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Imprensa, Justiça, Política

Veja errou

A Veja desta semana traz na capa duas fotos do Lula na prisão. Uma, de 1980, é verdadeira, registra sua prisão no Dops (a polícia política) de São Paulo, quando ele era dirigente sindical no ABC paulista. A outra foto foi montada pela revista sobre uma foto atual do envelhecido ex-presidente, que tem uma faixa sobre o peito apontando-o como condenado.

A prisão de Lula em 1980 foi num Brasil sob a ditadura, com o último militar posto (e imposto) na presidência da república, o general João Batista Figueiredo, à frente do pior dos governos de exceção. Foi uma prisão extremamente arbitrária e ilegal de alguém que exercia os seus direitos políticos e de cidadania, nos limites de tolerância da ordem jurídica (ou anti).

Seu carcereiro, Romeu Tuma, delegado do Dops (e depois senador por São Paulo), e seu filho, o ex-deputado federal Romeu Tuma Jr., que (ironicamente) viria a ser secretário nacional de justiça do governo Lula, depois rompendo com ele, garantem que o então sindicalista era informante da polícia e foi tratado com todas as deferências na prisão.

É uma acusação séria, carente ainda de prova. Independentemente dela, Lula garantiu seu lugar na história (e sua vitória na principal disputa eleitoral do país, por suas vezes), com sua atuação à frente dos trabalhadores de São Paulo. A prisão, com todas as suspeições que possam haver, honra a sua biografia.

Dar a essa foto a companhia de uma segunda foto, montada, e justaposta a ela, foi uma decisão infeliz da revista. Tanto porque traduz uma dose de ressentimento, raiva ou ódio incompatível com o tratamento jornalístico adequado para questão de tal importância e gravidade, como porque pode ter uma interpretação oposta à talvez pretendida pela publicação.

A primeira prisão foi injustiça e ilegal mesmo num regime de exceção como aquele. Já a segunda, não – ao contrário do que alegam os defensores de Lula. Foram respeitadas todas as prerrogativas do acusado, o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal.

Mais do que isso: ele pôde responder ao processo em liberdade, ao contrário de outros indiciados da Lava-Jato, inclusive políticos e mesmo correligionários e companheiros de governo, como o ex-ministro Antonio Palocci, ainda na cadeia.

O único constrangimento de Lula foi a condução coercitiva para depor, em seu domicílio, em São Paulo, suficientemente explicada e defendida pelos desembargadores que o condenaram no Tribunal Regional Federal da 4ª região, em Porto Alegre.

Eles lembraram que Lula foi acompanhado pelos advogados e pôde se manter em silêncio, quando quis. A condução tornou-se necessária porque a primeira tentativa fracassara, por tumultos realizados pelos adeptos de Lula. Já no depoimento em juízo, Sérgio Moro admitiu que o réu, se desviando das perguntas, fizesse discurso político, que caberia melhor em um palanque eleitoral.

Veja, portanto, igualou imagens completamente distintas e opostas, não deixando, por isso, de conferir certo status de legalidade à total  ilegalidade e horror da ditadura, contra a qual se  insurgiu, mantendo-se em posição altaneira, até negociar o fim da censura, a um preço exagerado, que provocou a redução da independência da revista.

Discussão

6 comentários sobre “Veja errou

  1. Lúcio : tão logo faleceu o famoso delegado Romeu Tuma, uma revista de circulação nacional aventou a possibilidade de o cidadão Luis Inácio Lula da Silva ter integrado o “time” de informantes do DOPS São Paulo, quando o aludido delegado comandou a famigerada delegacia e que a “prisão” era engodo!Será verdade?

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    Publicado por José de Arimatéia M. da Rocha | 29 de janeiro de 2018, 13:08
  2. Romeu Tuma Junior conta detalhes em “Assassinato de Reputações – um crime de estado”, sobre um bandido que, tivesse sido mantido preso por associação a organização terrorista desde 1980, não teria liderado a maior organização criminosa de assalto à república da história da humanidade.
    Quanto à capa de Veja, natural da revista o sensacionalismo e o descompromisso com o jornalismo de verdade como fazes. Hoje a Veja é a mais elaborada expressão do “fake news”.

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    Publicado por Anônimo | 29 de janeiro de 2018, 15:25
  3. FECHAM-SE AS CORTINAS, TERMINA O ESPETÁCULO
    VEJA – 2197 – 29/12/10

    “Termina no dia 31 de dezembro o mais corrupto governo da República.”

    “Sob Lula, corrompeu-se a linguagem, depravaram-se hábitos, deterioraram-se as instituições, princípios universais degradaram-se em bandeiras de ocasião.”

    “Termina no dia 31 de dezembro o mais ardiloso governo da República.”

    “(…) termina um período da história política brasileira que produziu mais calor que luz, mais estridência do que reflexão, mais discurso do que ação.”

    “Não termina em 31 de dezembro, porém, o que não começou em 1º de janeiro de 2003, o Brasil real das pessoas reais.”

    “(…) o desempenho da economia em determinado período medido por seus índices anuais de crescimento pode depender muito pouco – ou quase nada – da vontade e dos atos de um presidente. Muitas vezes, os acertos de um presidente só vão ter efeito positivo no crescimento que ele já está aposentado em casa.”

    A VITÓRIA DA APARÊNCIA SOBRE A REALIDADE

    “(…) despedida de um governo que representou com perfeição a vitória da aparência sobre a realidade.”

    “E o melhor do governo Lula foi o que ele não fez. O lado positivo de seus oito anos na Presidência começa e termina aí – no mal que poderia ter feito e acabou não fazendo.”

    “Os fatos são o que são, não aquilo que parecem ou aquilo que se acha deles; o que aconteceu é aquilo que foi possível observar, não aquilo que se conta ou imagina.”

    “(…) foi de esquerda no microfone e neoliberal com a caneta de presidente na mão.”

    “Comportou-se desde o começo, e cada vez mais, com uma combinação de soberba, arrogância e mania de grandeza que provavelmente não encontra paralelo em nenhum outro presidente brasileiro.”

    “Lula, pelo demonstrado em sua conduta, fez questão de aproveitar ao máximo as oportunidades que teve para utilizar mal a popularidade – serviu-se dela, dia após dia, como uma autorização para dizer e fazer qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça.”

    “Lula também promoveu, como ninguém fez antes dele no Brasil, um culto sistemático à ignorância. Podia, mas não quis, ter curado a sua, através do esforço para aprender; preferiu o caminho mais cômodo de transformar a ignorância em virtude e o conhecimento em defeito.”

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    Publicado por Zé Carlos | 29 de janeiro de 2018, 15:41
  4. Seria uma característica da ditadura da corrupção?

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    Publicado por Luiz Mário | 29 de janeiro de 2018, 18:40

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