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Cultura, Política

A história na chapa quente (357)

Testemunhos de época:

o valor da democracia

(Publicado no Jornal Pessoal 323, de outubro de 2004)

Na dedicatória a 1964 – Relatos subversivos (Os estudantes e o golpe no Pará), Pedro Galvão de Lima me fez uma boa provocação. Pediu-me para imaginar se eu, “que, de alguma forma”, ele diz que estou “dentro destes 1964” por ele e seus amigos relatados, “tivesse nascido um pouco antes”.

Nasci de cinco a nove anos depois dos oito autores do livro, escrito também por Roberto Cortez, Ronaldo Barata, Isidoro Alves, José Seráfico, André Costa Nunes, João de Jesus Paes Loureiro e Ruy Antônio Barata (excelente edição, de 320 páginas, bancada pelos próprios autores).

Quando os militares depuseram o fazendeiro e político gaúcho João Belchior Marques Goulart, um homem bonachão, mas que a calvície e a obesidade faziam parecer mais velho do que os seus 45 anos de idade, eu ainda tinha 14 anos.

Minha atuação política era então limitada ao Grêmio Cívico Domingos Sávio, do Colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, e ao Clube de Jovens da Paróquia da Santíssima Trindade. Mas já circulava com meu pai, então numa fase empresarial e técnica, entre o fim do mandato de deputado estadual (pelo mesmo PTB de Getúlio Vargas e Jango) e a conquista da prefeitura de Santarém, já pelo MDB. E lia muito sobre política.

Foi a partir de uma razoável distância física que acompanhei o golpe militar de 1964, mas com muita informação sobre os acontecimentos e um interesse vivíssimo por eles. Não conhecia pessoalmente nenhum dos líderes estudantis que agora, quatro décadas depois, vieram a escrever seus depoimentos sobre aqueles tempos elétricos. Mas logo depois fui tendo contato com eles até tê-los a todos, progressivamente, como amigos, exceto José Seráfico de Carvalho, que só vim a conhecer recentemente.

Acho que a minha primeira aproximação foi com João de Jesus Paes Loureiro, o mitológico autor de Tarefa, o livro-poema programado pela UAP (União Acadêmica Paraense) para ser lançado no dia 3 de abril de 1964, na “agência de Nazaré” da Livraria Martins (que tinha sua sede na travessa Campos Sales e mais uma “agência” na avenida Presidente Vargas).

Com o golpe, o livro se tornou uma prova criminal, o crime de fazer cultura engajada ou participante, como se dizia. A edição foi destruída (como viria a ser aniquilado outro livro de poetas locais, três anos depois, uma antologia – Cantação – da qual eu participaria, com minhas sofríveis criações).

O livro subversivo

A geração atual não sabe o que significa um livro proibido. Caçávamos esses livros com a sofreguidão e a paixão de arqueólogos clandestinos. Sonhávamos com essas edições e, quando a encontrávamos, nos dividíamos entre os sentimentos de medo e volúpia, de pavor e adoração.

Lembro-me, certa vez, quando morava no Rio de Janeiro. Vinha em um ônibus pela avenida Barata Ribeiro na direção da rua Constante Ramos, em Copacabana, onde morava. Da janela do ônibus consegui divisar o rosto de uma edição das obras escolhidas de Karl Marx e Friederich Engels, publicada pela Editorial Vitória, com maravilhosa capa (e inovadora diagramação) de Mauro Vinhas de Queiroz. Dei o sinal, desci e voltei ao local da livraria, logo depois da Siqueira Mendes, com o coração aos solavancos.

Era mesmo o livro. Os outros dois volumes estavam guardados. Um funcionário, inadvertidamente, tinha colocado aquele exemplar à mostra. O dono só me vendeu quando eu lhe prometi jamais mencionar a origem dos livros se algum contratempo acontecesse. Prometi, paguei e chispei para casa.

Atravessei a madrugada aceso, mas atento a qualquer movimentação estranha. Ora lia. Ora pensava no risco que estava correndo. E se alguém me denunciasse? O coração acelerava, mas não cedi. Tenho até hoje os três volumes, de seleção e tradução claudicantes, mas de um trabalho gráfico primoroso. Algum dia eles ainda correrão de novo algum risco? Espero que não.

Os heróis da época

O Jesus que se me apresentou e do qual publicaria, com atenção e carinho, vários poemas em A Província do Pará, a partir de 1966, era um homem proibido, perseguido, um herói. Heróis eram todos aqueles jovens, só um pouco mais velhos do que eu, dos quais eu ouvia falar e que aos poucos ia conhecer.

De Ruy Antônio Barata, cinco anos mais velho do que eu, filho do legendário poeta Ruy Guilherme Paranatinga Barata, eu seria companheiro e comandado na ocupação das faculdades, em 1968. No último ano de medicina, ele era o líder da FUAP, a Frente Unida de Ação Permanente, sucessora ilegal da UAP, mas a voz de direção do movimento de protesto contra a reforma do ensino universitário, baseada no acordo MEC-Usaid (mas não abusaid, como complementávamos).

Vi Ruy ser preso, ao meu lado, na Campos Sales, quase em frente à Faculdade de Engenharia, e empurrado para dentro do carro da polícia. Era o nosso début em passeata, a primeira organizada depois de 1964, que a Polícia Militar do governador Alacid Nunes reprimiu (Palmério e eu batemos a marca dos 100 metros com barreira numa corrida veloz até os altos de A Província, deixando os meganhas para trás, contidos à porta do jornal pelo senador Milton Blanco de Abrunhosa Trindade, meu querido chefe e padrinho ad-hoc).

Esses rapazes criativos e suas utopias políticas, presos como perigosos subversivos pelos homens armados, que rasgaram a Constituição, eram o melhor produto dessa mesma Constituição. Nunca, antes, tínhamos tido democracia por tanto tempo. Haviam sido 18 anos, desde a promulgação da nova carta constitucional, em 1946.

O texto selava o compromisso da elite do país de acabar com as soluções de força para os problemas e desafios brasileiros. Mas, infelizmente, o marechal Eurico Gaspar Dutra, um dos fiadores armados do Estado Novo (regime ditatorial comandado por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945), não estava à altura do seu tempo.

Em tom de pilhéria, dizia-se que quem mandava no Brasil era a dona Santinha, a autoritária mulher do presidente. Homem pessoalmente honrado e honesto, Dutra tornou-se vítima de sua pequenez, provincianismo e preconceitos.

Acabou acobertando os rancores e miasmas do golpismo travestido de bacharelismo pela UDN, um ninho de cobras mal criadas, embora brilhantes, intelectuais que saíam de suas bibliotecas para contraditarem suas obras (ou seu discurso, de oratória competente).

Getúlio voltou mudado do auto-exílio nos pampas, mas seus adversários continuaram os mesmos, as insidiosas vivandeiras de quartel. O que aconteceu é que enquanto os líderes populistas cediam espaço para o florescimento da inteligência, mesmo à sombra de demagogia e superficialismo, os oposicionistas udenistas promoviam a trama ressentida dos que o voto popular havia afastado do tão sonhado poder. Quando Jango foi deposto, a senha para a vingança foi liberada.

Os crimes dos jovens

Os relatos dos oito líderes estudantis de 1964 são, evidentemente, subversivos. Mas de uma inocente e fértil subversão. Nenhum deles estava armado ao ser preso, em flagrante ou a posteriori. Agendas, livros, panfletos – essas eram as cavilosas provas dos crimes (como Pedro conseguiu esconder a sua agenda subversiva, em pleno QG do Exército, sem ser notado ou vê-la descoberta, é detalhe a desafiar o tempo e a memória). Os crimes, todos, eram de pensamento. Infeliz do país que pune seus jovens por pensar, por conduta participativa, por se interessar pela sorte do seu país.

Realizados os soturnos IPMs (Inquérito Policial Militar), avaliadas as provas, o que sobrou? Nada. Todos aqueles cidadãos indiciados, fichados, punidos e perseguidos pelos anos seguintes haviam se aproveitado dos férteis ventos da liberdade durante o mais longo período de democracia da república brasileira. Todos, certos ou errados, achavam que o mundo podia mudar se colocassem suas ideias em prática. Ou se a deixassem no ar, onde tudo que é sólido se dissolve.

Uns queriam o socialismo, outros o comunismo e vários uma utopia de bem-estar não muito bem definida. Aliás, faziam mais do que pensavam (na verdade, diziam mais do que faziam ou pensavam). Eram mais intuitivos do que cerebrais. Mas eram muito criativos, cheios de qualidades, como suas bem-sucedidas carreiras posteriores viriam a comprovar. Eram pessoas de classe média, em seus vários segmentos.

Sabiam do povo mais por esforço intelectual do que por prática vivencial. Muito do que diziam e faziam, por isso, era postiço, artificial. Mas que, ainda assim, se solidarizassem com as gentes esquecidas e maltratadas, era o seu traço mais nobre.

Essa esquerda – festiva, como viria a ser definida um tanto depreciativamente depois – era um componente essencial da democracia. Sem essa cercadura que a viabilizava, o país se tornaria mais pobre, mais intolerante, menos civilizado.

Toda a discussão que se trava até hoje – se o golpe de 1964 foi revolução ou contrarrevolução, golpe preventivo ou presuntivo – é ociosa, quando não formal. Quando saiu com sua tropa, no dia 31, em Minas, o general Olympio Mourão Filho ignorou a conspiração em andamento contra o presidente da república.

Não pensava que iria tão longe – e nem foi: nenhum escaninho na nova estrutura de poder, em relação ao qual era um estranho no ninho, lhe foi reservado. Quando Jango se foi, os instrumentistas da banda de música da UDN achavam que seus lugares seriam guardados pelos bravos soldados que haviam aliciado.

Tudo acabou evoluindo muito além do imaginado e controlável. Os perigosos subversivos não eram tão perigosos nem tão subversivos quanto pareciam. A infiltração estrangeira era restrita. Os grupos armados constituíam mais exércitos Brancaleones do que ameaças consistentes. Exauridos os excessos dos primeiros dias e as fantasias da propaganda, o Brasil podia retomar seu caminho normal.

Mas não foi o que aconteceu. O sistema paralelo de governo, aquela criatura que o general Golbery do Couto e Silva ajudou a criar e que depois, tornando-se monstruosa, se voltaria contra ele também, inventaria e reinventaria seus inimigos para se perpetuar na anormalidade. Abria espaço para o estado da violência, do caos, do arbítrio.

O valor da democracia

Para a minha geração, que assistiu de camarote o fim da IV República e entrou na arena no período de ensaio (1964-1968) para a ditadura plenamente assumida (1968-79), seguindo-se o regime de exceção (1980-85), já não sobraram as alternativas que tinham nossos antecessores.

Depois de pular diversas fogueiras, queimando-se numas e livrando-se de outras, eles puderam seguir seus caminhos sem maiores atropelos. Alguns foram até obsequiados com gestos de fidalguia dos vencedores, como testemunham no livro, no calor da hora.

Mas para os jovens que chegaram à maturidade política quando baixou o AI-5, não houve mais uma opção dentro dos quadros institucionais. A luta armada, como realidade, convite ou insinuação, bateu-lhes à porta.

Não foram poucos os que, com os mesmos ideais de antes, entraram nessa aventura, que se tornou sem volta pela ausência do pano de fundo da democracia, este bem universal, de valor incomensurável, que a releitura de histórias como as narradas pelos oito ex (ou velhos) subversivos só nos fazem valorizar. Mesmo quando a memória de um ou outro narrador falha e a reconstituição de um e outro não é a exata reprodução dos fatos.

Numa democracia, contesta-se e debate-se o que diz o interlocutor ou o adversário. Mas não se parte para a eliminação do interlocutor ou do adversário. É assim que caminha a humanidade: evoluindo. Deus salve, pois, a democracia. E proteja as novas gerações de ficarem privadas desse patrimônio solar.

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