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Cidades, Sem categoria

E agora, Belém?

Belém naufragou hoje.

Belém sempre vai ao fundo quando chuvas fortes coincidem com maré alta. Mas os estragos eram amplamente compensados pela importância da irrigação da área e pela certeza de que metade da chuva amazônica, que vem do mar, continuava a passar pela capital do Pará, rumo ao hinterland, cada vez mais desnaturado em sertão pelo desmatamento e a devastação em geral (a outra metade das chuvas resulta da evapotranspiração das plantas, em crescente chacina).

Até algum tempo atrás as pessoas sabiam quais eram os pontos de alagação da cidade. Era possível contorná-los e levar a vida debaixo d’água (no passado, com os apetrechos necessários: galocha sobre o sapato e capa plástica com sua touca, mais o complemento – nem sempre usado – da sombrinha ou do guarda-chuva; era um amazônica que ia para o trabalho ou a escola. hoje, é um falso novaiorquino ou miamense).

Nos últimos anos deixou de haver locais críticos. Como 40% do perímetro urbano fica abaixo da cota quatro do nível do mar, a maior parte da cidade é inundada. O avanço das águas e sua maior altura são funções da impermeabilização do solo pelo seu asfaltamento ou forma equivalente de compactação, a opção pelo crescimento vertical, que adensa a ocupação humana do espaço nos arranha-céus, o aterramento das drenagens naturais ou sua obstrução, o lixo infernal e outras mazelas exageradamente belenenses.

Em algumas partes da cidade, o pedestre e o motorista ficam ilhados pela subida avassaladora da água. É um transtorno. Pior é para os moradores das áreas atravessadas por canais, que substituíram – com prejuízo – os igarapés. Suas águas fétidas e poluídas transbordam, penetrando nas residências e tornando os moradores reféns dessa prisão aquática por um ou mais dias.

Para consternação do suspeito orgulho da cidade, um dos seus points, a Doca de Souza Franco, mostrou o que é por debaixo da maquilagem mal feita: um esgoto a céu aberto. Uma água negra cobriu a avenida e foi bater nas casas e demais edificações da área mais valorizada, onde despontam dois símbolos do desajuste esquizofrênico da urbe com a sua paisagem natural: as torres gêmeas de 40 andares, Sun e Moon.

Cidade de administradores desatinados, de elite indiferente e egoísta, de povo inerte e submisso, massacrado pela ignorância, a doença, a péssima educação, os maus tratos e gerações de políticos cada vez piores. Cidade que perdeu o rumo e o prumo, incapaz de se ajustar ao seu sítio pantanoso e ricamente drenado, negando seu território e ofendendo a razão de ser da sua história.

A chuva, bênção dos céus, virou instrumento de tragédia, fonte de dramas e sofrimentos. Somatório de Sodoma e Gomorra numa versão tropical que nega a si mesma – e pagará cada vez mais caro por isso.

Discussão

17 comentários sobre “E agora, Belém?

  1. E com as mudanças climáticas, a tendência a médio prazo é o nível do mar aumentar e grande parte de Belém ficar submersa. Tudo indica que inundações como esta podem se tornar mais frequentes.

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    Publicado por Jose Silva | 26 de fevereiro de 2018, 17:53
    • José Silva…, agora não é mais “aquecimento global”, “efeito estufa”, “camada de ozônio”?, voltou para “mudanças climáticas”? rssss E ainda em médio prazo vai aumentar o nível do mar?
      Sai dessa agenda, velhinho. Desde que o mundo é mundo chove pra dedéu em Belém (e no Brasil todo). Sai do mito, meu querido…
      Se as inundações amentarem em Belém, certamente não será por conta da chuva ou nível do mar, e sim por conta do lixo e adensamento urbano. Quando Veneza afundar pelas “mudanças climáticas” ou “aquecimento global” eu me calo.
      Recomendo alguns vídeos do Prof. Dr. em climatologia Ricardo Felício, dentre outros daqui e de lá de fora. Ou este aqui do Ben Shaphiro, de Harvard:

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      Publicado por Anônimo | 26 de fevereiro de 2018, 18:24
      • Aliás a nevasca nos EUA foi violenta e nevou no norte da África. Chove em Belém e Porto Alegre esteve assim. No verão chuva brava em SP e no DF. Melhor mudar pra mudanças pq o aquecimento levou o farelo.

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        Publicado por jjss555 | 26 de fevereiro de 2018, 19:18
      • Não chega a surpreender que ainda exista gente que, mesmo apesar de todos as evidências científicas, não acredite em mudanças climáticas. Felizmente é uma minoria, atrasada mas uma minoria. Fazer o que?

        Para quem quiser saber mais sobre a vulnerabilidade das cidades brasileiras às mudanças climáticas, incluindo a subida do nível do mar, consultar o seguinte relatório do próprio governo brasileiro:

        https://drive.google.com/file/d/0Bxchau3sCq6keVYwZFI3TFoxWGs/view

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        Publicado por Jose Silva | 26 de fevereiro de 2018, 19:51
      • José Silva o sr. é cego?

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        Publicado por Anónima | 26 de fevereiro de 2018, 20:10
      • Não deve ser cego mas se tiver câncer no cérebro vai querer tomar fosfoetanolamina, aquela pílula que ele leu em estudos científicos que cura todo tipo de câncer.

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        Publicado por Anônima | 26 de fevereiro de 2018, 20:28
      • Anônima,

        Centenas de cientistas to mundo todo escreveram juntos um relatório com todas as evidências produzidas até hoje e demonstraram que o clima mudou, o clima mudará mais ainda e se o homem não mudar os prejuízos serão enormes. Está tudo lá escrito e aberto ao público. Em resumo: nao sou eu o cego nessa história.

        Sobre a pílula que você mencionou, você erra de novo. A pílula não foi para o mercado justamente porque não havia ciência necessária para comprovar a sua eficácia. Uns doidos populistas, aproveitando o sofrimento das pessoas, chegaram a fazer e aprovar uma lei que liberava a tal pílula para o público sem os testes adequados. Felizmente o STF colocou a casa em ordem, suspendeu a lei e parou com essa doidice. O professor da USP, até onde sei, está sendo acusado por sua própria instituição por charlatanismo.

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        Publicado por Jose Silva | 26 de fevereiro de 2018, 21:41
  2. Com os prefeitos que tivemos nos últimos 100 anos, é sorte que ainda consigamos sobreviver às intempéries da natureza, perfeitamente previsíveis.
    Os antigos rios e igarapés contavam em suas conformações de: um leito permanente de água que lhes davam a característica de córrego, igarapé ou rio; áreas de inundação diárias conforme as marés, chamada de igapós, ou praias; outras áreas de inundações sazonais chamadas de várzeas, baixas e altas; finalmente a terra firme.
    As populações urbanas, sem controles e orientação, passaram desde os primórdios a ocupar as várzeas e igapós, chegando a aterrar os córregos e igarapés, conforme pediam a políticos, que se elegiam vereadores e até deputados, aterrando os veios d’água, lagos e alagados.
    O crescimento urbano e a verticalização predial descontrolada, não previam e não preveem os impactos ambientais que ocasionam no esgotamento das águas servidas e resíduos sólidos ou não, despejados nas calçadas, valas e esgotos pluviais, sem nenhum cuidado ou tratamento. Imaginem milhares de apartamentos descarregando seus sanitários e banheiros nas horas da chuva e maré cheia? Com certeza haverá um congestionamento hídrico no precário sistema de Belém.
    Seria o caso de se exigir dos prédios, especialmente os novos, projetos de reaproveitamento de águas servidas, estações de tratamento de esgotos e fossas de segurança, antes de verterem para a rede pública.
    O ideal seria, também, seria desocupar as margens dos canais e igarapés, deixando-se uma margem de pelo menos 50 metros entre as calçadas de moradias e comércio, até a beira desses veios, onde seriam preparados áreas de recepção d’água de esgotos, para sofrerem um último tratamento até chegarem ao dito vertedouro até a baía ou rio Guamá.
    É possível? Em muitos lugares, sim! É caro? Deve ser, mas a cidade ficaria outra, pronta para morarmos e usufruirmos de sua qualidade o ano inteiro, podendo lucrar com o turismo e atividades econômicas, pois obra de infraestrutura são multiplicadoras de riquezas e desenvolvimento.
    Basta pensar e realizar.

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    Publicado por JAB VIANA | 26 de fevereiro de 2018, 18:05
  3. Eram 8 e 30 quando o BRT parou bem na frente do Baenão. Ficamos ali cerca de 15 minutos. Depois que nos convencemos que o veículo não iria sair de lá tão cedo, tivemos que convencer o motorista a abrir a porta do lado direito. A única pela qual podíamos descer. Atravessamos a Almte. Barroso em meio aos demais veículos e cada um seguiu seu rumo. Optei pela Domingos Marreiros e me dei mal. Tive que caminhar pela 14 de Abril até a José Malcher e seguir rumo à Doca. Durante todo o trajeto, vi centenas de motoristas estressados. Até a internet estava congestionada. Belém viveu mais um dia de cão.

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    Publicado por Pedro Pinto | 26 de fevereiro de 2018, 18:37
  4. Enquanto isso, o canal São Joaquim está lá esperando uma limpeza profunda. em alguns trechos, atravessamos o canal sem mergulhar.

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    Publicado por Pedro Pinto | 26 de fevereiro de 2018, 18:40
  5. Repito: A SUDAM, no princípio de sua gestão, contratou equipe de geólogos do sul q constataram o óbvio de q Belém são 6 ilhas, que 60% da área é de baixadas, ou seja, não tem jeito, choveu encheu. Que Belém deveria ser iniciada de Salínas em diante. Se fôssemos dirigidos por por pessoas inteligentes como holandeses já teríamos resolvido os problemas da cidade, mas. . ..

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    Publicado por Hely Nasaré dos Santos | 26 de fevereiro de 2018, 20:15
  6. A outra solução complementar, seguindo a informação da Sra. Hely, seria uma política pública de desconcentração de atividades econômicas e serviços da Capital para o interior. Expansão de universidades e hospitais, escolas e incentivos para empresas, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura, preferencialmente nos municípios distantes pelo menos 200 km de Belém.

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    Publicado por JAB Viana | 27 de fevereiro de 2018, 11:49
  7. Construir o inferno para vender o céu: uma engenharia da …deixa pra lá!

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    Publicado por Luiz Máriio. | 27 de fevereiro de 2018, 18:42

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