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Política

A história na chapa quente (239)

O imbróglio dos bingos,

dos Waldomiros e outros bichos

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 319, de março de 2004)

Há alguns anos eu caminhava atrás de dois cidadãos de paletó que subiam a travessa Campos Sales. Falavam de um colega de trabalho que os estava atrapalhando. Ouvindo o relato, ia formando minha ideia sobre o tal colega, talvez um incompetente protegido por um QI (Quem Indica) bem grande, que estava pondo a perder o esforço da dupla. Pude perceber também que eram funcionários públicos e trabalhavam na receita (não sei se federal ou estadual).

Antes que seguissem caminho diverso do meu ainda apreendi suas últimas palavras audíveis. O estorvo do qual se queixavam era um Caxias, cri-cri que cumpria suas obrigações, complicando as escapadas dos dois barnabés, que queriam levar o “por fora”. O sujeito que motivara a conversação era o direito. Os dois revoltados tagarelas é que eram os tortos.

A história me veio à memória quando li a entrevista que o antropólogo Luiz Eduardo Soares deu ao site AOL (American Online), no auge das revelações do escândalo Waldomiro Diniz. Soares se referiu à figura do corruptólogo. Especialista no estudo da corrupção, pensei, imaginando logo um Ralph Nader brasileiro ou figura parecida.

Ledo engano, porém. Corruptólogo, na própria descrição do antropólogo (este, sim, um estudioso da cultura humana), é aquela pessoa adestrada na identificação de mecanismos que podem ser acionados “para drenar recursos públicos de forma discreta, clandestina, sem suscitar suspeitas”.

Foi um corruptólogo que telefonou seguidamente para Luiz Eduardo Soares quando ele fazia a transição do governo de Anthony Garotinho para o de Benedita da Silva, no Rio de Janeiro, no primeiro trimestre de 2002.

A insistência foi tão grande que Soares acabou cedendo: foi conversar com o especialista em falcatruas num hotel do Leblon. Levou companhia, mas acabou sendo carregado pelo corruptólogo para tomar café num bar próximo, enquanto a testemunha potencial da conversa ficava no lobby do hotel – a ouvir estrelas, certamente.

Na conversa, o drenador de dinheiro público disse que podia arranjar de 80 a 100 milhões de reais em apenas nove meses para a campanha de Benedita, que, depois de ser vice de Garotinho, queria ocupar o lugar de titular (enquanto o ex tivera que se desincompatibilizar para disputar a presidência da República).

Bela média: R$ 10 milhões por mês. Bastaria que o – digamos assim – técnico tivesse o controle de “duas ou três secretarias, algumas diretorias e outros cargos subordinados”.

Um dos alvos era previsível: a Secretaria da Fazenda, claro. Mas quem podia considerar uma mina a gerência da massa falida do antigo Banerj, o Banco do Estado do Rio de Janeiro? (A propósito, dizem o mesmo, por aqui, da massa falida da Poupança Banpará.)

Pois o especialista arrancaria muita grana da instituição em extinção. No final, daria 10% para Benedita, ficaria com 5% e reservaria 1% para Luiz Eduardo.

Para confirmar seu gabarito, o proponente fez uma observação judiciosa: o então desconhecido Waldomiro Diniz, presidente da Loterj (Loteria do Rio de Janeiro), estava extorquindo R$ 300 mil mensais dos bingos cariocas. O potencial de drenagem avaliado pelo expert era de R$ 500 mil. Waldomiro só não chegava a tanto por ser um incompetente.

Luiz Eduardo, já como companheiro de chapa de Benedita, diz que tentou apurar a história e alertar seus correligionários do PT, mas não teve êxito. Muito pelo contrário: sua insistência em esclarecer “as coisas” começou a ser notada e a incomodar.

Em agosto de 2002, a campanha de Lula de vento em popa, sentou ao lado de José Dirceu durante um encontro do candidato presidencial do PT com intelectuais cariocas no restaurante Rio’s. Depois de ser apresentado, ouviu de Dirceu a observação: “soube que você anda criando dificuldades para nós no Rio de Janeiro”.

Quem sobe, quem cai

Soares tentou uma explicação: “As coisas estão muito complicadas”. Teve na bucha uma resposta definitiva: “Nosso papel é descomplicar”. Como não descomplicou, foi marginalizado do restante da campanha e ficou falando sozinho.

Lula eleito, dois deputados petistas (um do Rio de Janeiro e outro do Rio Grande do Sul), encontrando-se com o todo-poderoso Dirceu, perguntaram-lhe que papel Luiz Eduardo iria desempenhar no novo governo. Resposta de bate-pronto do futuro cardeal Richelieu petista: “se depender de mim, nenhum”.

Mas se Benedita foi ser ministra, alguma coisa devia sobrar para seu vice derrotado, que diz ter ido para o sacrifício quando a eleição para deputado federal eram favas contadas. Ele se tornou secretário nacional de Segurança Pública, com status de ministro.

Benedita caiu em meio a seguidas crises de nepotismo e incompetência. Soares foi defenestrado em circunstâncias bem menos constrangedoras, mas de qualquer maneira por nepotismo também (sua secretaria pagou por um trabalho de sua mulher).

Por isso, suas declarações, que tiveram pouca repercussão na imprensa, foram desqualificadas pelos porta-vozes petistas. Estaria simplesmente se vingando da demissão da administração federal.

Acerto de contas

Não sei se a alegação é verdadeira. Mas para saber seria preciso que Luiz Eduardo Soares tivesse sido convocado para depor no inquérito policial instaurado a propósito do episódio de extorsão de Waldomiro Diniz, o que não aconteceu até agora.

É possível que Soares esteja mesmo se vingando. Essa é uma questão para ser acertada entre ele e os seus, que são todos brancos (todos os seus interlocutores ocupam cargos federais presentemente). Mas ele pode estar se vingando usando uma arma poderosa, a verdade – e, já aí, esse é um assunto do mais alto interesse público.

Não por impulso moralista redivivo da matriz udenista, perenizada por Carlos Lacerda (e razão de ser do seu outro, a esquerda viciada em aparelho de Estado). Mas por elementar esclarecimento dos fatos.

A biografia de Soares no Rio de Janeiro “se caracterizava pela luta contra a corrupção”, como ele diz. Logo, ele era um corruptólogo positivo, para usar o jargão das agendas públicas (et pour cause, privadas ou privatizadas).

Nem por isso deixou de ocupar (ou justamente por isso ocupou) a coordenadoria de segurança pública no governo Garotinho. Largou esse cargo para tratar da transição da administração do ex-brizolista para a de Benedita, dando ao que era um governo aliado a feição de governo petista puro (digamos assim).

Havia lógica nesse rito de passagem. Benedita não escondia de seus acólitos que seu primeiro ato seria auditar as contas do antecessor, que estariam bichadas (e estavam mesmo, tanto que, para espanto geral, não foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado até um ajuste extra-autos corrigi-las).

Mais do que um moralismo formal de esquerda, era uma providência de elementar sabedoria política. Benedita ia ser cobrada na campanha eleitoral por erros que não eram da responsabilidade dela, mas de Garotinho.

Como provar que sua história de honestidade, contrastante com as sem-vergonhices do antecessor, era verdadeira, se não mugiu nem tossiu quando tinha a faca e o queijo nas mãos? Teria que enfiar a viola e cantar em outra freguesia.

Maquiavelismo à PT

Uns dizem que, por esperteza e má-fé, Benedita preferiu imitar a sindicar Anthony Garotinho. Luiz Eduardo Soares tem outra versão. Para ele, “a eleição ao governo do Estado do Rio, em 2002, era um teatro. Benedita não estava proibida de vencer, é claro, mas estava constrangida a não realizar, logo que assumiu o governo, uma auditoria nas contas do Estado. Esta limitação foi negociada como condição para o apoio de Garotinho a Lula no segundo turno”. Golpe do maquiavelismo do ABC.

Assim, Benedita se expôs a um desgaste ainda maior no processo eleitoral, a mulher de Garotinho – mesmo neófita em política – foi eleita sua sucessora, Garotinho ficou ao lado de Lula no segundo turno, Benedita subiu ao ministério, Soares ficou um patamar abaixo, Garotinho fez indicações no governo Lula e Lula preencheu cargos no governo Rosinha, e Waldomiro foi para Brasília e os petistas cariocas incômodos foram mandados para o gulag tropical. E assim caminha a humanidade brasileira.

Linhas que aparentemente não se cruzariam ficaram trançadas, a ideologia de mãos dadas com o fisiologismo, o combatente da corrupção como interlocutor do especialista em sofisticá-la e coisas assim, muitas, complicadas, tenebrosas, que precisam ser esclarecidas à luz do dia, diante da sociedade. Por que então ocultá-las e inibi-las?

O que está em causa não é saber quem está imaculado e quem se sujou, quem é o dono da verdade e quem a prostituiu, mas a quanto monta o desvio de recursos públicos no Brasil, quem manobra essa rota, para quem esses recursos são drenados e qual é o esquema que o torna indestrutível por ter-se tornado, de forma espúria, uma “razão de Estado”.

Da mesma maneira que o furor moralista acaba funcionando como boi de piranha, impedindo a sociedade de ver o todo, o impulso punitivo imediato é a cocaína burocrática de efeito meramente imediato, leniente e anestesiador.

A revisão tem que ser mais ampla e profunda. Se ela está sendo feita tecnicamente pela polícia e o Ministério Público, como proclama o PT e o governo, encontrando nessas medidas o habeas corpus preventivo contra qualquer iniciativa alternativa, nada há a perder com a apuração política. Ou se há a perder, o que se ganha é de maior valor. Logo, o saldo é positivo.

Mudanças, ah, as mudanças…

O que o escândalo Waldomiro Diniz tem de mais grave é revelar que os intérpretes da mudança, vitoriosos na eleição de 2002 justamente por assumirem essa promessa de transformação, sabem muito bem como ocupar os cargos públicos e exercer o poder de Estado. Mas não sabem como tornar realidade o discurso que, em seu texto dominante, não foi mais do que um amontoado de bravatas, como já admitiu o próprio Lula (falando de bravatas porque não podia aconselhar seus críticos a esquecer o que escreveu, pela elementar constatação de que nunca foi dado a escrever, ao contrário do seu prolífico e complicado antecessor). No escuro, melhor continuar a fazer o que fazia Fernando Henrique Cardoso, correndo o risco de fazer pior, como está acontecendo.

Depois da experiência de conhecer o corruptólogo, Soares diz haver transmitido seu estupor a interlocutores que, na época, eram integrantes da caravana eleitoral petista e, atualmente, são dignitários do governo Lula, entre eles o próprio Dirceu, Mefistófeles e Faustos ao mesmo tempo.

José Dirceu deve ter marcado Soares, aquele que cometeu pecado fatal na ótica do estrategista de Montes Claros: não descomplicou o que complicado se achava. Quem cria dificuldade sem vender facilidade, não entende da arte (e não fica com a melhor parte). Vai para o olho da rua.

A nomenklatura petista se adestrou nas artes da descomplicação nos 14 anos em que Luiz Inácio Lula da Silva perseguiu o topo da pirâmide dos apparatchicks. Durante esses anos, Lula conseguiu ser o maior político profissional do país (e o mais carismático) sem ter mandato e sem uma fonte de renda capaz de responder por seu modo de vida e seus gastos.

O PT foi crescendo em estrutura burocrática e militância sem que alguém, com autoridade e legitimidade (a velha política fisiológica brasileira não tem credibilidade para tanto), arguisse adequadamente sobre a origem de seus fundos.

Se uma parte deles pode se ligar, por vias e travessas, a ilicitudes e clandestinidades, outra é perfeitamente clara, mas nem por isso mais nobre: a imposição do desconto – e um desconto pesado, confiscatório mesmo – a todos que ascenderam a cargos públicos graças ao partido, representado por seu politburô (ou o comitê central).

Todo poder

A expectativa orçamentária do PT neste exercício vai além de R$ 80 milhões segundo a revista Veja, algo que está muito além do que podem almejar os outros partidos reunidos.

Até o escândalo Diniz essa situação era vista sob sua ótica triunfante: era sinal da maturidade de um partido para valer, não uma sigla de aluguel. Hoje, essa realidade apresenta outra perspectiva: o partido forte serve a um grupo político que efetivamente tem um projeto e não apenas interesses de circunstância, como seus concorrentes. Mas um projeto de poder – e quase só isso.

Aos que são capazes de ver a questão por essa ótica, a determinação de fechamento dos bingos, baixada pelo presidente, e a caça policial aos jogadores, que se seguiu à Medida Provisória (mais uma), não se apresentam como iniciativas para resolver o problema e punir os infratores, mas uma queima de arquivo e apagamento de provas.

Faz-nos pensar não no paraíso, para o qual devia seguir a classe operária (conforme o legendário filme de Élio Petri), mas na Chicago dos gângsteres da década de 20. No lugar da lei seca, a MP antibingo. Ao invés de famiglias, um partido único e seu regime associado, como no México.

Para o bem de todos e felicidade geral da nação, inclusive a petista de estirpe, que venha a CPI e tudo mais que servir para iluminar os personagens, arejar o ambiente, oxigenar o país, salvar o que ainda pode ser salvo e recuperar a esperança perdida.

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (239)

  1. A sujeira vem de longas datas, não livrando as patas do cavaleiro da esperança e paladino da igualdade social, vestal da honestidade e homem do povo, como discursava desde 1989 contra o caçador de marajás, depois aliados.

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    Publicado por JAB Viana | 5 de julho de 2017, 14:51
  2. Lembro dessa reportagem.

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    Publicado por Everaldo | 5 de julho de 2017, 16:11
  3. Mudando de assunto, alguma observação sobre o discurso patético de Marco Aurélio sobre Aécio?

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    Publicado por Jonathan | 5 de julho de 2017, 17:04
  4. “a quanto monta o desvio de recursos públicos no Brasil, quem manobra essa rota, para quem esses recursos são drenados e qual é o esquema que o torna indestrutível por ter-se tornado, de forma espúria, uma “razão de Estado”.”: reconfiguração da Casa-Grande, chancelado pelo Financiador Habitual da Corrupção com sua Sociologia da Reeleição.

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    Publicado por Luiz Mário | 5 de julho de 2017, 17:49
  5. Acho engraçado que o Luiz Eduardo Soares foi um dos autores de umas das obras que mais populares e que ajudou a explicar a presença das milicias no Rio, colocado nas telas pelo diretor José Padilha. O romance, contado a partir do policial Capitão Nascimento, mostra as relações espúrias de uma ala da policia com políticos e criminosos criando uma grande rede criminoso que comanda as favelas do rio.
    A obra teve um grande debate foi didática e retrata bem a realidade de parte da das periferias cariocas. O personagem no segundo filme vira secretario de segurança, acabando por mostrar a impotência do mesmo em acabar com as redes criminosas seu poder e comando na cidade carioca que já se estendia com o aval do estado. Dentro de que ponto Luiz Eduardo esteve retratando sua experiencia própria e o poder do partido que o abrigava?
    Outro personagem que ganhou destaque foi o vereador Fraga, que representava o politico Marcelo Freixo, denunciando a proliferação de milicias no Rio de Janeiro.
    É certo que o ultimo governo carioca Luiz Eduardo não estava a frente, mas em que similaridade podemos falar de uma organização criminosa crescente que tomou conta do governo vendo o noticiário da prisões de Sergio Cabral e companhia?
    Mais um dia de terror e tiros nas favelas e grupos criminosos brigam pelo comando da favela da Rocinha no Rio.

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    Publicado por Fabrício | 22 de setembro de 2017, 18:18
    • A origem mais remota da situação atual foi o seu deslocamento a toque de caixa (toque dado pelas empreiteiras) da sua condição de capital federal para Brasília. O saldo desse ato é negativo, ao meu ver, e não apenas por ter deixado o Rio de Janeiro no vácuo. Origem mais próxima foi Leonel Brizola, que recolheu os acervos de Tenório Cavalcanti e Chagas Freitas para se tornar imbatível no Rio (no final, se ofereceu a Collor como amigo de infância). Como desfazer esse nó Górdio? Ninguém sabe. Ou, se sabe, não consegue transformá-lo em prática.
      A obra do Luiz Eduardo é autobiográfica. Mas tanto ele quanto o Freixo ficaram desatualizados. Não por falta de mérios próprios. Foi pela dinâmica do banditismo, cujo godfather foi esse inacreditável Sérgio Cabral, o político mais corrupto do planeta (guardadas as devidas proporções, evidentemente).

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 23 de setembro de 2017, 10:41

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