariam as finanças do país?

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    Publicado por Jose Silva | 30 de junho de 2017, 17:51
  5. O Pará é isto?

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    Publicado por Luiz Mário | 30 de junho de 2017, 18:12

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