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Ciência, Colonização, Ecologia, Economia, Estrangeiros, Floresta, Hidrelétricas, Minério, Multinacionais

Agenda amazônica (3)

Capítulo 2: o roteiro de visita

(Prossigo com a matéria publicada pela Agenda Amazônica nº 9, em maio de 2000)

Os 30 participantes do XVIII Congresso Internacional de Geografia que escolheram a excursão 8, dentre as oferecidas pelos organizadores do encontro, optaram por visitar a Amazônia. A maioria dos excursionistas era da Europa. Entre representantes das superpotências, surpreendentemente os russos ganhavam dos americanos por 5 a 4.

Examinado a partir de hoje, o roteiro impressiona pela duração da viagem, de 21 dias (três semanas completas), e pelo fato de que a predominância do meio de transporte era pelo rio, num navio que se transformou em “hotel fluvial”. Sem pressa, conversando e observando a paisagem, os excursionistas fizeram algo que, hoje, dificilmente seria apreciado.

O eixo da excursão foi a calha do rio Amazonas. Os geógrafos e professores de geografia desceram nas principais cidades existentes entre Belém e Manaus, penetrando em “terra-firme” (como escreve Lúcio de Castro Soares) até onde se implantavam atividades humanas pioneiras.

Algumas, em ligação direta e franca com uma base já estabelecida no curso do próprio rio, como indústrias de beneficiamento de juta e serrarias, e outras que faziam a troca da base econômica do extrativismo, que era vegetal e começava a se tornar mineral com a exploração das jazidas de manganês do Amapá.

Um pressuposto do roteiro era de que essas novas atividades promoveriam um salto histórico, mas não tão extenso que acabasse resultando num vácuo, intransponível pelos nativos, além de sua capacidade de compreensão e domínio. Tradição e modernidade, conservação e inovação haveriam de conviver.

Os cientistas veriam os danos causados pela exploração intensa de um solo fraco para propor correções e ajustes, não para ampliar a ofensiva dessa destrutiva agricultura migratória – como, infelizmente, acabaria ocorrendo.

Mudança de eixo

Seria pedagógica a repetição desse roteiro. Quarenta anos depois, o eixo da colonização deixou de ser fluvial, tornando-se rodoviário, multiplicando o alcance daquelas pequenas vias de penetração limitada que os excursionistas puderam ver.

Tudo o que se fazia para incrementar e racionalizar a exploração das “terras-pretas” e das várzeas foi abandonado, ou porque não deu certo, ou porque não teve continuidade.

No Maicuru, os canais através dos quais os sedimentos seriam levados para campos de deposição, de cuja colmatagem surgiria o solo mais rico do planeta, acabaram erodidos pelas águas do Amazonas, dando origem a uma baía, quase um estuário. A força da natureza atrapalhou a engenharia do homem.

Já na várzea do Guamá, os experimentos do Instituto Agronômico do Norte (hoje Embrapa, depois de ter sido Ipean) ficaram nas prateleiras porque procura-se não mais a margem do rio, mas a beira da estrada.

Através dela houve um caótico avanço sobre a terra-firme, vista pelo prisma da excursão como um lugar a exigir uma aproximação lenta e atenta para não ser profanado, destruído. É pouco provável que qualquer dos geógrafos, entre os quais estava gente de fama, como o francês Francis Ruellan, imaginasse que nas quatro décadas seguintes os agentes da ocupação da Amazônia viessem a desmatar 500 mil quilômetros quadrados de floresta nativa, justamente nas áreas mais altas, de intensa laterização, como puderam verificar em todas as suas viagens por terra.

Para todos, o sentido da penetração seria a partir das várzeas, avançando cautelosamente para as “terras ignotas” do interior, não um salto que deixou para trás a história, a geografia e a inteligência, como ocorreria a partir da década de 60.

Como lixo deixado displicentemente, o excursionista dos nossos dias poderá ver as ruínas das indústrias que tentaram avançar no beneficiamento de matéria-prima local (ou aculturada na região, como a juta), e o descompasso entre o horizonte mental e de expectativas da história regional e a régua-e-compasso impostos pelo “grande projeto”, que veio de fora, virado para fora.

Escala desproporcional

A futura hidrelétrica do Paredão, no Amapá, por exemplo, foi incluída no roteiro de 1956 por ser uma “importante usina hidrelétrica”, que então começava a ser construída. No entanto, toda a sua capacidade de geração representaria apenas 10% da potência de uma só das máquinas instaladas na hidrelétrica de Tucuruí, que tem 12 enormes turbinas (de 330 mil kw cada) instaladas (e mais 11 por instalar na iniciada segunda fase).

O paralelismo permite estabelecer uma ordem de grandeza entre o que seria a evolução por dentro da Amazônia e o que significou sua ocupação a partir de fora, num modelo tipicamente colonial.

O roteiro é um guia da Amazônia que poderia ter sido, se tivesse continuado a dispor de algum grau de autonomia ou evoluído num ritmo menos intenso, e uma Amazônia que é, dependente, em seus esquemas vitais, do mundo exterior, que impõe uma marcação acelerada das atividades humanas.

Para geógrafos, acompanhar a excursão pode ter um efeito positivo: mostrar como a geografia perdeu a identidade com seu campo específico de estudo, o homem e a paisagem, ao procurar enriquecimentos na sociologia, na política ou na antropologia.

A interdisciplinaridade permitiu o adensamento de conteúdo humano de uma ciência que se tornava insípida e asséptica enquanto mera reprodução da natureza. Mas, em exagero reducionista, empobreceu a perspectiva propriamente geográfica dos seus praticantes, transformando sua ciência numa extensão daquelas que deveriam complementá-la.

A Amazônia, particularmente, ganharia se os geógrafos voltassem a cuidar melhor das estruturas físicas do globo, não como elementos estáticos ou isolados, mas como uma dimensão própria do nosso mundo. Todos podemos ganhar com a leitura do roteiro preparado por Lúcio de Castro Soares, ainda mais se a partir dele uma excursão tão inteligente fizesse o visitante encarar a verdadeira Amazônia.

No fecho do seu livro, Soares apresentou esta “breve notícia da excursão”:

Utilizando os mais variados meios de transporte, a excursão destinada à Região Norte do Brasil percorreu, em mais de 6 mil quilômetros de itinerário, uma das mais extensas e características partes da imensa bacia amazônica, que se estende do Planalto Brasileiro ao maciço das Guianas, onde o tipo de clima quente e úmido e a natureza florestal da vegetação são elementos geográficos fundamentais na caracterização da região, que tem como eixo o grandioso rio Amazonas.

Tendo deixado o Rio de Janeiro de avião, nos últimos minutos do dia 23 de agosto, o grupo de excursionistas – constituído por 24 geógrafos e professores de Geografia, de 11 nacionalidades – chegou a Manaus ao meio dia do dia 24, passando por Belém às seis horas da manhã. O trajeto Belém-Manaus proporcionou uma vista de conjunto do fundo do vale amazônico, particularmente do seu espesso manto florestal e da planície aluvial do Amazonas, a qual pôde ser observada desde os confins ocidentais da ilha de Marajó.

Na curta permanência do grupo em Manaus (3 horas somente), foram visitados uma moderna fiação e tecelagem de fibras de juta, uma usina de beneficiamento de borracha, o Instituto de Pesquisas da Amazônia, bem como realizada uma rápida excursão pela cidade e seus arredores, incluindo as obras da refinaria de petróleo, com paradas nos pontos de maior interesse geográfico. Neste mesmo dia o grupo se deslocou de avião para Santarém, tendo então oportunidade de, em vôo a baixa altitude, melhor observar a paisagem da bacia amazônica, isto é, da sua “várzea” e da sua zona de “terra-firme”.

O dia seguinte, 25, foi dedicado a uma visita à cidade de Santarém, capital regional do Baixo Amazonas, e à realização de uma excursão fluvial à região da foz do rio Tapajós, e à várzea da margem esquerda do rio Amazonas.

Em 26 realizou-se a planejada excursão fluvial ao lago Grande do Curuaí ou de Vila Franca, importante zona de criação de gado da várzea amazônica: no povoado de Socorro, sito à margem sul deste lago e na borda do platô terciário, foi examinada uma mancha de campo de “terra-firme” dentro da floresta, onde ocorrem elementos vegetais arbóreos típicos do cerrado do Planalto Central Brasileiro.

No dia 27 foi visitado o planalto terciário de Santarém e as plantações de seringueiras de Belterra (ex-plantações Ford), nele situadas. Nesta excursão de 32 quilômetros, feita em automóveis e caminhões, foi, primeiramente, atravessado o terraço onde está a cidade de Santarém e observada a sua vegetação semidecídua.

Galgado o planalto foram visitados o campo agrícola do governo federal e a extensa zona de colonização (colonos nordestinos, principalmente) que se estende para o sul. Guiados por um técnico da Missão Florestal da FAO na Amazônia, os excursionistas penetraram num trecho de floresta primitiva do planalto, tendo ali uma preleção daquele especialista sobre o inventário florestal que aquele organismo das Nações Unidas está realizando na Amazônia, para a utilização racional e econômica de suas madeiras.

Ainda no planalto, no povoado de Santa Júlia, foi examinada uma mancha de “terra-preta”, numa trincheira previamente aberta; da discussão havida entre os geógrafos mais interessados em solos resultou a aceitação, por parte da maioria deles, da origem artificial (humana) das “terras-pretas” em questão, que seriam, assim, de origem arqueológica (testemunhos de antigas aldeias indígenas).

Em Belterra foram demoradamente visitadas as plantações de seringueiras e as suas industriais de preparação do látex para exportação. Neste mesmo dia o grupo retornou a Santarém, descendo de navio o rio Tapajós.

No dia seguinte, 28, foi visitada, em Santarém, a serraria-piloto da Missão Florestal da FAO na Amazônia, e a grande usina de fiação e tecelagem de fibras de juta de Santarém, então em final de construção e início de montagem, bem como as instalações do Instituto Agronômico do Norte para seleção e prensagem de fibras de juta.

No dia 29, os excursionistas deixaram Santarém no navio fluvial que lhes iria servir de “hotel flutuante” durante o resto da excursão, com destino a Monte Alegre, tocando antes em Maicuru, margem esquerda do Amazonas, onde foram observados os primeiros resultados das experiências de sedimentação provocada da várzea amazônica, que ali estão sendo levadas a efeito pelo Instituto Agronômico do Norte, bem como a criação de búfalos indianos, ali feita pelo IAN.

No dia 30 foi feita uma excursão ao planalto paleozóico de Monte Alegre, para observações da sua geologia, geomorfologia (domo devoniano) e vegetação (campos limpos e mata semidecídua), bem como uma visita ao núcleo agrícola do governo federal nele existente (colonos brasileiros e japoneses; neste mesmo dia realizou-se uma excursão fluvial pelo rio Paituna, com visita a um típico lago da várzea amazônica.

Em Monte Alegre foi observado o intenso trabalho da erosão pluvial na borda do alto terraço terciário, ao pé do qual está construída a cidade, recentemente vítima de catastrófico soterramento.

Os dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro foram gastos na viagem de Monte Alegre a Macapá, descendo o rio Amazonas; neste trajeto foram feitas duas paradas na “região das ilhas” (situadas entre as ilhas Grande de Gurupá e de Marajó), sendo visitadas uma usina de beneficiamento de borracha e uma grande serraria a vapor.

Chegando a Macapá na noite do dia 2, foi, no dia 3, feita uma excursão, por estrada de rodagem, desta cidade à colônia agrícola Matapi, situada próximo ao rio Araguari. Neste percurso os excursionistas tiveram oportunidade de fazer observações sobre os “campos-firmes” da baixada litorânea do Amapá (formações do tipo savânico, de gramíneas baixas com espécies arbóreas do cerrado), bem como sobre as formações lateríticas de seus solos, sobre a morfologia de seus terraços pleistocênicos e sobre o contato destes terrenos com o embasamento cristalino.

Na colônia de Matapi (criada para o abastecimento de Macapá), foi observada a atividade agrícola dos colonos nacionais e japoneses nela estabalecidos. Em seguida o grupo se deslocou para Porto Platon, no rio Araguari, acampamento-base para a construção da estrada de ferro do minério de manganês da Serra do Navio. Neste mesmo dia foi feita uma excursão à cachoeira do Paredão, no rio Araguari, onde foram visitadas as obras iniciais da grande usina hidrelétrica, que aproveitará esta queda d’água.

No dia 4 foi realizada, pela então recém-construída Estrada de Ferro do Amapá, uma excursão às jazidas de manganês da Serra do Navio (alto rio Amapari); esta excursão ferroviária teve início em Santana (porto de exportação do minério de manganês), no rio Amazonas.

A partir de Porto Platon foram observados, nos cortes recentes da ferrovia, pormenores da estrutura do desgastado peneplano cristalino (rochas arqueadas e algonquianas) da encosta do planalto das Guianas, bem como vários aspectos da densa floresta tropical que o recobre.

O dia 5 foi dedicado à visita da cidade de Macapá, sua histórica fortaleza colonial e monumentos da linha do equador, que passa a poucos quilômetros ao sul da capital do território.

No dia 6 realizou-se uma excursão fluvial, subindo o rio Amazonas, à cidade amapaense de Mazagão, situada no rio Vila Nova, onde foram observados os trabalhos de enxertia e multiplicação de mudas de seringueiras e cacaueiros de selecionadas linhagens, no posto agrícola do governo territorial, ali existente.

No dia 7 o navio deixou Macapá com destino à cidade de Soure, na ilha de Marajó, onde chegou no dia 9. Nesta viagem, feita pela “região dos furos”, a oeste da ilha de Marajó, foi visitada a cidade marajoara de Breves, importante centro madeireiro da “região das ilhas”.

No dia 9, partindo de Soure, foi feita uma excursão fluvial, pelo rio Paranaquara, a uma grande fazenda de criação de gado da ilha de Marajó, onde estão sendo empregadas modernas técnicas para melhoria do rebanho bovino.

No dia 10 os excursionistas chegaram de navio a Belém, visitando no dia seguinte o Museu Paraense Emílio Goeldi e seu jardim zoológico com exemplares da fauna amazônica.

No dia 12 foi realizada uma excursão, em ônibus, à cidade de Capanema, situada na “Zona Bragantina”, a mais antiga e mais densamente povoada área agrícola da Amazônia Brasileira.

Nesta excursão foram principalmente observados: o relevo e a drenagem dos terrenos quaternários e terciários do litoral paraense, as lamentáveis consequências da rotação de terras nos terrenos arenosos da “terra-firme” da Amazônia, a decadente atividade agrícola regional; e estudado, em Capanema, um depósito de calcário limnológico, em exploração para produção de cal, da formação miocênica marinha de Pirabas.

No dia 13 de setembro, último dia da excursão, foi feita uma visita à cidade de Belém e ao Instituto Agronômico do Norte, situado em suas imediações. No IAN, os excursionistas conheceram as experiências que estão sendo realizadas pelo Instituto para o aproveitamento agrícola racional das várzeas do rio Guamá visitadas pela maré, bem como tiveram uma visão de vários perfis de solos desenvolvidos em terrenos do Quaternário Antigo do litoral amazônico.

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