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Imprensa

A história na chapa quente (347)

Em setembro de 2004, na edição 329, o Jornal Pessoal completou 17 anos. comemorar as datas natalícias apenas com o leitor sempre foi uma alegria para mim. Por isso, reproduzo a seção de cartas dessa edição.

Jornal faz 17 anos.

A festa é do leitor

 

O Jornal Pessoal completa 17 anos nesta edição. A data suscita uma questão simples: por que ele sobrevive? Simploriamente, também, é possível dar uma resposta em dois tempos: porque seu único integrante assim o quer, sobrevivente, e seu público não o abandonou. Certamente se não houvesse mais uma quantidade de pessoas dispostas a comprar este jornal, ele já teria desaparecido. Seu público é pequeno, mas não tanto que impossibilite esta publicação de ser o que é: um formador de opinião.

Este jornal tem inimigos. Seria mediocridade não tê-los. Há tanto a combater e corrigir no Brasil e na Amazônia que a unanimidade não é apenas burra: é beócia. Admiradores ou detratores do Jornal Pessoal sabem, porém, que à entrada de sua redação há uma placa de advertência, à maneira de Dante Alighieri no primeiro livro da Divina Comédia: deixai vosso poder e vossa intolerância, vós que entrais.

Nas páginas deste pequeno e pobre jornal a única coisa que conta é a inteligência. A inteligência de quem argumenta e convence, mas não a de quem mente ou manipula. A prova dos nove nestas páginas é a demonstração do argumento. Seu pressuposto é o fato, singular ou plural. Todas as interpretações e opiniões são admissíveis, desde que tenham  uma base comum: a fatuidade.

Saber o que acontece é muito, mas não é tudo. É preciso ter disposição (ou coragem) para proclamar os fatos. Veja-se a matéria de capa da edição passada. Em maior ou menor grau (entre nós, em mínimo grau, infelizmente), toda imprensa registrou a operação Farol da Colina, contra a evasão de divisas, a formação de quadrilha, o enriquecimento ilícito, a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. Mas quem ousou mostrar que a Polícia Federal provavelmente teria incluído o presidente do Banco Central na sua malha fina se ele não tivesse recebido o guarda-chuva de uma Medida Provisória de última hora? Quem deu nome aos presos locais, todos socialites, e apresentou-lhes a culpa?

Este jornal continua a existir porque, sem ele, os fortes seriam ainda mais fortes, a manipulação mais eficaz e a opinião pública menos capaz de se informar, ou se orientar. Em um mês, o de julho, em que o jornal não circulou, temas se acumularam e lacunas continuaram não preenchidas, gerando uma posta restante que esta edição não foi capaz de aliviar. Isso se deve aos poderes do redator solitário? Obviamente que não.

Essa marginália informativa, que cresce nos desvãos de silêncio da grande imprensa, se deve à autocensura, ao silêncio conivente, à omissão de muitos, os que sabem e podem, mas não querem dizer. Não querem, para começo de conversa, ou de silêncio, expor-se.

Enquanto tentava escrever este jornal, eu travava uma polêmica, através do site da revista Caros Amigos (restrita, portanto, à versão eletrônica da publicação), com um jornalista que da profissão tem uma visão elitista, excludente, preconceituosa. Só terá sucesso quem singrar os caminhos da grande empresa e se dirigir para o “sul” do país. Mas que sucesso, cara-pálida?

O sucesso que cobra um preço caro: a submissão à ordem do chefe. Ou, pior do que isso: às ameaças da anti-consciência, aquele sentimento tíbio e dúbio que torna as pessoas espectadoras de sua época, cúmplices das atrocidades, mas que, por estarem ao lado dos vencedores, os que escreverão a história, reescrevendo-a conforme seus interesses, criam a versão conveniente e se asseguram um habeas corpus ex-post-factum.

Este é um jornal do anti-sucesso, da anti-glória, da anti-história oficial, da única intransigência que se justifica: aquela que se volta contra a mentira, venha ela travestida de verdade oficial ou de meia-verdade laica. É, por definição, um jornal outsider, remando contra a corrente, um sim numa sala negativa, corrompendo, com sangue novo, a anemia – como naquele estupendo verso do auto de natal pernambucano do imortal João Cabral de Melo Neto, Morte e vida Severina.

Não há festas convencionais na data. Mas há a alegria solar de receber mensagens como a do economista Marcelino Monteiro da Costa. No passado, como no presente e, provavelmente, ainda no futuro, diferenças de concepções continuarão a me separar de Marcelino.

Essas diferenças, que não foram capazes de turvar a amizade, jamais tingirão de fel nosso mútuo respeito. E, como sabemos, nós, os mandarins de um país faminto (de comida e de saber), o afeto intelectual jamais se encerrará se o que nos move é aquele tipo de compromisso ético e moral que nos faz acreditar no intangível e a perseguir o que está muito além de nós, o mistério da vida, seu sal, sua luz: a utopia.

Por 17 anos o Jornal Pessoal buscou objetivos que não constam dos manuais de sucesso minimalista de uma sociedade consumista, que se compraz com o espetáculo da contemplação do próprio umbigo. Pelo tempo de vida que lhe couber daqui pra frente, continuará em busca desses ideais, sem se perguntar quanto custam e o que acarretam.

Não é propriamente um espetáculo fugaz ou fantasioso de crescimento o que me atrai, mas aquilo que surpreendeu os dois compadres na conversa de beira de mangue no poema alegórico do grande Cabral: o espetáculo da vida. Este, sim, é o maior dos espetáculos. Consolida um projeto de civilização, muito mais profundo e perene do que qualquer projeto de crescimento, sujeito às marolas do mercado e aos vírus externos.

Queremos um projeto de civilização para esta parte estranha e específica do Brasil. E, se der, para o Brasil inteiro e a humanidade que quiser subir nesta canoa. A Cantareira da esperança.

Obrigado, amigos e leitores.

___________________

Querido amigo,

Pax!
Lamentavelmente ameaças comemorar os 17 anos do Jornal Pessoal com festa só de letras. De qualquer forma sugiro que marquemos um almoço para um brinde de longa vida, ao Jornalista (é assim mesmo, com letra maiúscula) e à obra (creio que aqui está respondido o primeiro pedido de tua nota sobre o assunto). A maneira deve, direta e obviamente, derivar das idiossincrasias do responsável. É isto que lhe dá a autenticidade e os méritos desfrutados. Funcionou até agora? Acho que sim, posto ter correspondido ao que dele esperava o círculo de ávidos e exigentes leitores que, ao longo do tempo, formou. Parabéns. Vai em frente. Brindando os leitores com as tuas pesquisas, informações, análises, críticas etc.

Um abraço fraterno,

Marcelino Monteiro da Costa

 

É com muita felicidade que comemoro junto com você, o 17º aniversário do JP.

De fato, é uma grande festa em meio a tantas dificuldades e manter viva até hoje essa publicação  imparcial, feito tão raro na impressa nacional e  tão singular aqui na Amazônia.

Saiba que todo esse trabalho tem gerado “bons frutos”, influenciando, de maneira saudável, muitos leitores jovens e, mais do que isso, esclarecendo-nos.

Permaneça firme nessa luta e jamais esmoreça diante de todo esse trabalho.

Meus sinceros parabéns.

Michel Guedes

 

Apesar de leitor assíduo do seu jornal é a primeira vez  que lhe escrevo uma carta.

Escrevo-lhe não apenas para parabenizá-lo pelos 17 anos do Jornal Pessoal, mas também para lhe dizer que apesar de novo este jornal já é considerado um dos mais importantes do país.

Espero continuar encontrando-o nas bancas de revistas por muitos e muitos anos.

David Leal

 

Parabéns ao Jornal Pessoal pelo aniversário.

Embora não seja leitora assídua desse jornal, gosto muito de lê-lo, porque sinto veracidade nas notícias, além de adorar as seções de “Memórias do Cotidiano”.

Parabéns e muitos anos de vida, ao jornal e ao jornalista.

Ana Coeli

 

O Jornal Pessoal completa este mês 17 anos de jornalismo independente, cuja base está na investigação, análise e crítica dos fatos. Uma tarefa nada fácil, principalmente numa área de fronteira, como é a Amazônia, onde o clientelismo político atrasa e dilacera a região, que vive em um monstruoso paradoxo: rica em recursos naturais, mas pobre no que diz respeito ao seu desenvolvimento econômico-social.

Daí o periódico assumir uma importância estratégica no fluxo da comunicação no Estado do Pará, pois os textos publicados por Lúcio Flávio Pinto no JP têm a visão de um homem que estuda a Amazônia há mais de 30 anos. O periódico, muitas vezes, alimenta a grande imprensa com questões de relevante interesse para a sociedade, provocando debate público e contextualizando os principais atores envolvidos, os amazônidas.

Por reivindicar o direito de publicar o que de fato acontece na região, o jornalista responde a uma multiplicidade de processos na justiça paraense há 12 anos. Tais processos, como diz o próprio Lúcio Flávio Pinto, não são desonra, mas medalhas de um tipo de jornalismo que não curva a espinha ou faz concessões ao gosto fácil.

Nós, leitores do Jornal Pessoal, temos que comemorar seus 17 anos. Uma idade rara em se tratando de periódicos desta natureza (basta consultar a história da imprensa alternativa brasileira). O jornalismo e a sociedade amazônica ganham com a existência deste pequeno alternativo, cuja história está ligada à defesa do direito à informação, a liberdade de expressão e a dignidade do povo da região

Gostaria de parabenizar o jornalista Lúcio Flávio Pinto por manter vivo o Jornal Pessoal. Parabenizar o seu modo singular de fazer jornalismo. Um jornalismo comprometido com o leitor, sem publicidade de partido político, sindicato, empresários, religião….. Só um intelectual independente e detentor de muita coragem é capaz de realizar um empreendimento dessa natureza. Lúcio Flavio Pinto é muito mais que um simples homem construtor da história. É uma personalidade que incomoda pelo compromisso com a verdade e a defesa da Amazônia, tão necessária nos dias de hoje.

Célia Trindade Amorim, jornalista e pesquisadora na PUC/SP.

 

Inicialmente parabéns pelo transcurso do 17º aniversário. Meus votos seriam de uma vida infinita. Força, JP, precisamos de você, que o diga o Emílio Goeldi e o SBPC. Mudando de assunto, depois de ler e ouvir dezenas de opiniões acerca do polêmico Conselho Federal dos Jornalistas fiquei com a nítida impressão que a maioria dos profissionais da escrita são comparáveis “… àquelas plantas trepadeiras de Java, ávidas de sol. Chamam-lhes cipó-matador que envolvem com os seus braços um carvalho durante tanto tempo e tantas vezes até que, por fim, muito acima dele, mas nele apoiadas, possam alargar a sua copa e exibir a sua felicidade¨. Palavras de um irrequieto pensador do século XVIII. Esta é a organização social que gostaríamos de ter?

Rodolfo Lisboa Cerveira

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (347)

  1. Lucio, e de lá para cá, o que você acha? Os debates e argumentos dentro da sociedade melhoraram ou pioraram? Dizem que com o advento do Facebook e outras coisas mais, os argumentos e os debates pioraram muito de nível devido ao fato destas ferramentas facilitarem o pensamento raso e assim a polarização.

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    Publicado por Jose Silva | 14 de janeiro de 2018, 09:30

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