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Grandes Projetos, Minério, Multinacionais

A história na chapa quente (230)

O Pará é do mundo

(Publicado no Jornal Pessoal nº 324, de maio de 2004)

A Austrália é atualmente o maior produtor mundial de alumina, um pó branco, resultante da lavagem da bauxita, que serve de insumo para a fundição do alumínio metálico. A produção australiana no ano passado foi de 11,3 milhões de toneladas. A do Brasil, quarto maior produtor mundial, ficou em 3,5 milhões de toneladas, abaixo dos Estados Unidos e do Canadá, com 5,5 milhões cada um.

Ainda no final desta década, o Pará, sozinho, desbancará todos os concorrentes: o Estado deverá estar produzindo quase 20 milhões de toneladas, praticamente um terço de toda alumina gerada no mundo.

Já no ano passado a Alunorte, empresa instalada no distrito industrial de Barcarena, ao lado da Albrás, sob o controle da Companhia Vale do Rio Doce (com 44% das ações) e da norueguesa Norsk Hydro (com 36%), foi uma das maiores do mundo, com 2,3 milhões de toneladas.

Dentro de dois anos, quando completar sua expansão, já iniciada, ao custo de 582 milhões de dólares, a Alunorte baterá no topo do setor, com 4,2 milhões de toneladas. Logo em seguida poderá chegar a 7 milhões de toneladas, quase o dobro da segunda maior empresa.

No final da década, porém, a Alunorte terá a companhia da ABC Refinaria [o projeto não foi implantado até hoje]. Não só física, mas de produção: a ABC, produto da associação da CVRD com a maior produtora chinesa de alumina, a estatal Chalco (responsável por 6,5 milhões de toneladas), anunciada durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, também estará produzindo sete milhões de toneladas, com possibilidade de expansão final até 10 milhões de toneladas.

Ainda não é tudo. A americana Alcoa, líder mundial do alumínio, está iniciando as providências para estabelecer uma mina de bauxita em Juruti para lavrar quatro milhões de toneladas de minério e, a partir dele, dois milhões de toneladas de alumina, com investimento de US$ 1,4 bilhão (e mais um bilhão na hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu).

Ainda na área da Amazônia Legal, Alcoa, BHPB e Alcan, outras integrantes do antigo cartel das “seis irmãs”, que dominavam o mercado e impunham preços, esperam fazer a Alumar, em São Luís, crescer a um nível próximo ao da então maior fábrica do mundo, a Alunorte.

A penetração chinesa

Essas iniciativas mostram que o Pará se tornará o centro mundial de alumina, com um peso como nunca antes houve, após um investimento combinado de todas as empresas do setor de US$ 3,5 bilhões. A que se deve esse “boom” realmente de impressionar?

Como em outras áreas da economia globalizada, ao forte ingresso da China. Antes da década de 90 os chineses respondiam por 5% da demanda mundial de alumina. Agora, absorvem 20%. Os 5 milhões de toneladas de hoje serão 11 ou 13 milhões em 2010. No mundo, a demanda passará de 50 milhões para 70 milhões de toneladas de alumina no período.

Essa busca desbragada fez os preços dobrarem nos últimos anos, chegando a um patamar sequer imaginável antes. De 150 dólares a tonelada, eles pularam para US$ 280 a 320. A China não pode reprimir sua demanda, mas tem que quebrar os preços, se não quiser chegar a um nível de custos proibitivo. O que fazer? Aumentar a produção. Mas não só a dos seus fornecedores. Sobretudo, a produção que estiver ao seu alcance.

A China está por trás da segunda grande onda externa que chega ao setor minero-sídero-metalúrgico da Amazônia, concentrado no Pará. O Estado se torna, assim, a unidade federativa mais fortemente relacionada, por esse segmento econômico, ao Oriente. Tanto a mineração de Carajás quanto o pólo de alumínio de Barcarena resultaram da associação com o Japão.

A multiplicação e ampliação dessa base tem a ver com as necessidades da China, particularmente suscetível nesse setor por causa da suas reduzidas reservas de bauxita, o minério que está na base desse ciclo produtivo.

Cada vez mais commodities

O Pará, que já é o terceiro produtor mundial de bauxita, caminha celeremente para o primeiro lugar. No final da década, as minas já ativas ou a serem ativadas estarão produzindo 30 milhões de toneladas, quase o dobro da marca atual. Ainda assim, será volume insuficiente para atender a demanda projetada. Novos projetos minerais terão que ser desenvolvidos.

A princípio as negociações sino-brasileiras estavam restritas a operações de compra e venda, mesmo assim de tal porte que tornaram a China o maior cliente da Vale do Rio Doce, passando à frente do Japão (a Ásia comprou 40% do minério de ferro e pelotas vendidos pela CVRD no ano passado). Mas acabaram evoluindo para relações societárias, que aprofundam a parceria.

No primeiro momento a necessidade de incrementar a produção levou a CVRD a expandir aceleradamente a Alunorte e abrir uma segunda mina de bauxita, em Paragominas, porque Trombetas, ao atingir neste ano 16,3 milhões de toneladas anuais, chegou à sua capacidade plena.

Para viabilizar a expansão da Alunorte, de 2,4 milhões para 4,2 milhões de toneladas, a mina de Paragominas lhe ofereceria 4,5 milhões de toneladas de minério. As complicações do licenciamento ambiental atrasaram em um ano o cronograma da mina e obrigaram a CVRD a comprar minério na Guiana.

Em compensação, Paragominas dará um salto para chegar diretamente à etapa seguinte do seu cronograma, de 9 milhões de toneladas, atendendo ao mesmo tempo à Alunorte e à ABC, com o complemento do Trombetas e a alternativa da Guiana. Considerando as quatro milhões de toneladas de Juruti, a produção de bauxita do Pará fechará a década com quase 30 milhões de toneladas.

Apesar desses números verdadeiramente impressionantes, é impossível deixar de chegar a uma constatação amarga: o efeito desse processo é para trás, não para frente. Ao invés de o Pará avançar as etapas do beneficiamento, a partir do lingote de alumínio, está retrocedendo para expandir a níveis recordes a produção de alumina e de bauxita. Níveis que, provocados por subidas rápidas e fortes dos preços, podem passar do limite da prudência, tornando-se insustentáveis a médio e longo prazo.

Assim como respondeu obsequiosamente ao impasse provocado no Japão pelo primeiro choque do petróleo, em 1973, oferecendo-lhe uma zona de produção de alumínio em grande escala e a preços baixos, o Pará está se enquadrando estritamente nas necessidades chinesas. O combustível dessa explosão de produção e de preço é a necessidade imediata da China de alumina.

O porte do projeto chinês não visa apenas assegurar seu suprimento: objetiva também reduzir significativamente os preços. Os dois alvos, evidentemente, são complementares, ao menos enquanto estiver em vigor a tal da lei da oferta e da procura, mesmo num mundo globalizado como o nosso, cheio de cartéis e de interferências políticas.

A corrida aos minérios e metais, que contraria todas as teses supostamente vanguardistas da década de 80 sobre o anacronismo da antiga base sídero-metalúrgica com a onda dos novos materiais, não parece refletir sobre qualquer futuro menos imediato.

A exaustão da mina de Serra do Navio, explorada durante quatro décadas no Amapá pela Icomi, provocou reflexões críticas sobre o volume da produção de um bem mineral relativamente escasso, como o manganês, cuja escala anual chegou em alguns anos a um milhão de toneladas.

Pois a CVRD prevê atingir neste ano 2 milhões de toneladas de manganês na mina do Azul, em Carajás, tornando-se a maior produtora mundial, responsável por 20% do minério comercializado internacionalmente. É um nível inteligente?

Ninguém conseguirá conter essa corrida, ao fim da qual o Pará estará, bem distanciado, na ponta da economia mineral brasileira? Não se sabe: não há qualquer tentativa nesse sentido, sequer um ensaio exploratório. Pode-se direcionar melhor o movimento do capital e evitar que essa seja uma competição de apenas uns poucos eleitos.

O futuro para trás

É melancólico constatar que, ao fim de um ciclo da história do alumínio, com o encerramento da vigência dos contratos de energia leoninamente subsidiados pelo povo brasileiro, o novo ciclo se volte para trás ao invés de evoluir, agregando mais valor ao produto.

De imediato, essa constatação será atenuada ou anulada pelos preços excepcionais de alguns desses bens e commoditties. Mas certos valores estão artificialmente altos, como nos casos da alumina e do cobre, enquanto outros permanecem incrivelmente baixos, como o ferro e o manganês. Mesmo com a escala massiva de produção que o Pará vai atingir, seu poder de interferência sobre os preços continuará mínimo ou nulo. Essa condição não pode persistir.

Assim, recomenda o bom senso que o Estado busque diversificar as atividades e os parceiros para que esse modelo extrativista, sendo também exclusivista, acabe agravando o modelo de enclave que mantém em paralelas esquizofrênicas a curva dos valores quantitativos e a linha qualitativa do processo econômico.

Como se sabe, elas só se encontram no infinito. E a longo prazo, como lembrava o economista John Keynes, pai de uma economia que desabou com o desemprego estrutural, todos estaremos mortos.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (230)

  1. Excepcional e raríssima compilação de dados sobre a neocolônia Pará, mestre. 13 anos se passaram.. e o cenário piorou em proporção direta ao aumento das produções que vc apontou à época?
    Este site, e estas seções, deveriam já ter recebindo algo título de patrimônio histórico municipal ou estadual de nossa terra.
    Impressionante não ter havido um único comentário.. quantos paraenses tem a mínima noção da dimensão da espoliação que ocore, há décadas, em nosso solo??
    Muito obrigado por nunca desistir. Grande abraço.

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    Publicado por marlysonbel | 17 de agosto de 2017, 15:59
    • Muito obrigado, Marly, pelo apoio.
      Aparentemente, melhorou. Na verdade, piorou. Por um critério: o aumento exponencial da produção, que gera mais renda, mas não na proporção dos problemas que cria, indica o esgotamento de recursos naturais não renováveis, como os minérios, e pouco avanço na transformação, que gera mais valor.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 17 de agosto de 2017, 17:52

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