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Política

Palhaçada na reforma agrária

“Deus nosso senhor Jesus Cristo está no comando”, exclamou o deputado federal (do partido Solidariedade do Pará) Wladimir Costa, ao receber a comunicação de que conseguira a nomeação do nome que indicara para ser o delegado federal da Secretaria Nacional do Desenvolvimento Agrário.

“Nada acontece sem a determinação de Jesus Cristo. Se é para cumprir a missão, dei-me a missão”, reagiu Yorran Costa, o novo titular de um cargo, que, só para o Estado natal de ambos, tem 100 milhões de reais orçados para aplicar ao longo deste ano.

Ao atribuir a responsabilidade pelo ato, padrinho e protegido se expuseram às punições anunciadas pela Bíblia, no capítulo do Êxodo, do Antigo Testamento: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.

Inocentes nenhum dos dois é. O patrocinado, porém, é mais pretensioso e arrogante:ele mesmo “se deu”a missão que o próprio Deus lhe atribuiu. Só mesmo na metafísica se pode buscar alguma explicação para a decisão do presidente da república de nomear, como o fez no dia 26, esse cidadão para o cargo que lhe foi pedido.

Yorran é filho do deputado, que deve ter o mesmo pudor de pedir que teve Michel Temer de atender o pedido. O novo delegado tem apenas 22 anos. É estudante do curso de direito e gestão pública. Sua única atividade com alguma – e remotíssima – semelhança com a carreira no serviço público é a de presidente executivo do Solidariedade Jovem paraense.

O impetuoso jovem é bem mais conhecido por sua participação em baladas e outros eventos noturnos, animados por barulheira, álcool e outros ingredientes de animação e euforia. Nunca se ouviu da sua boca algo que guardasse a mais surreal afinidade com as funções que lhe serão delegadas.

Elas dizem respeito a questões como reforma agrária, promoção do desenvolvimento sustentável dos agricultores familiares, delimitação, demarcação e titulação das terras de comunidades dos quilombos, além de exercer extraordinariamente competências relativas à regularização fundiária na Amazônia.

Não é pouca coisa – muito menos coisa fácil. Seu antecessor, o também paraense (que seguiu o mesmo itinerário) Andrei Gustavo de Castro, pelo menos fora diretor geral da Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos do Estado.

Por que o advogado constitucionalista Michel Temer daria cargo de tal importância a um completo despreparado (para não ir além, ao desqualificado)?

Porque o pai de Yorran foi o mais espalhafatoso personagem da sessão de impeachment da presidente Dilma Rousseff, vestido com a bandeira brasileira, depois de ter sujado o plenário com os confetes que lançou ao ar?

Porque, ao contribuir com seu voto para afastar dois processos criminais na justiça de sobre as largas costas do presidente, ainda tatuou o nome de Temer no ombro direito, garantindo ser permanente o que não passava de uma pintura?

Ao mesmo tempo, no ano passado, o ex-radialista (de programas de sensacionalismo) e dono de aparelhagem dita musical (na verdade, de barulho, muito acima dos níveis de tolerância auditiva do ser humano) foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará por abuso de poder econômico e gastos ilícitos na campanha eleitoral de 2014.

Wladimir Costa recorreu da decisão, certamente esperando o mesmo sucesso de sempre. Em 2016, ele foi condenado à perda de mandato pelo mesmo TRE por arrecadação e gastos ilícitos na campanha eleitoral. A execução da sentença foi suspensa.

É angustiante e desanimador chegar a uma pantomima dessas, que transforma a reforma agrária em moeda de troca de relações incestuosas, apresentadas com razões de interesse público. Reforma agrária foi a referência mais inflamável no discurso que o então presidente João Goulart fez, no Rio de Janeiro, em 13 de março, para 250 mile pessoas reunidas em frente à estação da Central do Brasil, no “comício das reformas”. Menos de três semanas depois, foi deposto do cargo, ao início de 21 anos de regime de exceção promovido ou avalizado pelos militares.

No entrechoque das forças favoráveis e contrárias à reforma agrária havia dramas e tragédias. No ato de Temer nomeando Yorran, filho de Wladimir, para o órgão federal incumbido da reforma agrária, o que há é apenas comédia e farsa. Preço amargo para uma democracia. Dobre de finados para o governo.

REAÇÃO

Durante quatro dias depois que noticiou o fato, o portal de notícias de O Globo na internet recebeu 443 comentários, que refletem a posição da opinião pública sobre esses sempre recorrentes acontecimentos na vida pública brasileira. Selecionei alguns, mantendo todos os erros de português dos textos originais, que seguem a linguagem dessa mídia.

Claudio Sousa – O deputado federal Wladimir Costa (SD-PA), que tatuou o sobrenome do presidente Michel Temer no ombro, recebeu quase R$ 6,9 milhões para emendas parlamentares em 2017, .. Segundo outro levantamento da ONG Contas Abertas, de janeiro a junho, o total liberado foi de R$ 2,12 bilhões.

João Araujo – É a dinastia da corrupção transmitindo a mamata para os descendentes que ainda não foram cassados. Esse aí deverá chegar a Brasília a bordo de um dos 20 caiaques que o pai prometeu para crianças e adolescentes de Barcarena-PA, num projeto de mentirinha que previa a implantação de uma escola de remo. Até hoje a garotada espera em vão.

Jose Filho – Infelizmente, cargos de livre nomeação (ad nutum) deveriam acabar, em sua grande maioria serve apenas como cabide de emprego ou capitação de recursos para uso próprio ou alheio. Neste caso, vemos o nepotismo cruzado, isto é, a troca de parentes entre agentes públicos para que tais parentes sejam contratados diretamente, sem concurso. Em outras palavras, é dando que se recebe!

André Costa – Cara, trabalhei minha vida roda, hoje estou desempregado, a única coisa que tenho é minha competência, adquirida em anos de trabalho. Me sinto estuprado com um tipo de noticia destas. Nem sei como terminar meu comentário, só sei que neste país não vale trabalhar, nem estudar nem lutar. O mundo está em uma era , nós ainda continuamos na idade das trevas.

Anderson Santos – Pow, queria uma pai desse! Estou com 21 anos e sou jovem aprendiz! Kkkkkkkkk os brasileiros esparramados por esse mundo a fora, e quando estiverem todos no Brasil, mandar aquele coreano mandar misseis , matar tudo que respirar nesse pais, não deixar um sequer pra que não posso procriar, é a solução!!!

Ivo Neto – Eduardo, nao fale asneira. O povo brasileiro não chega perto de ser honesto. Aqui, todo mundo divide sky, fura fila, avança sinal vermelho, faz gato de energia, aceita agrados para no emprego para fazer favores irregulares, etc etc etc. Os políticos são um reflexo de seu povo, em qualquer país. Onde há política honesta, há povo honesto. Onde há políticos sujos, há um povo sujo.

Elkho Melown – Khanhalhas! Lutei, estudei dia e noite, apesar de minha família ser paupérrima, favelada… mas conseguir chegar onde cheguei. Fiz cursos preparatórios mil e mal dormi. Consegui! Mas… me da nojo! Eles dão esmola para o povo para conseguirem isso.

André Luft – Podridão sem fim nesse país, essa corja agora começou a colocar os filhos na mamata, aquele ex-presidiário Roberto Jeferson forçando a nomeação da filha pro ministério, e agora esse. Cadê as forças armadas? Tão roncando

Sebastião – Vinte e dois anos, nao sabe nada em âmbito de federação, vai ser um marionete do pai e do partido ou seja uma farra do boi e o brasil continua se afundando e o babão distribuindo cargos a revelia para se suster no cargo.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

3 comentários sobre “Palhaçada na reforma agrária

  1. Sociologia da reeleição, pois!

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    Publicado por Luiz Mário | 31 de janeiro de 2018, 18:31
  2. Este é um Pais que vai pra frente. Ou, ou, ou, ou, ou.
    De uma gente amiga e tão contente. Ou, ou, ou, ou, ou.
    Este é um Pais que vai pra frente.
    De um povo unido. De grande valor.
    É o pais que canta. Trabalha e se agiganta.
    É o Brasil do nosso amor.
    É o pais que canta.
    Trabalha e se agiganta.
    É o Brasil do nosso amor.

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 31 de janeiro de 2018, 19:24
  3. É constrangedor reconhecer que não se pode impedir que individuo dessa estirpe possa guindar e brindar o seu pimpolho com uma prebenda desse calibre. É o Brasil de ontem, de hoje e, provavelmente, do amanhã,

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    Publicado por Rodolfo Lisboa Cerveira | 31 de janeiro de 2018, 23:37

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