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Imprensa, Política

Jornalismo kafkiano

Se você acha que já viu de tudo no antijornalismo praticado pela imprensa do Pará, leia – ou releia – com atenção as duas notas que abriram o Repórter 70, a principal coluna de O Liberal, na edição de sábado passado, 21.

A primeira nota, sob o título Notícia/Fidelidade:

“A matéria sobre a condenação do lobista Jorge Luz e do seu filho Bruno Luz, acusados de serem operadores de propinas do PMDB, publicada nesta edição, na página 3, do Caderno Poder, foi transmitida pela Agência Estado, sem que fosse citado o nome de qualquer membro do PMDB, em nível nacional ou local, nem tampouco do senador Jader Barbalho, que foi citado por agências de notícias com as quais este jornal não tem contrato, mas não na Agência Estado”.

A segunda nota, intitulada Defesa:

“A exemplo de outras matérias aqui reproduzidas – e até por questões autorais – o texto da reportagem mantém-se fiel ao que foi enviado pela agência de notícias, ficando o jornal impedido de acrescentar ou suprimir o nome de quem quer que seja. Como mandam as regras do bom jornalismo, é obrigação do jornal cobrir a atuação dos três senadores do Pará, no Congresso Nacional, sempre dando a cada um o direito de defesa, caso sejam citados nas matérias veiculadas”.

Segundo o manual de jornalismo que li e pratico há mais de meio século, ao receber o despacho da Agência Estado sem a citação do nome do senador Jader Barbalho e de outros parlamentares do PMDB, um jornal que diz acompanhar as atividades dos representantes do Pará no Congresso Nacional, como dever profissional de bem informai os seus leitores, teria feito a pergunta elementar: por que a omissão?

Sim, omissão, já que o próprio O Liberal (e, com ele, toda imprensa nacional) noticiou diversas vezes, com destaque e até exagero, as acusações que o lobista Jorge Luz fez contra Barbalho, para ficar só no político paraense.

A resposta é tão óbvia quanto a pergunta: a sentença do juiz Sérgio Moro não incluiu o ex-governador porque ele tem foro privilegiado. Só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal, por prerrogativa da função senatorial. Não está sob a jurisdição de um magistrado de primeiro grau, mesmo sendo federal, como o juiz de Curitiba.

Bastava a direção do jornal dos Maiorana ir aos arquivos de O Liberal e fazer um box para esclarecer o leitor sobre esse detalhe fundamental. Ou acionar o repórter da sucursal de Brasília para reavivar o caso e verificar o andamento do processo específico contra Jader Barbalho no STF.

Se assim procedesse, abriria automaticamente espaço para o direito de resposta do senador. Esse direito, contudo, não pode ser exercido porque Jader Barbalho não tem motivo algum para se defender. A nota do Repórter 70 se limitou a dizer que, praticando o “bom jornalismo”, não acrescentou o nome do dono do grupo de comunicação concorrente à matéria enviada pela agência de notícias de O Estado de S. Paulo para não violar a integridade do texto e o direito autoral do contratado.

Para nada dizer que pudesse desabonar o ex-inimigo mortal, transformado em quase parceiro com a destituição de Romulo Maiorana Júnior do comando do grupo Liberal, monopolista da guerra aos Barbalho, O Liberal diz que não disse e oferece ao citado o direito de não dizer o que poderia dizer se fosse o caso de dizer.

Isso não é bom jornalismo: é surrealismo. A necessidade de inventar regras e ir além da razão surge justamente quando praticar o jornalismo é substituído por composição de interesses privados sobrepuja o que interessa ao bom jornalismo: manter a sociedade bem informada.

Paz, decência, respeito e cordialidade são bem vindos como novidade na relação entre os veículos de comunicação do Pará. Para enganar a opinião pública, não.

 

Discussão

8 comentários sobre “Jornalismo kafkiano

  1. Os dois maiores jornais do Pará já deixaram de informar a população exercendo um bom jornalismo, coerente, confiável e com credibilidade há muto tempo (talvez nunca tenham de verdade). Hoje são apenas instrumentos de publicidade, propaganda (comercial e política) e manipulação do eleitor. Já deixei de ler essas tranqueiras há mais de ano. Quando muito, acesso os respectivos sites, para concluir que são ainda piores. Mas me satisfaço em saber que estou economizando mesmo meu dinheirinho.

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    Publicado por Zé Carlos | 26 de outubro de 2017, 15:57
  2. EGUAAA, VOU FICAR TRISTE SEM A LAVAGEM DE ROUPA SUAJA DE AMBOS, PENA PARA OS ADVOGADOS QUE TERÃO MENOS TRABALHO EM AMBOS OS JORNAIS.

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    Publicado por Pablo Xavier | 26 de outubro de 2017, 17:24
  3. A única vantagem da briga era conhecer (melhor) a ambos.

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    Publicado por jjss555 | 26 de outubro de 2017, 18:33
  4. O que esta por trás dessa mudança repentina? A expectativa de que o Barbalinho ganhará a eleição para governador com o apoio do Jatene?

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    Publicado por Jose Silva | 26 de outubro de 2017, 20:28
  5. Que análise exemplar!

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    Publicado por Montezuma Cruz | 27 de outubro de 2017, 11:58

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