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Colonização, Ecologia, Economia, Estrangeiros, Grandes Projetos, Multinacionais

Agenda Amazônica (7)

PERGUNTA/RESPOSTA

(Publicado na Agenda Amazônica nº 16, de novembro de 2000)

Nesta seção, respondo a perguntas feitas em palestras e que não pude atender por falta de tempo. Embora o debate costume ser o melhor momento desse tipo de acontecimento, quando deixado para o final fica inconcluso e insatisfatório. Nesta edição, respondo a perguntas feitas por alunos do Colégio Vera Cruz, durante mais um dos dias dedicados à Amazônia que aquela instituição realizou – com o brilho dos três eventos anteriores, aliás.

RODA QUADRADA

No modelo de desenvolvimento ocidental capitalista, os países que hoje são primeiro-mundistas desmataram suas florestas para poderem se desenvolver. Não seria essa a alternativa para os países terceiro-mundistas se desenvolverem?

Um edito do rei da Suécia de quatro séculos atrás já determinava a suspensão, por 20 anos, da derrubada de árvores para a produção de carvão, que seria usado como redutor para o ferro gusa. Até hoje, somos o único país do mundo a produzir gusa à base de carvão vegetal, atividade que se sustenta pelo desconhecimento do valor da economia natural.

Alguns países mais adiantados tiveram mais cedo essa percepção. Mas, a rigor, a ecologia só existe como fonte de preocupação mundial há menos de meio século. Com ela, o homem descobriu que faz mau uso dos recursos da natureza, antecipando a exaustão de alguns desses recursos e condenando ao desaparecimento outros, que poderiam ser renovados.

Também está compreendendo que agredir a natureza é como lançar um bumerangue: a natureza pode ser destruída, mas sentiremos na pele os efeitos desse dano, no seu retorno inevitável. Só os insensatos deixam de considerar que a persistência de um modelo baseado no desperdício e na irracionalidade no trato com a natureza poderá inviabilizar a nossa vida neste planeta. A ecologia será a ciência do século 21.

O mundo evoluiu desde que a indústria começou a lançar poluentes por suas chaminés e a expansão da atividade produtiva se fazia à custa da redução do espaço da natureza. Se não evoluir, estará se condenando ao desaparecimento.

Diante do quadro, alguns suspirarão sua profunda nostalgia, lamentando não terem nascido numa época em que as emissões poluentes subiam à atmosfera sem qualquer controle. Estarão agindo tão equivocadamente quanto aqueles que, a partir dos padrões de hoje, lançam à condenação todos os que, no passado, não seguiram esse “paradigma”, quando, obviamente, esses referencias simplesmente inexistiam (só os profetas as anteviam).

Se as normas ecológicas limitam os movimentos do capital, alterando a formação do preço do produto e o cálculo da remuneração do investimento, além de afetar o perfil das inversões econômicas produtivas, o conhecimento proporcionado ao homem pela ecologia permitiu-lhe ser mais criativo ao lidar com a natureza, assegurar a sustentabilidade dos recursos naturais, perenizando atividades que eram (e ainda são) de curto fôlego, e ter um domínio mais amplo dos efeitos em cascata de sua intervenção sobre a paisagem, podendo até exercer um grande controle sobre ela.

Querer voltar no tempo para, praticando os erros do passado, usufruir dos seus rendimentos, é ignorar o avanço da história e desperdiçar as conquistas do saber. Com ciência e tecnologia de ponta, ajustadas às especificidades locais, pode-se ganhar mais dinheiro ainda do que numa economia organizada fordianamente, no taylorismo ou no toyotismo, sem comprometer o estoque ou a reserva de capital natural.

Sob uma míope concepção de ganho, não vamos deixar de ser contemporâneos. Se assim for, estaremos reforçando nossa condenação ao atraso, à dependência, à satelitização. Nosso desafio não é o de fazer a máquina do tempo regredir, mas sim nos anteciparmos ao futuro, para que ele já não nos chegue com seu enredo escrito nas letras. Se assim for, só nos restará seguir à risca o conselho do belo poema de Olavo Bilac. E ouvir as estrelas. Ora pois.

PREÇO DO ATRASO

Ò governo prega que a destruição da floresta é feita para desenvolver a região. Será que devemos acreditar nisso? Ou devemos trancafiar a floresta e não explorar os recursos naturais, pois qualquer exploração é destrutiva ambientalmente?

O homem já alterou 15% da superfície da Amazônia, considerando-se seus limites em 3,5 milhões de quilômetros quadrados. Quase tudo isso foi executado nas últimas quatro décadas. Mais para trás, o índice é inferior a 1%. O efeito danoso dessa alteração certamente vai muito além de 500 mil km2.

Uma das grandes missões da ciência contemporânea já não é medir quantitativamente essa destruição, mas avaliá-la qualitativamente, inventariando o que foi destruído, o que ainda está sendo destruído, o que será destruído no futuro como ressonância do que já se fez e como se processa a adaptação (se existente) da natureza no cenário transformado pelo homem.

Passar a corrente pela floresta e trancá-la com cadeado é impossível. Penetrar nela à maneira de décadas ou séculos atrás é insensatez. Hoje, só uma pessoa desinformada ou de má-fé acredita que madeira sólida é o melhor produto da floresta. Mas era só para obtê-la que se fazia desmatamento. E ainda se faz em muitas partes do planeta, inclusive nos Estados Unidos. Mas a ciência já acumulou conhecimentos suficientes para arquivar esse tipo de concepção.

Sabemos que o ecossistema amazônico resulta de um equilíbrio precário, de um ciclo quase fechado. Só é recomendável penetrar nele com conhecimento de causa, tendo algum controle dos efeitos dessa intervenção. E dispondo de um guia sobre as aptidões naturais da área.

Ou seja: o ensaio e erro é um método inviável na Amazônia. Na maioria das vezes, não teremos uma segunda alternativa. O dano causado poderá ser irreversível. Quando nada, porque é mais caro curar a natureza do que prevenir sua doença.

Os 500 mil km2 de áreas alteradas ou degradadas já constituem um universo formidável. Pode-se explorá-lo melhor, consolidar o que é saudável e converter o que é gravoso, buscando um novo ponto de equilíbrio, que significa o maior grau possível de harmonia entre as necessidades do homem e as da natureza (contando-se com dinheiro suficiente para tal, é claro).

Mas não se deve expandir a fronteira econômica sem formamos um estoque satisfatório de informações sobre a área visada. Nenhuma contingência autoriza manter essas frentes pioneiras, nem mesmo as razões de segurança nacional.

Não é reanimando o cadáver insepulto do Projeto Calha Norte que se vai criar uma zona de segurança contra a expansão da guerrilha e do narcotráfico pelas fronteiras amazônicas. O preço para converter o espaço da natureza no espaço da soberania nacional (entendida como pastagens, campos de cultivo, hidrelétricas, estradas, cidades) é o sacrifício da condição amazônica dessa área, anulando-se de vez a possibilidade de um desenvolvimento sustentável.

Será que nossa condição de terra de água, floresta e sol é incompatível com o nosso status jurídico de território nacional?

Discussão

5 comentários sobre “Agenda Amazônica (7)

  1. Nosso real desafio é reconhecer, para combatê-lo, o estupro cultural ocorrido nesta região.

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    Publicado por Luiz Mário | 23 de julho de 2017, 10:58
  2. Interessante como há menos de vinte anos houve esse debate no Vera Cruz com tão boas interlocuções, achei as perguntas interessantes, imagino que tenham sido feitas pelos secundaristas. Tenho a impressão de que o ensino nas escolas particulares se achatou desse período para cá, de modo que as questões referentes à condição da Amazônia no mundo já não são mais relevantes de um ponto de vista mais crítico (talvez apenas como itens de provas objetivas do vestibular).
    Sobre o tema, sempre me pergunto se existe justiça em algum modelo de penetração da Amazônia, pois mesmo aqueles associados a um pensamento acadêmico de defesa ambientalista, ecofeminista, vegananista, istas istas istas. sempre me soam assentados sobre o mesmo fundo estrutural de ordem colonial responsável por nos fazer reféns de modos de produção destrutivos, elaborados distanciadamente de nossos imaginários, concepções produtivas, cultura. Eu realmente não sei como é possível combinar o progresso com a Amazônia, porque o progresso, para começar, corrompe vidas sociais e ambientais beneficiando a longo prazo apenas alguns poucos, uma parte ínfima da população.
    Abs

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 23 de julho de 2017, 12:30
    • Nessa época, o vestibular, por ser local, dava à Amazônia uma importância que desapareceu com o teste nacional, feito para candidatos do país inteiro. Foi uma grande perda. O Átila Kzan, professor de geografia, reunia centenas de estudantes para ouvir palestras sobre a Amazônia. Isso acabou.
      A maioria dos intelectuais que contesta esse “modelo” de ocupação continua apenas no diagnóstico e na crítica. Não busca alternativas nem examina as conjunturas para nelas encontrar uma maneira de mudar a concepção dos empreendimentos de grande porte, voltados à exportação, que são ops que definem os rumos da região. Frequentemente nem conhecem a mecânica desses empreendimentos. O caso Belo Monte oi um exemplo dessa limitação. Parte da irracionalidade da hidrelétrica é contribuição da crítica de esquerda.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 23 de julho de 2017, 18:25
  3. Enquanto os parâmetro usados para caracterizar a Amazônia forem exteriores a ela, sua sina será o crescimento de “rabo de cavalo”.

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    Publicado por Luiz Mário | 23 de julho de 2017, 18:52
  4. Acho que a Amazônia é importante demais para ser mexida sem alguma cerimônia e conhecimento suficiente. Já se fez estragos demais e é uma obrigação do Estado e da sociedade que o controla a conter expansões de fronteiras por sobre a floresta.
    Com o que já se dizimou, é suficiente para produzir dez vezes mais do que já produzimos. Basta expandir as fronteiras da produtividade e do saber fazer. As próprias áreas degradadas, antropisadas, poderiam gerar novas florestas para saciar a demanda por nossas madeiras e carvão.
    No que resta, deveria ser congelada qualquer expansão sobre a floresta, usando-a em extração controlada apenas o que pode ser manejado, enriquecido, sem desmatamentos.

    É possível retirar madeira sem agredir o meio em que ocorre o recurso florestal? Então, faça-se como manda a ciência e a técnica, repondo-se o extraído. Não há estudos e técnicas para tanto? Proíba-se a intervenção!

    Consenso: novos desmatamentos e modificações da paisagem são assuntos de segurança nacional, proibidos em princípio, com penas severas para quem transgredir ou viabilizar a transgressão, inclusive os fabricantes de máquinas e serras elétricas vendendo sem autorização dos órgãos ambientais com destino à Amazônia. Isto serviria para qualquer riqueza, que só poderia ser extraída com o devido projeto de manejo e controle aprovado pelos órgãos ambientais e fiscalizados pela guarda florestal.

    Essa guarda florestal deveria ser criada, empregando-se todos os nativos amazônidas em idade de serviço militar, homem ou mulher que assim se alistassem na maioridade. Em quatro a cinco anos de serviço militar florestal, além do combate ao desmatamento e queimadas, da proteção do meio ambiente, da floresta e rios, das espécies animais e recursos minerais e drogas da florestas, da biodiversidade, esses jovens receberiam treinamento profissional para estarem prontos a exercer trabalhos e negócios na região onde vivem, sem necessidade de expandir a fronteira de produção agrícola. Trabalhos com chocolate, amidos, móveis, cerâmica, operação e manutenção de máquinas e motores, trabalhos em estradas e portos, agroindústria e outras coisas mais, agradeceriam receber recursos humanos capacitados a serem envolvidos e empregados nas atividades econômicas da Região.

    Seria o preço que o Brasil e o mundo teriam que pagar para manter a floresta preservada, seu povo empregado e treinado e a Região integrada ao País e não sob a ameaça de internacionalização. E o melhor: teria resultados maiores que os investimentos, com redução dos problemas sociais e do tal círculo vicioso da miséria e da fome.

    Esta seria uma outra pergunta ao jornalista: será que a internacionalização da Amazônia não faria bem para a Região e seus habitantes? Perguntar não ofende, afinal, como colônia do Brasil, nem ferro levamos, já que a Vale retira tudo o que pode e nos deixa umas migalhas em troca de devastação, devastadores e um imenso fosso de misérias, incrementado pela incessante busca de riquezas e oportunidades em torno da mineração e do sonho do Eldorado.

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    Publicado por JAB Viana | 23 de julho de 2017, 19:03

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