//
você está lendo...
Segurança pública, Transporte

Túmulo fluvial

O barco Capitão Ribeiro saiu de fato de Santarém para Vitória do Xingu (declarando se dirigir para Prainha) na noite de segunda-feira. Devia navegar pelo rio Amazonas até o ponto de destino, a 150 quilômetros de distância. Um dia depois de desatracar, afundou no rio Xingu, fora do seu roteiro, a quase duas vezes a distância declarada, próximo a Porto de Moz. Seu ponto final era rio cima, em Vitória do Xingu, teria um percurso de 600 quilômetros.

A empresa diz que havia 48 pessoas a bordo. Já foram resgatadas 23 com vida e 21 mortas. Não há mais corpos dentro da embarcação, que está quase fora da linha d’água, encalhada num banco de areia. Não foi uma colisão o que provocou o seu afundamento.

Teria sido uma fatalidade: o barco foi colhido por uma tromba d’água. Por isso adernou tão rapidamente. Talvez alguns passageiros, que dormiam em rede, nem tenham tido tempo de reagir. Mais um fator aleatório a contribuir para o elevado número de vítimas.

No entanto, outros fatores respondem pela maior frequência de acidentes nos rios da Amazônia. A demanda pelo transporte fluvial aumentou muito, principalmente de carga, com destaque para soja, minérios e combustível, o que explica a colisão, uma semana antes, de uma balsa com um navio cargueiro, com nove mortes.

O Capitão Ribeiro não estava totalmente irregular. Tinha licença da Marinha até outubro, mas apenas para ir até Prainha. A falha não o transforma em clandestino, mas sugere que seus donos não têm maior apreço pelo rigor e seriedade necessários para o transporte de pessoas juntamente com cargas, o que é regra no setor.

A apuração de tudo ainda levará tempo, mas é justamente o acúmulo de tempo que conspira para a repetição dos problemas e dos acidentes. A estrutura administrativa do poder público não acompanha a evolução da procura nem a complexidade da movimentação crescente de embarcações pelos rios da Amazônia, que há meio século foram deixados de lado em função da prioridade às estradas de rodagem.

Navios oceânicos passam ao lado de embarcações primitivas, criando um contraste inquietante. O aspecto do Capitão Ribeiro não inspira confiança nem sugere uma adequação da construção naval às condições atuais do fluxo de embarcações pela bacia amazônica. Há milhares delas em tráfego constante pelos rios.

Os piratas e ratos d’água parecem maios atentos a esse incremento do que as autoridades. Ou estão agindo em campo mais do que elas: os furtos de embarcações e os assaltos aos ribeirinhos são um desses sinais dos tempos que é preciso considerar adequadamente, sob pena de mais danos e tragédias nas vias aquáticas da região.

O Pará é o segundo Estado com mais mortos em acidentes de navegação ineterna no Brasil. Entre 2000 e 2015, 219 pessoas morreram dentro de embarcações no Estado, mais de 15% do total de 1.327 pessoas em todo Brasil no mesmo período posição. A liderança é do Amazonas, com 410 óbitos. Somados, os dois Estados, que possuem os maiores territórios da federação brasileira, tiveram 629 vítimas em seis anos, quase a metade (47%) do total nacional.

É para assustar.

Discussão

Um comentário sobre “Túmulo fluvial

  1. Triste. A boca do Xingu, uma ria, parece um oceano. É muito perigoso atravessar lá sem muitos recursos e cuidados. Alguma coisa precisa ser feita para qualificar mais o transporte fluvial na região.

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 25 de agosto de 2017, 17:11

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: