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Colonização, Ecologia, Floresta, Violência

Guerra pela floresta

Uma coisa é defender a Amazônia sentado à frente de um poderoso computador conectado com satélites e bancos de dados. Outra é combater os que destroem a região em campo – um verdadeiro campo de batalha. Raros dos milhares de migrantes que chegam à região todos os anos se instala com uma formação sobre o que é realmente a Amazônia e o que constitui a sua singularidade e vantagem: a biodiversidade de vida, ser uma biblioteca biológica, um acervo de riqueza natural.

O pioneiro quer botar a mata abaixo para extrair madeira, abrir clareira, plantar e se sentir “em casa”. Ele vem de um Brasil que destrói florestas e acha que deve ser assim na maior floresta tropical que ainda existe no planeta. Vem para trabalhar duro conforme essa premissa, ter lucro o mais rápido possível e moldar o novo mundo à sua imagem e semelhança. Fica furioso se é contrariado. Não admite contestação ao seu direito de precursor.

O que se segue é o relato de um integrante da equipe do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) sobre a emboscada sofrida no município do Trairão, no sudeste do Pará, no dia 19. Parece uma descrição de batalha numa guerra feroz. Reproduzi na íntegra o texto, tal como foi escrito, para manter a emoção do autor.

Desde ontem estamos bem. Mas a barra pesou para a minha equipe (06 Analistas e 10 PM do BOPE/TÁTICO do Pará armados até os dentes) no dia 19/08 sábado por volta da 19:40 hs. Seguindo informação coletada pelo helicóptero, ao entrar num ramal deparamos com 05 caminhões carregados de tora de angelim vermelho saindo do interior da FLONA ITAITUBA1.

Os motoristas vazaram para dentro da mata, mas os PM capturaram 02 deles.  Não demorou muito chegou o Presidente da Câmara Municipal da cidade de Trairão (até o nome é apropriado), o mesmo dialogou com o coordenador da equipe o Léo e o mesmo acordou levar os caminhões escoltados até a cidade de Itaituba (cerca de 390 Km do local). Nós já estávamos preparados para queimar a madeira e os caminhões.

Eu preparei a área, fiz um aceiro em volta dos caminhões para não haver incêndios na vegetação. Nesse momento, dentro do ramal,, chegaram cerca de 80 pessoas (agitadores) que depois ficamos sabendo terem sido contratados pelo vereador, e começaram a tumultuar.  A Polícia Militar agiu com rigor e expulsou todos usando de força total não letal, a multidão recuou.

Os caras na passagem cortaram a mangueira de alimentação de combustível de dois caminhões (numa sabotagem), quando o comboio com os 03 caminhões bons e 04 viaturas nossa começou a sair pelo vicinal. O pessoal do local ateou fogo numa ponte. Entretanto, nós chegamos em tempo de apagar o incêndio, passamos as camionetes e os 03 caminhões, os quais passaram numa ponte bamba e rangendo. Mal passou o último caminhão a mesma desabou.

O pior estava por um grupo de motoqueiros ter se adiantado ao comboio e quando chegamos na cidade de Trairão, que ficava cerca de 25 Km distante do local onde localizamos os caminhões carregados de tora.  Quando chegamos á cidade a população local fez uma barreira de pneus, paus, carretas e incendiou a barreira. Nós encostamos os caminhões antes e os policiais se postaram à nossa frente para nos proteger, pois a multidão enfurecida começou a atirar pedras gigantescas e paus e avançou para cima da gente tentando tomar os caminhões.

A Polícia então começou a atirar com balas de borracha, a coisa ficou tão feia que uma das dezenas de motos avançou em cima da linha formada pelos militares tentando atropelá-los. Os soldados deram uma coronhada com o fuzil nele, derrubando-o da moto. Um soldado desferiu um tiro de pistola 45 a queima roupa no mesmo e outro deu bicudo na cabeça do cara, que desmaiou imediatamente. Os policiais então avançaram e fizeram uma linha e iam atirando, a partir desse momento detiveram os agitadores, as pessoas de boa fé fugiram antes, mas os agitadores eram mais de 300 indivíduos.

Na hora em que sentimos que a coisa estava descambando para um conflito sem controle, principalmente porque os PM não tinham mais bala de borracha, e os caras dispararam um tiro de carabina Winchesters calibre 38, eles estavam prontos para atirarem com bala de verdade, nós, diante de uma possível carnificina, não tivemos alternativa que não fosse recuar.

Ficamos numa sinuca de bico grande, pois se nós saíssemos dali deixando os caminhões intactos, a instituição seria tremendamente humilhada e nunca mais poderíamos entrar nas duas FLONAS DE ITAITUBA I e II. Nesse momento pegamos a gasolina e metemos fogo e destruímos o caminhão com madeira e saímos em grupo em direção contrária à barreira e fomos para a cidade Morais de Almeida (250 km de Trairão), onde ficamos no quartel da PM.

No dia seguinte  à noite, 23:00  hs da madrugada,  quando tentamos passar  pela cidade de Trairão, uma viatura de cidade de Caracol nos encontrou no meio de caminho e com base na informação de um  P2/X9 e nos alertou que estavam prontos para nos cercar na cidade de Trairão. Quando nós estivéssemos  no meio da cidade eles colocariam barreiras  com carretas  no início da cidade e numa única ponte no final, a qual é ladeada de barrancos altos, aonde, escondidos pela escuridão da noite, iam nos emboscar com [espingarda] 12, escopeta e carabina tentando nos matar.

Nós voltamos e passamos durante o dia, onde foi preparada uma grande expedição com 20 soldados da Força Nacional, os 10 PM do BOPE-PA e nós 06 do ICMBIO. Mas durante o dia o pessoal da cidade, vendo que estávamos reforçados, eles não montaram barreira, somente ficaram na beira da estrada xingando nossas queridas mãezinhas.

O hilário da estória é que nosso colega o Vitor (o do cabelo rastafári), quando estavam com um garrote e um pano umedecido de gasolina ateando fogo nos caminhos a galera gritava pega, pega o   Cabeludo Predador.  KKKKK

Vamos voltar para área com força total, pois se tivéssemos corrido sem destruir os caminhões o Estado dificilmente reentraria na área.

Quase que gorei minha aposentadoria futura. Pensei que ia comer capim pela raiz. KKK

Na maioria das vezes ficamos sem comunicação. Dispomos de telefone satelital, que permite falar em caso emergência.

Passe para a galera o relato.  A notícia saiu no Jornal Nacional e Bom dia Brasil nos dias 21, 22 e 23, pois repetiram várias vezes a reportagem.

O negócio foi sinistro.

Discussão

12 comentários sobre “Guerra pela floresta

  1. Lucio,

    O Brasil está em guerra civil, mas as pessoas nem desconfiam disso. Ou talvez desconfiem, mas preferem ignorar. Há a guerra civil nas cidades, promovida pelos traficantes. Há também a guerra civil no campo, principalmente na Amazônia, liderada pelos predadores de recursos naturais. Os traficantes e os predadores são conectados. Os dois grupos se apoiam mutualmente e trocam informações e estratégias. Apoiando estes dois grupos há um conjunto enorme de políticos, de vários partidos, que recebem dinheiro e apoio logístico para as suas campanhas. Você os reconhece quando eles tentam passar leis que enfraquecem o poder e a capacidade do estado em proteger a sociedade e o seu ambiente. Basta olhar rapidamente nas propostas apresentadas por estes políticos para identifica-los. É tudo muito fácil.
    .
    No caso da Amazônia, não é apenas uma guerra pela floresta, mas sim uma guerra pelo futuro da região. Há somente dois caminhos: um desenvolvimento sustentável único baseado no uso correto da floresta ou um desenvolvimento proposto pelos criminosos que tentam controlar a região.

    A opção pelo primeiro caminho deveria ser óbvia para qualquer sociedade. Entretanto, com base nas pessoas que colocamos no poder nas últimas décadas, tudo indica que estamos optando pela segunda opção. Triste! A sabedoria amazônica acabou!

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    Publicado por Jose Silva | 25 de agosto de 2017, 11:58
  2. Que enredo!

    Graças a Deus, os agentes do ICMBIO, policiais e demais agentes de segurança sairam ilesos.

    E ainda contestam, porque a Noruega contingenciou os recursos para a “manutenção” da floresta.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 25 de agosto de 2017, 12:18
  3. Estupro cultural retroalimentado pela social democracia, consolidado pelo Financiador Habitual da Corrupção.

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    Publicado por Luiz Mário | 25 de agosto de 2017, 18:34
    • Luiz,

      É um pouco mais complexo que isso. A mãe do neo-desenvolvimentismo e do ataque a floresta tem nome e sobrenome: Dilma Rousseff. O pai das propostas mais aberrantes sobre a região também tem nome e sobrenome: Fernando Flexa Ribeiro. Formam um belo casal.

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      Publicado por Jose Silva | 25 de agosto de 2017, 23:36
  4. Caro José,

    Observe o BRT, em toda sua extensão, e verá a devastação da “floresta” de vai da Tavares Bastos até a rua 8 de Maio, em Icoaraci. Ao contrário do que ocorre até São Brás….

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    Publicado por Luiz Mário. | 26 de agosto de 2017, 10:07
  5. Perfeitamente. Tudo pensado a partir da capital. Ou não?

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    Publicado por Luiz Mário. | 26 de agosto de 2017, 10:55
    • O que na história moderna não foi feito pensando a partir do capital? No caso das florestas, elas são o nosso capital natural, com valor ainda não apreciado. O que sabe-se é que o valor delas é muito maior do que essas monoculturas que apaixonam alguns.

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      Publicado por Jose Silva | 26 de agosto de 2017, 13:43
  6. Esclarecimento: A CAPITAL = Cabeça. Logo, não seria demais pensar a ciência a serviço do crime, não é?

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    Publicado por Luiz Mário | 26 de agosto de 2017, 19:59
    • Desculpe. Li errado. Sim, muitas destas decisões são tomadas na capital. Sobre a ciência a serviço do crime, você está se referindo a qual ciência? Há tantas e com objetivos tão distintos..

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      Publicado por Jose Silva | 26 de agosto de 2017, 22:31
  7. A qual engendrou a social democracia.

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    Publicado por Luiz Mário | 27 de agosto de 2017, 07:06

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  1. Pingback: A Guerra Pela Floresta – Panamazonica.info - 25 de agosto de 2017

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