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Cultura

Poeta paraense no mundo

Dois anos depois de estrear com Cinzas, Fernando Maroja Silveira consolida seu espaço de poeta original com O escravo do vazio (Editora Penalux, São Paulo, 80 páginas). Uma vez definidas as suas origens em Belém do Grão Pará, ele circula pelo mundo da geografia e da história, guiado por leituras intensas e o olhar agudo de um homem das letras, o poeta, e das imagens, o fotógrafo, numa dialética harmoniosa e perscrutadora, que por vezes lembra Elizabeth Bishop, em outras Mário Faustino, indo além em busca do meio da ponte, que é “o meio do vazio”.

A escravização ao vazio é o ponto de partida e, após volutas sensoriais e intelectuais, o local de chegada, num vazio que é novo, pronto para ser reiniciado. Fernando o vai preenchendo com citações que não se reduzem a citações. Elas se atam ao ir e vir de Homero a Rimbaud, de Viena a Veneza, das guerras dos nossos dias às conflagrações de ontem, na busca por um rumo, um sentido, uma luz.

Em poemas curtos, soma e síntese de palavras lavradas com esmero e competência até se tornarem ossuários simbólicos, ele esgrime sua percepção, às vezes arrematando-a com uma frase seca e bela, síntese do que o captador de imagens viu e o poeta, sobrevivendo à jornada, registrou.

Em Viena: “A neve é touro, outro vocábulo não há/ para nomear o animal que salta do pedestal/ e corre mais que o mar,/ a perfurar a humanidade e espionar/ seus porões”.

Em Veneza, “voz de Vênus e vento de Orfeu, Deus lançou flechas nas tuas veias,/ vidas de sangue e sereias./ Cantas/ e as cidades gritam/ contra o pus e a imagem da cruz/ na tua morte”.

No Rio de Janeiro: “O sol é a sirene da polícia/ rompendo o horizonte,/ e nós voltaremos para trás das grades”.

Unindo as metáforas mitológicas dos antigos às barbáries extremas dos modernos (ou pós), e chamando a intervir no discurso vozes autorizadas a aprofundar a percepção da continuidade histórica (o que faz dos 34 poemas autônomos capítulos de um romance completo), Fernando atesta a singularidade da presença dos poetas nesse trágico drama da nossa vida, cujo pulso temos dificuldades cada vez maiores para tomar.

Afinal, “a estrela é a impureza do céu” e sabemos “que o céu não é o lar da estrela,/ e sim o deserto de espertos como Rimbaud”. E, agora, domínio do mais cosmopolita dos poetas nascidos no Pará, lúcido o bastante para ter uma certeza: “A obra se levantará, o poeta jamais”.

Com este segundo livro, Fernando Maroja Silveira já construiu uma obra. E garantiu seu lugar no mundo da cultura.

Discussão

Um comentário sobre “Poeta paraense no mundo

  1. Muito bom. Parabéns ao Fernando! Que continue a publicar suas belas poesias..

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    Publicado por Jose Silva | 12 de janeiro de 2018, 17:40

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