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Cultura

O sacrifício de Olga

Não chegou às mãos de Olga o romance Iracema, o clássico de José de Alencar, que sua sogra lhe enviou do Brasil para sua cela, em Berlim, onde os nazistas a mantinham presa, na segunda metade dos anos 1930. Juntamente com a revista francesa L’Illustration, o livro foi vetado pela censura da polícia secreta alemã, a Gestapo, com base nas seguintes considerações:

“O romance Iracema – Lenda do Ceará, escrito em língua portuguesa, assim como a revista francesa, não devem de maneira alguma ser entregues à prisioneira Olga Benário. O livro português [sic] descreve a vida de luta de um condenado brasileiro pela liberdade e difama em grande medida a forma de governo ordeira”.

Observação interessante. Do outro lado do Atlântico, na mesma época, a história da morena com lábios de mel circulava livremente, mesmo estando o Brasil sob uma ditadura, a do Estado Novo de Getúlio Vargas, responsável pelo fato de a esposa de Luiz Carlos Prestes, judia e comunista, ter sido extraditada para o país que mais perseguia judeus e comunistas. Ou seja: entregue à Gestapo para que o órgão de repressão mais selvagem do planeta a executasse.

No Brasil, o romance de Alencar sempre foi apresentado aos iniciados como uma obra romântica e ingênua, uma visão cor de rosa das coisas. Para o Terceiro Reich de Adolfo Hitler era uma exortação à liberdade e um libelo contra a ordem pública sob forma totalitária.

Esse paralelo pode agra ser aprofundado, graças a Olga Benario Prestes – Uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, São Paulo, 136 páginas), escrita por Anita Leocádia Prestes, filha do “cavaleiro da esperança” com a militante alemã que se tornou um quadro da Internacional Socialista, com base em Moscou, na então União Soviética.

É um livro pequeno, mas valioso, que incorpora novidades às biografias de Olga. Sua filha o escreveu com base nos arquivos da própria Gestapo, apreendidos pelos russos em 1945, vitoriosos ao final da Segunda Guerra Mundial. Esses arquivos começaram a ser abertos para consulta pública em abril de 2015.

Dos seus 2,5 milhões de folhas, formando 28 mil dossiês, 2 mil foram dedicadas a uma única pessoa: Olga. Na apresentação, a filha, com 81 anos, acha que esse dossiê pode ser “a coleção mais abrangente de documentos sobre uma única pessoa do fascismo”.

Essa história, de amor e tragédia, começou quando Olga e Prestes saíram de Moscou no final de 1934. No longo caminho até o Brasil eles iniciaram uma convivência amorosa que durou apenas 15 meses.

Apesar dessa curta história em comum, ela formou elos afetivos e políticos fortíssimos, que nem a tortura sob prisão enfraqueceu. A correspondência que sobreviveu revela a intensidade dessa relação, perfeita para uma exaltação amorosa e uma glorificação à militância política, à defesa de uma ideia.

Durante seis anos, Olga foi mantida pelos nazistas em “prisão preventiva”, expediente usado “para detenção por tempo indefinido e sem instauração de processo judicial”. Não era prevista a atuação de advogado.

Quando seus carcereiros concluíram que nada podiam arrancar dela, a transferiram da prisão em Berlim para campos de concentração. Ela foi assassinada numa câmara de gás do campo de concentração de Ravensbrück, em maio de 1942. Tinha 34 anos.

Sua comovente história serve de motivo de reflexão no Brasil e na Alemanha, com significação universal. Assinala um dos momentos mais negros e vis da carreira de Getúlio Vargas. Presa juntamente com Prestes, logo depois da malograda tentativa de desencadear a revolução no Brasil através de um movimento armado, ela podia ser mantida em cárcere nacional, ao invés de ser entregue, grávida, à barbárie antissemita e anticomunista de Hitler.

A ditadura se recusou a reconhecer méritos e direitos do adversário, direta e indiretamente. Essa intolerância pode refletir as convicções políticas totalitárias do ditador, mas tem a assinatura do chefe da polícia secreta brasileira, ironicamente chefiada por um descendente de alemães, Filinto Müller (que viria a ser senador pelo partido oficial de outra ditadura, a de 1964),

Olga tentou se registrar na embaixada do Brasil em Berlim. Sua solicitação foi recusada tanto pela Gestapo quanto pelo Itamaraty. O Supremo Tribunal Federal rejeitou o habeas corpus em favor dela, quando ainda no Brasil, impetrado pelo advogado Heitor Lima. Defensor de Prestes por designação oficial (o “defensor dativo”), Sobral Pinto conseguiu vencer as “enormes resistências do Itamaraty e do governo brasileiro” para permitir que o prisioneiro assinasse a declaração de paternidade de Anita Leocádia.

Ela só foi entregue pela Gestapo à avó paterna e à tia quando estava com 14 meses de idade (nasceu em novembro de 1836, na enfermaria da prisão). Essa decisão e o tratamento positivo dado à criança pelo período em que esteve sob os cuidados dos nazistas “resultou indiscutivelmente da influência e da repercussão mundial da Campanha Prestes – uma grande vitória da solidariedade internacional”.

A mãe de Olga, que morava em Munique, se recusou a receber a mãe de Prestes e a delegação inglesa que se empenhava pela soltura da sua filha. Praticamente enxotou as senhoras inglesas, que saíram de Londres mobilizadas pela sorte de Olga. Ela se recusou a assinar a guarda de Anita. Por crueldade ou pânico de ser alcançada pela temida Gestapo. Ou as duas coisas.

Os documentos inéditos da polícia secreta ainda não são suficientes para esclarecer de vez alguns pontos ainda não totalmente iluminados, embora já apontados insistentemente, sobre a permanência de Olga na prisão em Berlim e nos campos de concentração ao longo de seis anos.

Os nazistas não a liquidaram logo ou deixaram de dar um destino final à sua filha, como fizeram em numerosos casos assemelhados, porque esperavam muito da confissão que ela podia fazer. Continuaram a insistir, a agravar suas condições na prisão e a torturá-la porque a tinham como “conhecida esperteza dessa comunista fanática”, pessoa “plenamente judia e uma comunista obstinada e astuta”, “comunista inteligente e perigosa”. Anita Leocádia assegura que sua mãe “jamais se prestou a delatar quem quer que fosse nem a ‘confessar’ suas atividades na Juventude Comunista Internacional ou no Comintern”.

A atitude de resistência e insubmissão da prisioneira foi de certa maneira tolerada, o que não aconteceu com outras vítimas dos nazistas, porque eles deviam entender que essa força não era proveniente apenas do seu caráter e doutrinação, mas da sua importância como “agente internacional” de Moscou. Sua filha considera “evidente que a Gestapo só concordaria com a saída de Olga caso ela se decidisse a ‘confessar’ suas atividades comunistas”.

Ela atuara intensamente na Alemanha, desde jovem, antes de se transferir para a União Soviética, e esse seu passado político era considerado “prejudicial ao interesse vital alemão”.

Além disso, com uma eventual libertação de Olga, “haveria uma nova ação propagandística, o surgimento de numerosos requerimentos a favor de Benario, assim como uma nova campanha difamatória contra o Império de parte da imprensa”.

Em virtude da sua inteligência, ela “certamente iria dedicar-se, no exterior, de maneira excepcional, à propaganda difamatória contra a Alemanha”. Concluíram de tudo com uma sentença de morte: “Não vale a pena gastar mais tempo com ela”.

Tudo que fez Prestes e Olga atravessarem o mundo de volta ao Brasil não se consumou. O projeto de revolução iminente foi um fracasso. O visionário e combatente heroico, que convenceu Moscou a colocar sob sua direção quadros valiosos, como Olga, para uma transformação radical na América do Sul, se revelou incapaz de compreender o próprio país e de ser um líder político à altura do chefe militar que fora.

O sacrifício de Olga Benário Prestes foi em vão.

(Jornal Pessoal 634, nas bancas)

Discussão

5 comentários sobre “O sacrifício de Olga

  1. O sacrifício dela foi em vão, mas pelo menos ela lutou por alguma coisa maior do que ela. Hoje em dia, as pessoas somente lutam por e nos seus perfis no facebook. A humanidade está decadente?

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    Publicado por Jose Silva | 6 de julho de 2017, 19:47
  2. A humanidade está onde sempre esteve: tentando sobreviver e, os mais fortes, buscando o poder para se dar melhor que os demais. A sorte é que há entre esses os mais inteligentes, que sabem que deve haver um equilíbrio para que a espécie se mantenha no topo da cadeia animal.
    Mas gente como Getúlio, Hitler e Stalin, Bokassa, Maduro e tantos outros sempre haverá. Basta dar espaço que eles aparecem. Mesmo a Olga, não se sabe o que faria se tivesse a chance de tomar o poder.

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    Publicado por JAB Viana | 6 de julho de 2017, 22:56
    • Jab,

      Já deixamos de ser topo a muito tempo. No mundo degradado que estamos criando, as baratas são as dominantes.
      Somente descobrimos o que uma pessoa realmente é depois que ela tem um pouco de poder. Veja o caso do Lula. Quem diria que ele acabaria do jeito que está acabando? Tinha tudo para entrar na história, mas preferiu ser protagonista do maior escândalo de corrupção que este país já enfrentou.

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      Publicado por Jose Silva | 6 de julho de 2017, 23:36
  3. Se não fosse o Lula, infelizmente, o Brasil não teria provas e comprovação dos roubos cometidos pela corrupta elite.

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    Publicado por Luiz Mário | 7 de julho de 2017, 09:30
  4. Uma grande inspiração de crença e perseverança. Ótimo artigo sobre Olga, até agora só li o livro do Fernando Morais e assisti ao filme – que por sinal é um dramalhão sem fim, muito menos interessante do que a história dela.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 7 de julho de 2017, 11:47

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