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Imprensa, Justiça, Política

A sabedoria inculta

A internet parece estar dando às pessoas a presunção de serem bem informadas. Um acesso ao Google sobre determinado tema é suficiente para quem consulta se achar com conhecimento de causa. É como se tivesse feito uma pesquisa – se não completa – pelo menos suficiente para autorizá-lo a deitar falação, como se dizia antigamente, antes da era dos computadores em rede mundial e de banco de dados tão rápidos que se apresentam a quem os defronta como o oráculo de Delfos – tão instantâneo quanto o leite em pó.

Essa presunção está matando os diálogos, os debates, as controvérsias, as polêmicas e mesmo os conflitos de ideias – estes, cada vez menos frequentes. As partes se tornam refratárias à interpenetração dialética de informações e conhecimentos. Cada uma delas costuma sair como entrou: dona da sua verdade, impermeável à admissão do erro.

Mais do que isso: destituída daquela humildade que qualifica e fertiliza o aprendizado. O autoritarismo e a intolerância se fortalecem. A democracia se estiola.

Já é ruim essa tendência na sociedade civil. É ameaçadora nas instituições. No momento em que o Brasil sai da inércia multissecular em relação às suas elites dominantes e às injustiças abissais que o esterilizam, os agentes públicos não estão conseguindo modular o seu papel.

Eles deveriam ser os mediadores entre o poder e os cidadãos, entre os representantes e os representados, entre os empresários e seus clientes – entre a base da pirâmide social e o seu sempre afunilado topo, inalcançável até a Operação Lava-Jato (que processou ou colocou na cadeia os luzidios colarinhos brancos brasileiros, aqueles que lavam mais branco, principalmente na Suíça e nos paraísos fiscais, mas também em território nacional).

Policiais, promotores e magistrados se tornaram os principais atores dessa peça original na história nacional, muitos deles movidos pelos melhores propósitos e tomados pela mais justa indignação diante dos fatos escabrosos que apuram.

No entanto, já estão se excedendo no uso de juízos de valor e qualificativos, até mesmo da ironia e de um pretendido senso de humor.

Foi o que, recentemente, fez a procuradora Fabiana Schneider ao comunicar à imprensa a prisão do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman,

“Enquanto atletas olímpicos buscavam a sua medalha de ouro, dirigentes guardavam suas barras de ouro na Suíça”, disse ela, a propósito das barras de ouro que Nuzman colocou num banco suíço, sem declará-lo, no arranjo para comprar as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro.

A observação é pertinente e justa. Mas é melhor que o representante estatal exerça objetivamente o seu ofício, avançando no conteúdo e sendo austero na forma, de tal maneira a que reforce a convicção dos cidadãos de que não se trata de perseguição ou de atendimento a interesses pessoais, mas de justiça. Será a maneira de consolidar o processo em curso, evitando que ele se desfaça pelo caminho.

Afinal, com Marx alertou, mesmo o que é sólido se desmancha no ar. Ainda mais o gás leve da subjetividade com risco de se tornar arrogante na sua informalidade.

Discussão

6 comentários sobre “A sabedoria inculta

  1. Análise perfeita.
    Flávio Dino, Governado do Maranhão, disse que quando se percebeu fazendo justiça com a própria caneta, decisões com viés político, pediu exoneração, pendurou a toga. Já não tinha mais como ser imparcial. Sua vontade de alterar a realidade ia além do tempo da justiça.
    Luiz Roberto Barroso, membro do STF, no seu ultimo livro, “a judicialização ativismo e legitimidade democrática” acredita que esse afã de membros da magistratura e do MP, se dá pq foram empurrados para essas carreiras por não lhes ser permitido participar da vida política. São jovens inelegíveis por absoluta falta de oportunidade no sistema vicioso. Não há vaga pra quem deseja fazer a coisa certa, pra quem sonha com um pais civilizado.

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    Publicado por Reginaldo Ramos | 10 de janeiro de 2018, 10:42
  2. Cuidado com esse negócio de “Marx alertou”. Você não precisa descer tanto na falácia da autoridade para firmar um argumento. É exatamente o oráculo de Marx que está matando o diálogo, não escolhendo veículo nem boca, muito mais que a poluída internet. Você é LÚCIO FLÁVIO PINTO, talvez o mais digno e expressivo no ofício de informar o leitor, condizente com a realidade dos fatos, causando profunda admiração de quem tem obsessão pelo conhecimento, não podendo se permitir alheio aos resultados das ideias que desqualificam dita autoridade.

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    Publicado por Anônimo | 10 de janeiro de 2018, 14:59
    • Tenho respeito e admiração por Marx. Não como profeta nem como militante político. Como pensador, um dos maiores do tempo dele e de todos os tempos. Daqueles seres humanos que sintetiza e amplia praticamente todo conhecimento acumulado, como Dante, Montaigne, Pascal, Goethe. Autoritário e arrogante em certos momentos, sobretudo na disputa política, no fim da vida ele permanecia lúcido e autocrítico o suficiente para sentenciar: “se isso é marxismo, eu não sou marxista”. A leitura de Marx como filósofo, sociólogo, historiador, cientista político, crítico de cultura e jornalista continua a ser enriquecedora. Ao menos para mim, que nunca fui marxista nem comunista nem me filiei a qualquer partido político.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 10 de janeiro de 2018, 19:08
  3. Acabaram de matar meu mecânico num assalto, na Rua Esperanto, bairro da Marambaia. O cara não fez nada! Entregou cordão e celular, e ainda assim foi trucidado com dois tiros, sem direito de defesa!!! Um cara gente boa, trabalhador, pai de família!!! Meu Deus do céu, meus amigos!!! Onde vamos parar??? Ninguém aguenta mais isso!!! Que tristeza, minha gente!!!

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    Publicado por Zé Carlos | 10 de janeiro de 2018, 17:03
    • Põe na conta dos defensores de bandidos, dos “direito dos mano”, do PT e toda corja socialista que destruiu o país, sem direito de defesa. Meus sentimentos.

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      Publicado por Romualdo | 10 de janeiro de 2018, 17:46
    • Não é por ser absurdamente cotidiano essa experiência de homicídios que nos devemos acostumar. Temos mesmo é que nos indignar, como Zé Carlos, e transformar em fatos essa indignação.
      Vou propor novamente aos meus leitores: sempre que testemunharem algum crime (assalto, agressão, desrespeito aos direitos humanos, violação das posturas e assassinatos), façam um registro neste blog.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 10 de janeiro de 2018, 19:10

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