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Política

A história na chapa quente (321)

Doutor Almir se foi:

e Belém, como fica?

(Publicado no Jornal Pessoal nº 325, de junho de 2004)

É provável que o ex-governador Almir Gabriel, ao desistir de ser candidato à prefeitura de Belém pelo PSDB, não tenha dado um adeus definitivo à política, como sua decisão parece sugerir. A desistência não foi súbita nem ditada por motivo de foro íntimo.

Pessoalmente, Almir tinha vários motivos para não aceitar voltar à política, um ano e meio depois de ter concluído seu segundo mandato consecutivo como governador do Estado. Aos 73 anos, voltara a ter tempo e tranquilidade para se dedicar aos netos, cuidar da esposa, voltar-se às suas orquídeas, ler e passear.

Mesmo assim, embora com relutância, até a semana passada vinha dando sinais cada vez mais fortes de que ia mesmo entrar na eleição municipal. Na quinta-feira da semana passada, porém, comunicou ao governador Simão Jatene que voltara atrás, ou seja, à posição anterior à do convencimento eleitoral, e estava fora da disputa.

Essa atitude podia dar força às interpretações sobre motivação de foro íntimo, maturada no isolamento total. Mas na verdade a decisão se baseara numa realista análise política.

Ao contrário de 1992, quando a marcha ré súbita equivaleu a uma fuga de última hora ao imprevisível confronto com seu maior rival, o então ex-governador Hélio Gueiros, desta vez as prévias davam a Almir uma vantagem razoavelmente confortável sobre o segundo colocado, a senadora Ana Júlia Carepa, do PT, com uma perspectiva no horizonte mais favorável a ele do que à oponente.

Jatene e Jader

A alergia de Almir a uma medição de forças incerta estava, em certa medida, controlada. Mas ele não conseguiu nenhum indicador forte de acatamento à segunda das suas expectativas fundamentais: o rompimento do acordo firmado entre seu sucessor e o seu atual inimigo político, o deputado federal Jader Barbalho.

Fontes próximas aos dois líderes tucanos juram que esse tema jamais foi provocado nos muitos encontros havidos entre Jatene e Almir para tratar da disputa em Belém e no interior do Pará. Mesmo aceita, a informação não anula a hipótese preliminar: ainda que não tenha feito explicitamente a exigência a Jatene, Almir considerava inaceitável que o PSDB se coligasse ou mesmo se acertasse com o PMDB.

Entre seus objetivos estratégicos estava o de dar um golpe certeiro em Jader por tabela, derrotando seu filho, candidato a prefeito de Ananindeua, o segundo colégio eleitoral do Estado, e assim fechando o caminho de volta do ex-ministro ao poder no Estado.

Além de estar com mais de dois terços da preferência do eleitorado de Ananindeua, o deputado Hélder Barbalho possui como trunfo as posições que a bancada peemedebista tem assumido na Assembleia Legislativa, ao lado do governo estadual. Mesmo quando não são maciças, as votações pró-governo são acompanhadas pela maioria dos deputados do partido.

Um rompimento dessa aliança tácita traria problemas para Jatene na AL. Além disso, inviabilizaria coligações que já estão sendo armadas pelos dois partidos em vários municípios paraenses, tendo como adversário comum o PT.

Jatene não disse que não, mas também não disse que sim. Mesmo porque, segundo a versão corrente nos gabinetes oficiais, Almir Gabriel não teria lhe feito o pedido de romper com Jader. Mas certamente se o ex-governador fosse candidato, Jader teria que combatê-lo, seja para defender-se, como tema inevitável em uma eleição em Belém, seja para sair em defesa de seu projeto de sucessão, concentrado na carreira do filho, desligada das mazelas que azucrinam e deverão continuar a acompanhar o pai. O preço de uma vitória, nesse caso, podia ser muito caro para Jatene – e, talvez, para Almir também.

Ponderando todos os fatores, Almir Gabriel deve ter chegado à conclusão de que não era de todo ruim dispensar a possibilidade de uma volta mais imediata à política, através da prefeitura de Belém. Ainda mais porque permanecia ao seu alcance a possibilidade de apresentar uma razão muito conveniente, a do foro íntimo, logo incorporada tanto por O Liberal (com muito maior destaque) como pelo Diário do Pará, por ser do interesse de todos (daí, quem sabe, a trégua entre os dois jornais), evitando interpretações sobre cisão interna, mágoas consolidadas ou riscos futuros de rompimentos abertos.

Biografia em questão

Se as sequelas forem bem administradas e cicatrizarem, estará aberto o caminho para Almir Gabriel, ainda muito ligado à política, encontrar o lugar adequado quando chegar aos 75 anos: o Senado Federal. Lá, sim, quando encerrar o mandato, aos 83 anos, poderá colocar com dignidade o ponto final na sua biografia como homem público, iniciada como secretário de Estado, um quarto de século atrás, confirmada com a nomeação (pelo então governador Jader Barbalho) como prefeito e deslanchada por sua capacidade de articulação e pelo empurrão dos ventos favoráveis, especialmente quando eles mudam repentinamente de direção.

O sinal de que o novo caminho estará aberto para Almir virá se o PMDB decidir apresentar um candidato simbólico, como o foram no passado Fernando Velasco e Augusto Rezende, para não criar problemas para o candidato tucano no primeiro turno e preparar a coligação branca num previsível segundo turno.

Nesse caso, podem estar descartadas tanto a alternativa Hélio Gueiros como a já lançada candidatura do deputado federal Wladimir Costa, que disputava com Duciomar Costa o terceiro lugar nas prévias, depois de Almir e Ana Júlia, mas em tendência ascendente.

Almir fora, seu substituto natural é o senador do PTB, que tem crescido na preferência das pesquisas. O problema é que o flanco de Duciomar é enorme, podendo ser explorado intensamente por adversários dispostos e preparados para minar seus pontos fracos.

O maior deles é a embrulhada na qual se meteu como falso médico, um episódio que não deixou de lançar certa nódoa sobre a figura de Almir, um médico de verdade, além de respeitado como profissional.

Até aqui, Wladimir Costa tem batido somente no prefeito Edmilson Rodriegues e no PT. Limitaria sua agenda escandalosa se fosse disputar para valer a PMB? Claro que não. Seu veneno poderia ser mortal para a candidatura de Duciomar, que atua no mesmo segmento social. Se o PMDB quisesse mesmo ganhar a prefeitura da capital, a opção por Wladimir seria inevitável.

Mas é isso o que o PMDB quer? É o que Jader quer? Ou para ele o mais importante é Ananindeua, onde tem o filho, não só aliado de confiança, mas sucessor? Sendo esta a sua prioridade, conseguirá impô-la aos demais integrantes do partido? Poderá sufocar eventuais rebeliões, como a que Wladimir poderá tentar criar, se a idéia de ser prefeito de Belém lhe tiver subido à cabeça de verdade?

Essas questões ainda não têm respostas consolidadas, mas é para essa direção que parecem convergir, por vias e travessas, tanto Simão Jatene quanto Jader Barbalho, agora que Almir preferiu sair. Andando juntos, talvez eles tornem mais fácil para o próprio Almir conquistar a única vaga para o Senado que estará em disputa dentro de dois anos, contando, ademais, com a prerrogativa de poder dizer que não pediu para ninguém o que lhe veio às mãos.

Independentemente de como o tabuleiro voltará a ser arrumado depois desse impacto, o surgimento do nome de Duciomar Costa como o novo candidato do PSDB para Belém nos faz olhar para trás e para frente em busca de uma saída, que talvez exista, ou da salvação, da qual parecemos ter sido privados de vez pelos deuses caprichosos.

E sentir saudades do doutor Almir, mesmo que ele, em boa medida, seja culpado por isso que ficou aí como uma pedra no caminho dos belenenses que, ao contrário dele, ainda não desistiram de tentar encontrar um destino melhor.

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