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A história na chapa quente (246)

A revolta de Tucuruí

(Escolhi este texto para reproduzi-lo por vários motivos. Ele foi publicado em O Liberal em abril de 1980, quando começava o mandato de cinco anos do último presidente do regime militar, o general João Figueiredo. Ele prometeu prender e arrebentar quem se colocasse contra o seu projeto de abertura política sob total controle dele e do seu aparato pessoal. Um ano depois começariam atentados terroristas da direita, com explosões de bombas.

Apesar do ambiente de tensão e violência, o texto é extremamente crítico à atuação do governo e da então maior empreiteira do país na execução da maior obra que estava emem andamento no Brasil, a hidrelétrica de Tucuruí. O artigo foi publicado na coluna diária que eu mantinha no jornal de Romulo Maiorana pai, não sendo vetado nem censurado.

Além disso, trata de um tema que, apesar de constante na expansão do capitalismo pelas frentes pioneiras, é escamoteado do registro oficial: as revoltas dos trabalhadores contra sua exploração. Esses protestos recrudesceram nos últimos anos em três canteiros de grandes hidrelétricas na Amazônia (Belo Monte, Juruá e Santo Antônio), como se fossem novidades.

Por fim, atesta que nessa época a imprensa – mesmo a local – era mais receptiva ao cotidiano dos grandes acontecimentos e se permitia fazer investigação própria dos fatos, sem ficar inteiramente atrelada à versão oficial.)

Certamente a opinião pública ainda está perplexa diante do motim ocorrido no final da semana passada [o artigo foi publicado na terça-feira da semana seguinte], no canteiro da hidrelétrica de Tucuruí, a maior obra da Amazônia em todos os tempos.

A nota oficial distribuída pela Eletronorte e pela Camargo Corrêa, praticamente 48 horas depois dos acontecimentos, esclareceu menos do que intencionavam seus próprios autores, tornando ainda mais polêmica a interpretação dos fatos.

A nota das duas empresas se alicerça em alguns pontos básicos, justamente os mais controversos da questão:

1 – Que não houve mortos durante os choques entre peões e policiais.

2 – Que os incidentes não se originaram de reivindicações salariais ou reclamações quanto às condições de residência e alimentação.

3 – Que a repressão foi motivada pelo “desrespeito à moral pública, à tranquilidade e aos princípios religiosos do povo”.

Como quase sempre ocorre nesses casos, as duas empresas dizem que os fatos foram divulgados desproporcionalmente pela imprensa, que teria divulgado falsas informações, transmitidas por pessoas interessadas em comprometer a imagem das empresas.

Para avaliar a nota oficial, é necessário reconstituir os acontecimentos. No sábado de manhã, os jornais de Belém receberam a informação, proveniente de Tucuruí, sobre um levante de trabalhadores no acampamento da Camargo Corrêa. Rapidamente foram acionadas algumas fontes em Belém e na própria cidade interiorana.

Essas fontes não apenas confirmaram a primeira informação como deram graves dimensões ao ocorrido. Várias pessoas diziam ter ouvido depoimentos dando conta de que um mínimo de quatro e um máximo de 18 pessoas teriam sido mortas.

Jornalistas foram então deslocados para Tucuruí. Um deles, que fez plantão no aeroporto à espera de um voo da Votec proveniente de Tucuruí, tentou obter informações junto a um funcionário graduado da Camargo Corrêa. O funcionário disse que esperava a sogra e que desconhecia completamente o que acontecera em Tucuruí.

Já um funcionário da Infraero, contatado no aeroporto logo em seguida, informou que aquele mesmo cidadão fora quem fretara um DC-3 da Votec para transportar 12 soldados da Polícia Militar para Tucuruí. Estava ali justamente à espera do contingente. Naquele momento, portanto, a empresa – por seu funcionário qualificado – ainda não estava interessada em esclarecer a opinião pública.

Logo depois chegou o avião procedente de Tucuruí. Nele vinham funcionários de uma empresa de Santa Catarina, a Tupiniquim, que já trabalhara em Tucuruí. Eles estavam no acampamento quando irromperam os atritos.

Seus depoimentos foram coincidentes em vários pontos. Disseram que a grande maioria dos trabalhadores de nível um e dois, que são braçais, criaram um boneco para o malharem como Judas e o vestiram com o uniforme da vigilância interna.

Queriam protestar contra a violência dos seguranças. Embora andando desarmados no acampamento, prendem qualquer trabalhador que tenha bebido, que esteja se comportando descontraidamente “ou com os quais simplesmente não simpatizem”, numa disciplina bastante rígida.

Todos confirmaram também que os trabalhadores contratados pela Camargo Corrêa estão sempre irritados pelos descontos nos seus baixos salários (há sete descontos, desde a alimentação e o alojamento, até fronhas, lençóis e travesseiros). Os descontos chegam a ser de até 70% do que deveriam ganhar.

A alimentação quase sempre é ruim. Nos dormitórios de madeira ficam de 800 a mil trabalhadores, mal acomodados. Como estão sempre endividados, só saem do acampamento quando são demitidos. E alguns, sem alternativa, forçam a dispensa para irem embora. De outro modo, nem teriam dinheiro para custear a viagem.

Na manifestação organizada da sexta-feira realmente houve gestos obscenos, mas seguramente foram atitudes secundárias.   Depois, quem são a Camargo Corrêa e a Eletronorte para decidirem sobre questões tão controversas como moral e princípios religiosos, principalmente quando se colocam na posição dos próprios trabalhadores? Será que assumem atitude semelhante quando há problemas desse tipo na vila residencial dos técnicos e dirigentes?

De qualquer maneira, todos dizem que o protesto era claramente contra as condições de trabalho, a segurança e a alimentação. Naquele dia, os braçais comeram arroz, ovo e feijão. Do nível três em dia, no cardápio havia bacalhoada.

O conflito se originou na decisão de dois vigilantes de despirem o Judas uniformizado como agente de segurança. O que se seguiu ainda terá que ser apurado adequadamente, inclusive as mortes (e, nesse ponto, a imprensa deve continuar sua apuração própria).

Mas fica demonstrada, desde logo, a intransigência dos funcionários da empreiteira responsável pela obra. No mínimo, houve falta de sensibilidade na repressão “ao desrespeito à moral pública, à tranquilidade e aos princípios religiosos do povo”, se é que merecia repressão o “rompimento da aleluia” dos peões.

Depois, fica mais uma vez demonstrado o tratamento cruel e diferenciado que as empresas dispensam às legiões de trabalhadores braçais utilizados nos empreendimentos ou nos projetos que se constituem na Amazônia (como, de resto, no país inteiro).

A Camargo Corrêa parece considerar que pagar 2.800 cruzeiros a uma pessoa que trabalha de sol a sol, em condições adversas, em áreas pioneiras, descontando-lhe todos os serviços prestados  (ainda que a preço de custo), é tudo quanto pode oferecer. E que não importa muito a qualidade da comida ou da dormida para pessoas rudes, pobres, que vêm de todos os lugares, mas especialmente dos mais necessitados, para trabalhar nessas grandes obras.

As condições especiais – de conforto, de assistência e de vida em geral – são concedidas apenas aos trabalhadores especializados (todas realmente justas), que vêm das cidades, deixando atrás de si um padrão de vida mais elevado. Aos demais, a dureza.

Além de injusto, este é um raciocínio tecnicamente errado. Nenhum ser humano, por mais brutalizado que esteja, aceita passivamente, o tempo todo, trabalhar o dia inteiro numa tarefa árdua, comer mal e comer desacomodado. Um dia explode.

A Eletronorte e a Camargo Corrêa não podem exigir também que a opinião pública aceite suas explicações quando, no passado, tem-se tantos casos – na Jari do coronel José Júlio de Andrade, na década de 1920, ou no Trombetas da Mineração Rio do Norte, na década de 1970 – demonstrando o contrário.

Isto é: que manifestações aparentemente irracionais e violentas têm motivação absolutamente lógica, embora igualmente violenta na origem, uma violência diluída no cotidiano. E, finalmente, se era para esclarecer a verdade, por que não adotar essa postura desde o início? Ou as empresas acham que o depoimento pessoal dos jornalistas que estiveram em Tucuruí e tiveram seu trabalho bloqueado é fantasioso ou de má fé.

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (246)

  1. Texto atualíssimo. Como também é a máxima que serve de reação dos oprimidos: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”.

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    Publicado por Luiz Mário | 18 de julho de 2017, 17:52
  2. As empreiteiras desde a construção de Brasília se formaram para ser donas do Brasil , dos governos e do dinheiro público, sem preocupações de responsabilidades, civis, ambientais e com a racionalidade de um tempo que já deixou para trás o capitalismo selvagem.

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    Publicado por JAB Viana | 20 de julho de 2017, 09:49
  3. Ledo engano, caro Jab Viana. Ledo engano!

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    Publicado por Luiz Mário | 20 de julho de 2017, 10:33

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