//
você está lendo...
Política

Viva a greve. Que greve?

Até este momento, a greve geral convocada pelas centrais sindicais está sendo um sucesso.

Até agora, está sendo um fracasso.

O sucesso decorre principalmente de paralisações obtidas em quase todas as capitais brasileiras e algumas cidades importantes do interior do país. O fracasso é que piquetes agressivos, queima de pneus nas vias públicas e a acomodação (ou o medo) em segmentos da população permitiram a interrupção da vida normal nas grandes aglomerações urbanas do país.

Uma greve geral é o ápice da manifestação de protesto ou da reação dos trabalhadores. É viabilizada por meticulosa e prolongada preparação, e um intenso trabalho de conscientização da sociedade para ter adesão em massa. Essa massa inexiste até agora na greve geral promovida por uma elite sindical, intelectual e, eventualmente trabalhadora.

Seu objetivo não foi reunir milhares de pessoas em uma concentração com propósito definido. Foi impedir a locomoção das pessoas até os seus locais de trabalho ou destinos com outros compromissos. À falta de densidade e consistência, visou criar cenas para o registro por imagens. Falseando assim a realidade, depravando a própria aritmética de cálculo de conjunto.

Algumas das imagens dispensam palavras. Grupos pequenos, às vezes sem chegar aos três dígitos, colocavam-se à frente de centenas ou milhares de veículos paralisados, nos quais milhares ou dezenas de milhares de pessoas não sabiam  o que fazer, ou faziam o que seu desespero pela continuidade da viagem as impelia a fazer: descer, caminhar, pegar um transporte alternativo ou ficar paradas à espera de um ônibus incerto e não sabido.

Um dos principais direitos humanos, tutelado em nosso país pela lei maior, a constituição, garante a plena liberdade de ir e vir. Quem viola deliberadamente essa prerrogativa essencial da vida em coletividade argumenta que um direito maior se alevanta. O que é o incômodo de motoristas de automóveis diante de uma luta política para combater males sociais e instaurar utopias políticas? O incômodo passa e é esquecido. A luta daria resultados perenes, definitivos.

Nem todas são pessoas com capacidade econômica e beneplácitos institucionais. A maioria dos prejudicados é mesmo de trabalhadores, a parte mais fraca desse cabo de guerra. É a que se rompe sempre. Mas tudo bem: que o direito de greve se superponha ao de ir e vir. Como é exercido esse direito nas velhas democracias ocidentais (velhas, inclusive, por serem realmente democráticas, resistenets às crises constantes e inevitáveis inerentes a essa forma de organização política)?

Os organizadores do movimento acertam com as autoridades os locais de percurso ou concentração, com direito a receber proteção do governo contra o qual investem. Há uma comunicação prévia ao distinto público para que ele se ajuste às modificações que acontecerão em função do movimento. E, evidentemente, as lideranças desenvolvem um intenso e extenso trabalho de proselitismo para conquistar a adesão do número máximo de adesões. Se, com tudo isso, houver conflitos e derivações ainda mais severas, é porque a democracia é assim mesmo. Mas as responsabilidades serão cobradas, na forma da lei.

Pelo que vi até este momento, o maior sucesso da greve geral foi em Brasília. Há gente suficiente no Distrito Federal para percorrer os imensos espaços vazios que Niemeyer criou para manter o povo distante dos palácios e repartições públicas? Não. Os espaços continuam rotineiramente vazios.

O êxito se deve à opção do maior contingente que aderiu à manifestação por ficar em casa. Afinal, é sexta-feira, a remuneração do dia está garantida e o fim de semana pode ser antecipado para a maior concentração de servidores públicos de todo Brasil, um exército de mão-de-obra que, no final do ano passado, passou da marca de dois milhões de indivíduos só no âmbito da União.

Em Belém, meia centena de manifestantes transformou num caos ainda maior a entrada em Belém queimando pneus na pista da avenida Almirante Barroso. Nem uma família que transportava uma criança doente a caminho do hospital pôde passar pelo fogaréu. Já naquele momento, simplesmente porque toda pista estava ocupada pelo fogo, ateado por líderes insensatos, que, totalitários, não pensaram numa simples viela para socorrer os infelizes seres humanos que tiveram a desventura de tomar o único caminho de igação direta entre Belém e sua região metropolitana.

Num país democrático, os bombeiros, com o suporte da polícia e a ajuda de faxineiros, apagariam o fogo, ao menos para criar uma saída de emergência naquele front oportunista e servir a quem precisasse. As duas únicas representações do poder público sobre rdas, viaturas da Polícia Militar, estavam escondidas em local protegido. A atenção de um dos dois ocupantes estava toda concentrada na tele de um celular.

Defendo a greve, inclusive geral, ainda que com fins mais políticos do que de reivindicação pelo trabalho, e mesmo as que, sob essa roupagem nobre, defendem também – e, talvez, principalmente – privilégios de uma elite sindical pelega (não são todas nem a maioria, evidentemente, mas são as que, por sua proximidade com o poder institucional, mandam mais do que as outras), como esse odioso imposto sindical (um dia de trabalho ao ano para todos, sejam ou não sindicalizados). É um dos derradeiros remanescentes do fascismo corporativo italiano, importado pelo Brasil. Mas quando o meio (ou a forma) da greve prevalece sobre o seu conteúdo, considero, além de prova de falta de consciência política, um traço veemente de incivilidade.

É o que está acontecendo hoje no Brasil, até agora. Nem o “fora Temer” legitima esse pecado mortal. Ele continua a nos manter num grau primitivo de democracia.

Discussão

12 comentários sobre “Viva a greve. Que greve?

  1. São as trevas. Se perguntar-se a algum militante que bloqueia os caminhos “quais são os pontos das reformas que afrontam os trabalhadores e seus direitos”, eles vão responder? Já fiz a pergunta a pessoas bem informadas e ditas das “zelites” das redes sociais, elas ficam caladas sem respostas.

    Curtir

    Publicado por JAB Viana | 30 de junho de 2017, 15:07
  2. Muito bom, Lúcio.

    Não houve grave, houve atropelo dos que queriam trabalhar. E existe uma lei que proíbe a interrupção das vias urbanas. Defendo qualquer manifestação desde que não prejudique os que não querem dela participar. Assim é a democracia.

    Deusdedith Brasil

    Descrição: Descrição: Descrição: Descrição: Descrição: desktop_dbaDeusdedith Brasil Advocacia S/C Av. Generalíssimo Deodoro, n.º 962, 1º andar Bairro Nazaré – CEP 66055-240 Fone: (91) 3225 4030, 3224 5999, 3321 0900

    Fax: (91) 3321 0914

    http://www.deusdedithbrasil.adv.br

    Curtir

    Publicado por Deusdedith Brasil | 30 de junho de 2017, 15:18
  3. Graças a Deus que alguém que tem poder de influenciar os outros tem serenidade é conteúdo para colocar palavras e opiniões em um patamar que está escaso em nosso País.
    Não podemos deixar que o estado anarquico tome conta do nosso País, a vontade de grupos, não pode se sobrepor aos interesses coletivos.
    Milhares de pessoas prejudicadas. pagando preços altíssimos para ser deslocar. Faltando o trabalho. Deixando de produzir.
    Não podemos deixar que as massas sejam convencidas por paralogismos e sofismos de 5ª categoria.

    Curtir

    Publicado por valdenor | 30 de junho de 2017, 17:11
  4. O que é “greve” em tempos de redes sociais, que revelam a ditadura da corrupção e seus elitistas mentores?

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 30 de junho de 2017, 17:58
  5. Certo, mas o que falta para as pessoas pedirem a saída de Temer? Será que estão todas satisfeitas com ele? Aparentemente sim. A implicância era só com a companheira de chapa dele. Pode colocar qualquer corrupto cínico como o Temer, cerceado de mais corruptos, que não tem problema. O importante é não ter petista no poder, mesmo ignorando o fato de que o PMDB também era parte da aliança corrupta PTMDB e continua até hoje articulando para escaparem da prisão, da mesma forma que o PT também tentou articular.

    Curtir

    Publicado por Jonathanf | 30 de junho de 2017, 21:26
  6. Não foi preciso fazer greve geral para acontecer o impeachment de Dilma, que felizmente, para ela e para todos, foi afastada de um lugar onde não deveria estar, já que postes só servem para suportar as redes elétrica e de comunicações, além dos serviços de higiene canina e brincadeiras de crianças. As manifestações de protestos eram pacíficas e não impediam os direitos de quem não estava envolvido no movimento.
    O impeachment só aconteceu devido à briga interna entre aliados que sempre fraudaram as eleições, igualzinho como faziam aqueles que o grande mentor “Amigo” chamava de picaretas, quando era deputado federal e não aceitou assinar a Constituição de 1988 que hoje diz defender.
    Assumiram o poder para fazer as devidas reformas de base, aquelas de 1964, mais remoçadas, distraindo-se por 13 anos com os holofotes e os prazeres do poder, sonhando com um reino além de nossas fronteiras ao financiar os vizinhos bolivarianos, os distantes e pouco entusiasmados africanos e os ícones cubanos, esquecendo de investir nas estruturas do Brasil. Possivelmente Temer é tão legitimo quanto sua companheira de chapa e, agora, vêm surgindo muitas acusações contra ele. Porém, há de se permitir o direito de defesa e do contraditório, como se permitiu à sua antiga companheira de eleições e de chapa, somando votos com ou sem caixa 2, o que os levou ao poder.
    É legítimo sim, protestar e pressionar por soluções e para mostrar o descontentamento, contrariedade e até o ódio pelo adversário de hoje. O que não é legítimo é bloquear ruas e rodovias, impedir o direito de ir e vir daqueles que precisam chegar a algum lugar por qualquer razão que não nos cabe menosprezar. Até ambulâncias eram impedidas de chegar aos hospitais, pessoas perderam compromissos consultas agendadas, que podem significar até a perda da vida de pobres pacientes, pois uma nova só daqui a meses.
    Outros podem ter perdido oportunidade de emprego ou levaram falta em seus trabalhos, pois só o serviço público libera seus trabalhadores nessas ocasiões.
    Também não é legítimo manifestar contrariedade sem saber explicar o “porquê” e as alternativas que possuem para cada medida que acreditam prejudicar os direitos das pessoas, e as possibilidades da sociedade em sustentar esses direitos.
    Uma cousa é protestar. Outra, é impor pelo pânico e violência, pelo fogo e quebrando veículos, a vontade de uma minoria que não consegue convencer com argumentos àqueles que acusam de complacentes com a incompetência, má política e com a corrupção dos que chamam de “direita”, quando não foram com a corrupção e má gestão do governo e forças de “esquerda e avançadas”, da tal de sociedade.
    Protestar assim não leva a nada, a não ser rejeição pelos que tiveram pagar transporte alternativo, a gastar o solado de desgastados e desconfortáveis pisantes, a suar mais que o usual, a aguardar com fome um transporte, com a agonia de uma necessidade fisiológica, um desarranjo, sem banheiros públicos.
    Não leva a nada poque nada é apresentado em alternativa, com coerência, racionalidade. Energia humana desperdiçada.

    Curtir

    Publicado por JAB Viana | 1 de julho de 2017, 00:06
  7. Boa tarde senhores tenho um relato, minha esposa que é de esquerda sentiu na pele o que é ficar parada no transito por mais de 1:45 min no sentido entrocamento Ananindeua próximo ao entrocamento porque, alguns pelegos manipulados pelas centrais sindicais que perderam a mamata no corte de verbas, acharam de atear fogo em pneus,
    ela estava no seu carro confortável com ar condicionado ligado ao máximo e ouvindo musica achou ruim porque consumiu 3 pontos de gasolina no carro além de ter perdido o compromisso em Ananindeua, eu só fiz achar graça,
    fiz a seguinte pergunta imagine quem não tem ar nos seus carros e os moradores da proximidade que ficaram respirando fuligem de pneu entrando pulmão a dentro kkkkk.

    Quem ganha com as greves:

    são os governos, pois a frota de carros aumenta em 60% eles tem que colocar combustível em seus carros e toma imposto icms, pis,confis para o governo,
    outra economia para o governo é na conta de luz 1 dia 500 escolas paradas dá uma boa economia

    quem perde:

    Trabalhadores que vendem café, almoço etc próximo aos locais públicos que aderem a greve , esses trabalhadores perdem um dia de trabalho além do prejuízo de jogar fora o que não foi consumido.

    Trabalhadores de empresas privadas tem que compensar o dia perdido , quando não dependendo do patrão tomate falta,

    Trabalhadores gastando o dobro do dinheiro para retorna as suas casas em ônibus vans clandestinos etc.

    PERICIAS E EXAMES MÉDICOS ETC

    PROBLEMAS BANCÁRIOS DEIXARAM DE SER RESOLVIDOS ….

    poderia citar inúmeros casos para não me alongar mostrei estes casos,

    no final das contas o pobre e quem padece.

    Curtir

    Publicado por Pablo Xavier | 1 de julho de 2017, 12:24
  8. Em uma coisa você tem razão . O medo, o pavor da população de ir às ruas , não o medo de gente que queima pneus e interdita ruas. Mas o medo da Policia Militar que age de forma ostensiva e truculenta , aqui e alhures; que intimida , bate e arrebenta manifestantes no seu legitimo direito de ir às ruas repudiar e protestar contra reformas estúpidas de um governo ilegitimo e políticos hipócritas e mafiosos .

    Curtir

    Publicado por Marly silva | 2 de julho de 2017, 00:15
  9. Avante, Marly! Afinal, greve não é somente bloqueio de ruas.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 2 de julho de 2017, 12:45

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: