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Energia, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Imprensa

Agenda Amazônica (8)

Um diário de província

e os anais da história

(Publicado na Agenda Amazônica nº 15, de novembro de 2000)

Diário de um convertido, de Emir Bemerguy, vale sobretudo como uma contribuição à cronologia de Santarém entre 1968 e 1992. Apesar de ser a segunda maior cidade do Pará, a capital do Baixo Amazonas dispõe de poucas fontes para o registro da sua história contemporânea. Ao longo de um quarto de século, Emir fez anotações em seu diário que podem ser uma referência válida para o que aconteceu de relevante no período.

Mas certamente ele poderia reduzir a um terço as 577 páginas do seu livro (editado pelo Instituto Cultural Boanerges Sena e apoiado pela prefeitura municipal), com ganhos para a leitura, se expurgasse do texto para publicação as referências de valor meramente sentimental, pessoal ou familiar.

Elas até poderiam preservar o peculiar gosto provinciano, ao qual não falta o encanto das coisas originais, se a conversão do autor não o tivesse aproximado do paroxismo do fanatismo – ou da pieguice. O convertido perdeu em qualidade literária para o herético. Presume-se que o ganho em desfrute de vida haja sido compensador para Emir. Para seus leitores, é duvidoso.

Citado duas vezes no diário, gostaria de fazer meu contracanto ao autor naquilo que pode interessar à opinião pública.

ANOTAÇÃO HIDRELÉTRICA

Em 5 de janeiro de 1986, Bemerguy anotou no seu diário:

“Inaugurou-se, a 22 de novembro, a Hidrelétrica de Tucuruí, a fabulosa usina que vai gerar oito milhões de quilowatts. Ao longo dos últimos seis meses a imprensa do Pará foi sacudida por uma ardorosa polêmica em torno da obra. Tudo se questionava, tudo se condenava: as imprevidências ecológicas, a insensibilidade social, a arrogância da Eletronorte – a estatal que comanda a construção do colosso. Um bloco de intelectuais, sob a liderança do inteligente, mas palavroso e dono da verdade Lúcio Flávio Pinto, andou pondo o Estado em pânico. As previsões eram as mais apocalípticas possíveis: o Tocantins ficaria totalmente seco, os peixes morreriam todos, Belém teria a salinização insuportável da água potável que consome!

Os argumentos pareciam ponderáveis. Apoiei a campanha em dois artigos dominicais. Veio, porém, a inauguração da obra e nem dez por cento das profecias aconteceram… Indignado com os pregadores do caos, escrevi outra crônica em ‘O Liberal’ (mantenho há oito anos a coluna) exigindo de Lúcio e dos demais ‘técnicos’ em hidrologia uma explicação pública, sob pena de perderem a credibilidade ante o Pará inteiro. Terminei parabenizando a Eletronorte pelo êxito. E fui dormir em paz. Dias depois o Paulo Sérgio, meu sobrinho, que hoje é um dos melhores repórteres de ‘O Liberal’, telefonava ao Eros, seu pai.

Transmitiu uma notícia que o seu, o nosso jornal silenciara porque o Lúcio Flávio faz parte da redação e seria humilhante para ele divulgarem o fato. A Eletronorte mandou reproduzir o meu artigo em milhares de ‘posters’, num papel de excepcional qualidade, distribuindo-os fartamente no dia da inauguração, que atraiu autoridades e povo de toda parte. Não satisfeita, preparou imensos ‘out-doors’ colocados em pontos estratégicos, realçando as frases mais quentes de meu trabalho. Naturalmente, alegrei-me, espantado, com tudo isso”.

Decidi responder a essa observação de Emir porque poucos dias atrás uma história semelhante foi publicada na Primeira Coluna, de A Província do Pará, com a intenção de ser uma resposta indireta à crítica que fiz àquele jornal através do meu Jornal Pessoal. Eu seria “o homem do sal”, que previra a contaminação dos mananciais de água potável de Belém em conseqüência da retenção das águas do rio Tocantins na barragem da hidrelétrica de Tucuruí. Que profetizara o caos, como diz Emir.

Mas tanto a nota de A Província quanto a anotação de Emir são versões caricatas da história. Não podemos deixar que essa abordagem jocosa, colonizada e cortesã do episódio prevaleça sobre o que efetivamente ele representa: um dos momentos mais altivos e nobres da imprensa paraense e uma das mais felizes mobilizações do povo paraense.

Assumo por inteiro minha parte nessa história, sem qualquer constrangimento. Fiz minha primeira viagem de cobertura profissional a Tucuruí (e Barcarena) em 1974, antes da instalação dos empreiteiros principais nos canteiros de obras (a hidrelétrica e as fábricas de alumina e alumínio). Na volta, escrevi uma reportagem crítica sobre o projeto, que desagradou a direção da Eletronorte e da CVRD, mas foi entendida e aceita por Claudiano Carneiro da Cunha, nosso excelente e democrático (algo raro na época) guia de excursão, em nome da Vale.

Voltei várias vezes a Tucuruí até 1983, quando uma bolsa concedida pela Universidade da Flórida, em Gainesville, me permitiu passar a mais estimulante temporada de estudos nos Estados Unidos.

Jornalismo de combate

Ao voltar, depois de rastrear o setor hidrelétrico americano (logo, já não marinheiro de primeira viagem, irresponsável ou volúvel, capaz de formar sua opinião com o mesmo superficialismo de mudá-la), eu estava convencido de que era meu dever cobrar da Eletronorte todas as informações pendentes sobre Tucuruí.

Durante quatro meses escrevi sobre a usina todos os dias na minha coluna de opinião em O Liberal. A maioria dos artigos questionava as informações da Eletronorte e cobrava novos esclarecimentos, formulando ainda questões inovadoras no nosso contencioso, preenchendo uma agenda de discussões que tinha permanecido quase vazia até então.

Em alguns artigos eu estava certo, em outros errado, mas minha função de auditor popular foi cumprida: a Eletronorte, a mais arrogante (arrogante, sim, dr. Emir) empresa pública em atividade na Amazônia, sobre a qual exerce jurisdição, mas na qual jamais estabeleceu sua sede (ao contrário de todas as demais estatais regionais do setor elétrico), resistente a todas as tentativas feitas no sentido de deslocar seu QG de Brasília para cá, teve que descer em Belém e responder às indagações, problematizações, críticas e denúncias.

Além de escrever na minha coluna, eu era o responsável pela maioria das notas do Repórter 70 e atuava como comentarista da TV Liberal. Era também correspondente de O Estado de S. Paulo. Mas nunca usei esse poder eventual para constranger pessoas ou interditar temas.

Houve um tempo em que a pressão era tanta e tão diversificada, da parte do governo e do lado dos críticos (vários dos quais usavam o problema como escada para subir e se projetar, alcançando seus 15 minutos de fama ou algo mais), que Romulo Maiorana me mandou um bilhete.

No bilhete, me designava para responder, em nome do jornal, por tudo o que dissesse respeito a Tucuruí. Esse documento, eu o juntei aos autos das ações ajuizadas contra mim pela filha de Romulo, Rosângela, quando ela também me acusou de me favorecer da amizade com seu pai.

Ao contrário do que Emir diz que seu sobrinho teria dito ao pai, em nenhuma vez O Liberal deixou de publicar qualquer matéria, do interesse da Eletronorte ou a mim desfavorável na polêmica. Jamais alguém mencionou a possibilidade da minha desmoralização no duelo ser causa de proibição de matéria.

Os argumentos contra e a favor da obra foram escrupulosamente divulgados pelo jornal, como nunca antes acontecera (e, infelizmente, nunca depois). Inclusive o artigo de Emir, que a Eletronorte reproduziu à larga, usando-o como arma publicitária contra nós (sua sinceridade e desprendimento no imbróglio não foi posta em dúvida, embora considerássemos francamente equivocada a sua posição). Tudo saiu. Quem tiver prova em contrário que a apresente. Prova, não falatório de esquina.

Cobertura única

Foi a maior cobertura que a imprensa já deu à conclusão da obra de uma hidrelétrica, não só no Pará, na Amazônia ou no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Não sou eu quem estou dizendo isso. É o que se depreende de um longo artigo que o professor americano Rolf Sternberg escreveu sobre Tucuruí (infelizmente não traduzido para o português), utilizando como sua principal fonte de referência o material de jornal, especialmente os meus artigos. E ele é insuspeito para fazer a avaliação: sua posição não coincide com a minha.

Pesquisadores da área de geografia da Universidade Federal do Pará, num levantamento de tudo o que foi escrito sobre a usina, também chegaram à conclusão de que fui quem mais tratou do tema, de longe. É claro que haveria de cometer impropriedades e erros ao avançar sobre assuntos de vanguarda, no momento mesmo em que eles aconteciam.

Muita gente mais habilitada no mundo acadêmico esquivou-se, fugiu do assédio ou esperou hora mais oportuna para se manifestar. Tinha medo de errar. Ou medo pior ainda do que esse. No entanto, o saldo dos erros e acertos de uma polêmica comandada pela imprensa é, ao meu ver, altamente superavitário.

Graças à nossa cobrança, Tucuruí foi a primeira hidrelétrica a ter estudos sobre seus efeitos a jusante. Apesar da longa tradição brasileira em construção de barragens, o impacto da obra rio abaixo era ignorado pelos engenheiros, mesmo havendo alentada bibliografia sobre o que ocorreu no delta do Nilo com a represa de Assuã e na foz do Colúmbia, no noroeste dos Estados Unidos, com os sucessivos aproveitamentos energéticos do rio.

Graças a esse pioneirismo nacional, pudemos conhecer melhor o estuário do rio Pará, um dos mais ricos e complexos do litoral brasileiro, mas sobre o qual nossas informações eram pateticamente limitadas.

Fui o primeiro a suscitar a possibilidade de um rebaixamento crítico do leito do Tocantins com a retenção de suas águas a montante da barragem de Tucuruí e a possibilidade de o índice de salinização comprometer o abastecimento de água potável de Belém. Qualquer pessoa que repetir o trabalho dos pesquisadores da UFPA, comandados pela professora Célia Coelho, vai verificar que eu comecei rigorosamente levantando hipóteses, o primeiro passo para testar uma verdade científica.

Um dos seus principais fundamentos estava na decisão da Eletronorte de modificar o projeto original da barragem, cancelando o descarregador de fundo. Através dessa passagem no pé da represa, sempre haveria vertimento de água de montante para jusante, evitando os impactos negativos mais graves rio abaixo.

As hipóteses mais críticas não aconteceram, é verdade. Mas, pelo menos no meu caso, só fui carregando nas tintas porque a Eletronorte se mantinha em silêncio sobre minhas dúvidas e cobranças, apresentadas de público, com toda a lealdade, com sincero desejo de contribuir para que não ocorressem os problemas suscitados.

Finalmente, quando pude confrontar meus dados e especulações com os técnicos do consórcio Engevix-Themag, durante um exaustivo seminário patrocinado em Belém pelo então deputado federal Fernando Coutinho Jorge, em nome da Câmara, verifiquei que a confiança dos técnicos se baseava num sofisticado modelo matemático e a simulações feitas em tamanho reduzido da barragem, adequadamente calibrado para responder a todas as dúvidas.

Depois de intensos debates com os técnicos, às vezes frontal, mas em tom respeitoso e civilizado, reconheci publicamente que eles dispunham da melhor ferramenta com que se poderia contar, à falta dos estudos de campo, impossibilitados pela carência de tempo (a análise dos efeitos ecológicos a jusante foi iniciada sete meses de começar o enchimento do reservatório da hidrelétrica).

Mesmo assim, deve-se lembrar que a Eletronorte antecipou o cronograma de formação do lago para aproveitar-se de uma antecipação imprevista das chuvas, que contribuiu para que as previsões mais negras (não foram as minhas, porém) não se consumassem.

Não sou um catastrofista, nem torço pelo insucesso alheio. Sou alguém que acredita nos métodos científicos do conhecimento, impossíveis sem a formulação de hipóteses, inertes à falta do pessimismo criador (e inócuos sem a vontade de fazer). Havia muitas dúvidas em relação ao projeto de Tucuruí porque a Eletronorte era fechada, autoritária, auto-suficiente. Não queria prestar contas. Reagia com intolerância à provocação da crítica.

As coisas teriam sido muito melhores se ela se tivesse aberto ao diálogo desde o início. Problemas de hoje não existiriam ou estariam atenuados se ela tivesse a humildade de ver e corrigir seus erros.

O descarregador de fundo, por exemplo, onerava a barragem (em orçamento e implicações de engenharia) e talvez sua supressão tenha sido a melhor decisão, de uma perspectiva de curto prazo. Mas se ele tivesse sido construído, o baixo Tocantins não estaria amargando as consequências da perda dos nutrientes anteriormente transportados pelo rio, que passaram a ficar retidos pela barragem.

As ilhas a jusante estão cada vez mais empobrecidas porque suas terras deixaram de ser recicladas através da deposição natural de sedimentos do rio na cheia. Esse é um golpe terrível, de amplitude cultural, civilizatória. Os engenheiros só viam o rio enquanto kw. Os caboclos o cultuavam como vida.

Incumbida de executar uma tarefa que transcendia sua competência específica, segundo um cronograma sobre o qual não era voz determinante (ele dependia das obras do pólo de alumínio acertado pelo Brasil com o Japão), a Eletronorte não queria ser perturbada na sua missão, que era árdua, mas se limitava a uma obra de engenharia hidrelétrica.

Nós víamos Tucuruí num contexto mais amplo, de desenvolvimento regional, para o qual o prospecto da Eletronorte era uma camisa de força. Pagamos um alto preço por essa posição. Manifestações como a de Emir mostram que o preço continua a ser cobrado. Só que a fatura está errada. E o enredo da história, distorcido.

ANOTAÇÃO POLÍTICA

A outra observação de Bemerguy que gostaria de comentar foi feita em 2 de abril de 1986:

“Lúcio Flávio Pinto saiu de ‘O Liberal’, desgostoso por não apoiarem sua campanha violenta contra o governador Jader Barbalho. É um rapaz de valor, mas parece vaidoso e arrogante”.

Primeiro: não fiz uma “campanha violenta”. Violentos e escandalosos eram os fatos que eu revelava. Meu tom só subiu alguns decibéis quando o jornal do governador, acuado pelas minhas matérias, irrespondíveis, reagiu mentindo.

Disse que eu estava movendo uma campanha contra Jader porque ele se havia recusado a me nomear para a superintendência da Sudam. Na verdade, eu havia dito ao governador, na última conversa em off como amigos que tivemos, em fevereiro de 1985, que ele perderia meus últimos créditos se, consumando uma ameaça pendente no ar, trouxesse o doutor Henry Kayath do Rio de Janeiro para assumir a Sudam.

Estimulado pela liberdade que me concedia para uma conversa absolutamente de confiança, lembrei ao governador que o doutor Kayath conseguira se afirmar como médico em uma clínica especializada no Rio, depois de uma acidentada saída de Belém, nos idos do golpe militar de 1964 (até hoje habeas corpus para muita gente) e que seu retorno a uma função pública, atendendo a conveniências políticas e pessoais, seria um retrocesso, semelhante aos que Jader criticara quando Jarbas Passarinho era o dono das indicações federais no Pará e colocava em cargos vitais pessoas despreparadas para a tarefa.

Jader não gostou do que eu disse, mas acho o tempo me deu completa razão. Ou ao menos não estaria o doutor Kayath cobrando indenização do governo federal por tê-lo trazido do Rio para a Sudam e o demitido sumariamente, quando evolaram os interesses e as conveniências que o haviam colocado no comando da Sudam, não para servir ao povo da Amazônia, no meu ponto de vista.

Assim, não foi por me faltar o apoio do jornal para uma “campanha violenta” contra o governador que deixei O Liberal. Aliás, quando minhas matérias (sobre os escândalos do Aurá, Banpará, Instituto Tecnológico de Brasília, Maiamegate et caterva) provocaram uma tensão enorme nas relações do jornal com o poder baratista (e neobaratista), que constituía uma das origens do poder do próprio Romulo Maiorana, eu fui ao Rio de Janeiro, onde ele convalescia de sua doença fatal, e lhe entreguei todos os cargos que exercia no jornal, integralmente todos, da minha coluna ao Repórter 70 e à TV Liberal. Ele ficaria à vontade para satisfazer Jader, Kayath e Hélio, naquele momento no mesmo barco, e fazer a campanha do último ao governo.

Depois de almoçarmos, com a única companhia de Déa, Romulo me disse que voltasse a Belém como eu saíra, com todas as funções e sua plena confiança. Eu não sofreria qualquer censura e ele aguentaria todas as pressões. Menos de um mês depois, vetou um artigo que eu escrevera, menos frontal do que outros já publicados pelo jornal. Não tive outra alternativa senão pedir demissão atirando. Afinal, eu fora alvejado por trás num momento em que sustentava tiroteio pesado vindo da frente.

Se agir dessa maneira é ser arrogante e vaidoso, assumo esses defeitos. Pretendo ser assim até o fim dos meus dias. Não creio, entretanto, que se faça justiça imputando-me a pretensão de ser o dono da verdade. Sou uma pessoa de ideias, que defendo com ardor. Mas duvido que alguém tenha se exposto ao debate entre nós.

Vou às covas de todas as raposas e leões, submeto-me a todos os tipos de auditórios, aceito confrontar-me com pessoas de todas as qualificações e formações profissionais. Vou com a disposição de defender o que penso ser verdade. Mas disposto a submeter-me à verdade alheia, quando dela sou convencido no único teste que me interessa: o das ideias.

Perdi a conta dos seminários, simpósios e quetais de que participei quando cheguei a 500, oito anos atrás. Sei que errei, erro e continuarei a errar no futuro. Gosto quando me apontam os erros. Ainda acho que é a melhor maneira de corrigi-los. Mesmo quando me apontam erros com aquele tipo de falsa autossuficiência que constitui o vírus mortal do provincianismo. Por isso ando tanto. É, entre outras coisas, para tentar me livrar desse mal.

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