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Ecologia, Energia, Grandes Projetos, Hidrelétricas

Os cidadãos sem-rio

Em 2014 o nível do Madeira chegou aos 19,69 metros. Foi a maior cheia já registrada no rio desde que a sua medição começou a ser feita. Com a grandeza que ele tem, de ser o afluente que mais contribui em vazão líquida e em sedimentos para o Amazonas. A enchente superou em mais de dois metros o recorde anterior, de 1997, e em mais de três metros a cota média histórica, de 16,5 metros.

Essa elevação recorde no nível das turbulentas águas do Madeira é atribuída às chuvas mais intensas nas cabeceiras do Madeira, nos Andes bolivianos. Não é do que estão convencidos os moradores de suas comunidades, dentre as mais de 150 mil pessoas atingidas, representando um terço dos 512 mil habitantes de Porto Velho, Candeias do Jamari, Guajará-Mirim e Nova Mamoré, os municípios de Rondônia afetados pela cheia. Para eles, a culpa foi das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau.

Passados três anos do desastre, os moradores das áreas atingidas, que ainda não conseguiram compensar seus prejuízos e retomar a normalidade das suas vidas, continuam com a mesma certeza: a evolução acelerada da enchente e a sua propagação sem igual foi provocada pela abertura das comportas das usinas, que ficam distantes 150 quilômetros uma da outra. E Santo Antônio fica a apenas sete quilômetros de Porto Velho, rio abaixo.

A ação do Madeira em 2014 foi sem igual: não só as casas foram destruídas e arrastadas, juntamente com os cultivos agrícolas, como a erosão foi intensa, desbarrancando áreas que até então eram consideradas firmes. Os que quisessem voltar teriam que recomeçar do zero, se é que os restos da destruição seriam suficientes para garantir sua sobrevivência.

Sem a indenização que reivindicam, não conseguem capital suficiente para experimentar o desafio. A maioria teve que se transferir para a capital, mas em condições de vida muito piores do que as da beira do rio. O remanejamento dos varzeiros para o ambiente urbano em terra firme não é apenas uma mudança de espaço físico: é a súbita substituição de toda uma cultura ribeirinha por um padrão estranho e hostil. A adaptação é impossível para a maioria, que dependia totalmente da ação do rio.

Os poucos que insistem em retomar suas colocações na margem do Madeira já sentiram que as condições se alteraram. O peixe se tornou escasso e incerto. Moradores antigos se dizem completamente desnorteados. Antes sabiam quando o rio subia e descia. Agora as oscilações entre cheia e vazante se tornaram constantes. Exige que se adaptem. Mas o peixe não tem essa alternativa. Pode estar fugindo do local.

O que é verdade e o que é mera especulação? O que a ciência pode confirmar e o que nem isso é possível? Uma resposta exige que se conheça perfeitamente a operação dos reservatórios. Uma exigência ainda maior no Madeira, que abriga duas das maiores hidrelétricas do país (e do mundo), um rio capaz de produzir energia firme em volume maior do que Belo Monte, usina projetada no rio Xingu, no Pará, como a quarta maior do mundo, quando integralmente instalada. No Pará, há ainda Tucuruí, no Tocantins, com potência para suprir 8% do consumo de energia de todo Brasil, ainda a quarta do mundo.

Alguma universidade da Amazônia ou qualquer instituição científica podia se interessar pela organização de um seminário especificamente para tratar da operação dos reservatórios das grandes hidrelétricas em atividade na região e o efeito do seu regular funcionamento, independentemente da ação contra a implantação dos novos empreendimentos energéticos previstos. O povo ribeirinho, penhorado, agradeceria pela iniciativa.

(Publicado hoje no site Amazônia Real)

Discussão

8 comentários sobre “Os cidadãos sem-rio

  1. Tá difícil Lucio. As universidades estão quebradas, pois estão vendendo o almoço para comprar a janta. Para resolver a confusão que a Dilma criou, o governo cortou tudo, menos as emendas parlamentares. Como as universidades ou dependem dos governos ou das grandes empresas, elas estão praticamente imobilizadas. Da tristeza de visitar quaisquer campi hoje em dia.

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    Publicado por Jose Silva | 10 de agosto de 2017, 00:54
  2. José culpar Dilma é sempre muito fácil….mas … Vou perdoa-lo pq como vc afirmou no post…vc só visita os espaços acadêmicos!

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    Publicado por Norman | 10 de agosto de 2017, 18:52
    • Norman,

      Nada. Estou em vários lugares e converso com muita gente. Como escrevi..visito os ambientes acadêmicos.

      Sobre a Dilma, basta ver os gráficos da evolução do deficit fiscal brasileiro no artigo abaixo:

      https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/02/01/3-gráficos-para-entender-os-resultados-fiscais-do-governo

      Acho que fica claro. A Dilma passou de mãe do PAC para a mãe do deficit fiscal. Neste caso não tem como escapar..quem gastou mais do que deveria e levou o país ao colapso foi a Dilma. Se ela tivesse sido mais humilde e ouvisse os economistas de carreira no governo, o resultado possivelmente seria outro.

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      Publicado por Jose Silva | 10 de agosto de 2017, 22:50
      • Não é só uma questão de presidente. É questão de gestão do próprio Reitor. Quem estuda ou trabalha na UFPA, sabe das inúmeras politicagens que atrapalham o desenvolvimento da instituição. Quando tinha dinheiro, preferiram segurar obras para reeleição e travar inúmeras guerrinhaa internas seguindo o ditado: farinha pouca, meu porão primeiro.

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        Publicado por Jonathan | 11 de agosto de 2017, 15:41
      • *guerrinhas
        *pirão

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        Publicado por Jonathan | 11 de agosto de 2017, 15:43
      • Pois é. Efeito cascata de má gestão…

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        Publicado por Jose Silva | 11 de agosto de 2017, 19:06
      • O presidente pode destinar o dinheiro que for para as Universidades. Mas se elas não tiverem boas gestões, não adianta.

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        Publicado por Jonathan | 12 de agosto de 2017, 12:13
  3. Você tem toda a razão .
    Os cursos de pós-graduação em Engenharia Civil e demais especialidades na área das engenharias de hidroeletricidade , já deveriam ter criado um programa inter-institucional de monitoramento desses mega-empreendimentos desde o trágico desastre de Mariana no Estado de Minas Gerais .Mas , quem disse …? E os desastres estão aí…a cada dia mais preocupantes e ameaçadores …E o governo do Estado do Pará devia alocar muito mais recursos na FAPESPA – Fundação de Pesquisa – do que gasta em desperdícios publicitários para encher os bolsos das agendas de propaganda e dos Maiorais , não é mesmo ? E a Assembleia Legislativa , o que faz para mudar essa situação ?

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    Publicado por Marly silva | 12 de agosto de 2017, 20:57

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