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Economia, Estrangeiros, Grandes Projetos

A história na chapa quente (346)

Cavalo de Troia

made by China

 

(Publicado no Jornal Pessoal 329, de setembro de 2004)

 

Na década de 1970, o alto custo da energia, provocado pelo duplo choque do petróleo, obrigou o Japão a refazer sua estrutura produtiva. Uma de suas mais drásticas iniciativas, motivada pela fragilidade energética do país, foi fechar praticamente todas as suas fábricas de alumínio, o produto industrial mais eletrointensivo que existe, e transferir o suprimento dessa demanda para o exterior. A fábrica que individualmente mais metal fornece ao Japão fica a 20 mil quilômetros do seu território: é a Albrás, a 50 quilômetros de Belém, que atende a 15% da demanda japonesa de alumínio.

É do Pará que sai também o minério de ferro que alimenta os altos fornos das siderúrgicas japonesas. A proporção, nesse caso, é semelhante à do alumínio: 15% do minério de ferro consumido pelo Japão tem origem na mina de Carajás e é embarcado pelo porto da Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão.

Um fenômeno semelhante acontece atualmente com outro país do Oriente, a China. Por carência de energia, necessidade de recorrer a fontes energéticas mais limpas e imposição de medidas de controle ecológico exigida por seus vizinhos, a China começou a adotar processo semelhante de transferência de produção.

A Amazônia é o ponto de destino dessa nova divisão do trabalho. Atividades eletrointensivas, que consomem grandes quantidades de recursos naturais e que são poluidoras estão deixando de ser praticadas na China para serem desenvolvidas na Amazônia.

O processo já começou, mas seu desdobramento logo atingirá parâmetros que poderiam ser considerados impensáveis dois ou três anos atrás. A China superou o Japão como maior cliente do minério de ferro, em 2003.

Essa participação só não se incrementará mais intensamente porque parte do ciclo siderúrgico vai deixar o território chinês e se implantar no litoral da Amazônia Legal. Até o final da década, a fábrica de chapas de aço do consórcio Companhia Vale do Rio Doce-Baosteel-Arcelor estará produzindo 9 milhões de toneladas, após um investimento de 1,5 bilhão de dólares.

Grande parte da energia e do redutor necessário para essa siderúrgica virá da China. A CVRD já montou um negócio naquele país para embarcar coque metalúrgico nos navios que levarem minério de ferro de Carajás para a China, utilizando o frete de retorno. Essa operação viabilizará o empreendimento, que seria antieconômico em outro contexto.

Essa parceria vem num momento estratégico para a China. A queima de carvão é a causa principal da poluição do ar no país, que já anunciou uma série de medidas para reduzir os níveis assustadores do problema. Segundo um estudo feito pela Academia de Planejamento Ambiental da China, os custos causados à saúde humana pela poluição do ar já representam de 2% a 3% do PIB nacional, mas chegarão a 13% do PIB em 2020 (algo como 400 bilhões de dólares), se a atividade produtiva não for modificada drasticamente.

A meta, nesse setor, é reduzir dos atuais 70% para 60% a dependência chinesa de carvão. Tanto convertendo fontes de energia como exportando carvão para ser usado em processos produtivos poluidores, que também serão transferidos da China para outro país. O Brasil é o alvo principal e a Amazônia, a meta específica.

Essa não é uma política para o amanhã nem para ser decorativa. A Agência Estatal de Proteção Ambiental da China reconhece que chuvas ácidas, provocadas pela poluição do ar, caem sobre 30% da extensão do país. Em muitas cidades o ar se tornará virtualmente irrespirável até o final da década.

Hoje, 380 mil pessoas morrem prematuramente todos os anos nas 11 maiores cidades chinesas, por causa de problemas pulmonares, provocados pela fuligem e outras partículas em suspensão no ar. Em 2010 esse número alcançará 380 mil pessoas por ano e, em 2020, 550 mil, sem considerar as que ficam sujeitas a bronquite crônica.

Essa poluição será transferida para a Amazônia? É o que aguarda São Luís, onde o coque será usado pela usina cuja implantação foi iniciada, sem falar no consumo de água, talvez representando metade de tudo que a capital maranhense precisará, mesmo com a polêmica duplicação do sistema Italuís. Estamos conscientes do problema e preparados para enfrentá-lo e resolvê-lo em melhores condições do que os chineses?

Como essa questão não foi posta na mesa que discutiu, com veemência, já agora esmaecida pela curta memória dos nativos, a implantação do projeto siderúrgico, é a hora de abordá-la com lucidez, clareza e coragem, antes de nos vermos sujeitos a lamentar o problema com que a China pretende nos presentear, se não soubermos da velha história do cavalo de Troia. Não que devamos, de pronto, vetar o negócio: mas é preciso, antes, examinar o ventre do cavalo para verificar se não há nele uma surpresa ruim.

 

Discussão

3 comentários sobre “A história na chapa quente (346)

  1. Desde 2004 você já falava da mudança de perspectiva da China em relação a sua economia. Infelizmente poucas pessoas ouviram. De lá para cá, nossos políticos e muitos empresários continuam trabalhando arduamente para transformar a Amazônia no lixeiro do mundo. Tudo indica que não há perspectiva alguma de mudança!

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    Publicado por Jose Silva | 12 de janeiro de 2018, 17:44

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