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Imprensa, Política

A história na chapa quente (246)

Laércio Brabalho e os

mistérios da política

(Publicado no Jornal Pessoal 322, de abril de 2004)

Há certos momentos em que o compromisso público nos obriga a fazer certas coisas que espontaneamente (ou por motivo de foro íntimo) não faríamos. Esse foi o caso da morte do jornalista Laércio Barbalho para o jornal O Liberal. Quando se juntou a Hélio Gueiros, Laércio usou o Diário do Pará, na primeira campanha de Jader Barbalho ao governo do Estado, em 1982, para atacar violentamente a família Maiorana, que apoiava a dupla Jarbas Passarinho/Oziel Carneiro. Não só usando expressões ofensivas, como inventando fatos, caluniando intencionalmente.

Ficou com os Maiorana uma grande mágoa contra Laércio, mas o ressentimento que tinham contra Hélio Gueiros, muito mais ativo na ofensiva contra a família, foi esquecido – e não por algum princípio superior às misérias humanas. Na campanha de 1990 o Diário voltou a se esmerar no jornalismo passional da época plebiscitária da história paraense de baratismo e antibaratismo, mas a linha editorial de O Liberal não foi nem um pouco menos marrom.

Apesar desses antecedentes, foi absurda a decisão dos Maiorana de não dar uma linha da redação para noticiar a morte de Laércio Barbalho, ocorrida na quinzena passada. Laércio foi personagem da história do Pará. Atuou com destaque na Assembleia Legislativa do Estado. Só isso já exigia um registro que fosse (não apenas um minúsculo anúncio fúnebre, ainda por cima mal redigido, dos donos de bancas de jornais e revistas da cidade, que saiu como matéria paga).

Mas havia também uma contingência da própria história do jornal: Laércio foi um dos fundadores de O Liberal, na época em que o jornal era uma publicação oficial do PSD (Partido Social Democrático), controlado por Magalhães Barata, tio de Déa, que hoje preside as Organizações Romulo Maiorana.

Finalmente: Laércio, através do Diário, era tão membro da ANJ (Associação Nacional de Jornais) quanto os Maiorana via O Liberal. Nesse caso, o espírito corporativo tem sua serventia. Mas foi mandado às calendas.

De minha parte, expresso aqui o preito de gratidão da família pela acolhida que Laércio Barbalho deu a Elias Pinto, em setembro de 1968, quando nosso pai conseguiu escapar da sanha do delegado Lauro Viana e sua tropa da Polícia Militar em Santarém. Em Belém, se homiziou da perseguição do governador Alacid Nunes na casa de Laércio, deputado do MDB, mesmo partido de Elias.

Ofensas que depois foram praticadas contra mim nas páginas do Diário, numa época em que solitariamente enfrentava o governador Jader Barbalho, ainda não estigmatizado então, eu as esqueci. Mas gostaria de narrar um episódio que diz muito sobre os hábitos e as estratégias políticas no Pará.

Em 1993, no dia seguinte a um despacho da desembargadora Maria de Nazaré Brabo de Souza, autorizando a realização de perícia na sentença proferida pela juíza Ruth do Couto Gurjão, que me condenava,  o Repórter 70, a principal coluna de O Liberal, publicou nota acusando a atual presidente do TJE se ser do esquema político de Jader Barbalho, atuando no Tribunal Regional Eleitoral. Para isso, Jader a teria nomeado desembargadora.

A nota era uma sórdida vingança contra o despacho de véspera da magistrada. Ao pedir a perícia, eu suscitava a possibilidade de que a sentença não tivesse sido produzida pela juíza que a assinou. A parte contrária, que propusera contra mim a ação, com base na famigerada Lei de Imprensa do regime militar, pela qual fui condenado, fez de tudo para impedir a desembargadora Brabo de atender o pedido.

Não conseguindo o propósito, Rosângela Maiorana Kzan, autora da queixa-crime contra mim, reagiu com a nota, pretextada como defesa do interesse público e denúncia de manipulação política do judiciário (mesma tática utilizada contra o desembargador Benedito Alvarenga, em situação análoga, através da coluna de Paulo Zing, que entrou como Pilatos no credo da vendetta).

Redigi uma nota desmascarando a coluna e mostrando que a desembargadora havia subido ao TJE por ato não de Jader Barbalho, mas de Hélio Gueiros, na época inimigo mortal de Jader (mas hoje em mais uma posição de vice-versa, sempre sujeita à biruta das oportunidades ao vento da amoralidade).

Levei a nota para A Província, mas não consegui convencer Arthêmio Guimarães a publicá-la. Segui para o Diário, a alternativa que pretendi evitar quando fui ao primeiro jornal no qual trabalhei e com o qual sempre mantive estreitas relações.

Guilherme Barra, o redator-chefe, leu a nota e disse que ela só podia sair com autorização de Laércio. Barra e eu entramos no gabinete do presidente da empresa às cinco da tarde e de lá saímos às oito da noite.

Não só com a autorização assinada, mas com numerosos, deliciosos e esclarecedores episódios da história recente do Pará, narrados com vivacidade por Laércio, graças à sua excelente memória, herdada pelo filho mais famoso.

No dia seguinte, para minha surpresa, a nota não saiu no Diário. De Barra consegui uma explicação lacônica: ordens superiores impediram a publicação. Por fonte digna de fé fiquei sabendo mais: no final da noite Jader Barbalho ligara de Brasília mandando retirar a nota, que já estava na página do jornal.

Por que fez isso, que aparentemente contraditava o que deveria ser seu interesse (desmascarar mais uma vez o concorrente e ainda desfazer versão falsa que o desfavorecia), é um mistério. Embora nem tanto. Quem for decididamente atrás de uma resposta, a encontrará. É dessa maneira que se escreve a verdadeira história, para a qual este ligeiro obituário de Laércio Barbalho pretende contribuir.

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