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A guerra civil (e militar) brasileira

Do estado de violência extrema, o Brasil passou para o estado de selvageria. Agora, chegou ao estado de guerra. Formalmente, no Rio de Janeiro. Informalmente, em todas as suas 27 regiões metropolitanas, onde vive a maior parte da população e se concentra a riqueza (e os mais ricos) do país.

Natal é a quarta cidade mais violenta do mundo. Fortaleza, a sétima,. Belém, a 10ª. Das 50 cidades mais violentas, 17 estão no Brasil, 10 delas no Nordeste e três na Amazônia (mais Macapá e Manaus). O México abriga outras 12 mais violentas do ranking.

O que aproxima nos nossos dias o distante México, na América do Norte, o sofrido vizinho da maior potência do planeta, do Brasil, na América do Sul, a quase sempre ignorada (ou pessimamente compreendida) região abaixo do rio Grande?

A corrupção, a droga e um projeto de poder monolítico. No México, o PRI, que ficou no poder por meio século. No Brasil, vizinho dos bolivarianos, o PT, que os apoiou e tenta dar continuidade aos seus 16 anos de poder com uma contribuição sobre o passado: a corrupção sistêmica, organizada, “científica”.

A resposta do governo federal ao estado de guerra efetivo no Rio de Janeiro foi a súbita intervenção federal, exercida pelo Exército. A iniciativa parece ser de antecipação, de ofensiva. Na verdade, é de desorientação, de submissão ao reconhecimento do estado de guerra e de oportunidade (e oportunismo) política. Por ter demorado, talvez tenha se tornado tardia, ainda que altere sensivelmente certa parte do status quo.

Este pode ter sido o objetivo do atentado que vitimou a vereadora carioca Marielle Franco, ontem à noite, em pleno centro do Rio, a 700 metros da sede da prefeitura municipal. A vereadora do PSOL não recebeu nenhuma advertência, não foi intimidada, não teve a oportunidade de se confrontar com os motivos que resultaram na sua morte violenta. Não recebeu qualquer ameaça de morte.

O atentado foi ´preparado com alguma antecipação para não falhar. Para matá-la, sem lhe dar a menor possibilidade de se salvar. Quem a caçava a acompanhou por algum tempo antes de atacá-la.Não foi ato isolado: foi decisão de uma organização.

O momento adequado surgiu ontem, quando ela saiu de um encontro e, ao invés de se sentar ao lado do motorista, ficou na poltrona de trás do carro, de um lado favorável ao atirador que viesse num carro emparelhado para o bote.

Quem atirou nela foi um pistoleiro profissional (numa das hipóteses, associada a traficantes de drogas ou, talvez, milicianos) ou atirador de elite (em outra hipótese, relacionada a policiais).

Todos os nove tiros que ele disparou, com uma pistola de 9 milímetros, foram na direção da cabeça da vereadora, mirada com determinação, apesar da película escura no vidro da porta, que não permitia a visualização do interior do carro. Quatro atingiram o alvo. Três seguiram até o motorista, matando-o, e duas se perderam.

Serviço perfeito. O efeito foi o que se previu.

Talvez desde o suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, a morte violenta de uma personalidade pública não tenha abalado e comovido tanto – interna e externamente – quanto a de Marielle Franco. Ela adquiriu, morta, uma dimensão que não tinha em vida – e que ninguém poderia prever que alcançasse. Quem mandou matá-la acertou em cheio na escolha.

Este é o aspecto mais dramático da execução, enquanto fato de alcance coletivo. Quem encomendou o crime não hesitou em dar-lhe partida. Todas as circunstâncias de risco foram deixadas de lado. A vida da jovem de 38 anos não entrou nos cálculos.

Uma morte a mais pesa nada nas estatísticas e é irrelevante no cotidiano das vidas reais. Uma comparação entre mortes diárias no Brasil, na Síria, no Iraque ou em qualquer outro país em guerra servirá para nos assustar ainda mais, se tal é possível.

Marielle devia ser detestada e odiada por aqueles que ela criticava com coragem e determinação na defesa das suas bandeiras: direitos humanos, negros, pobres, favelados, mulheres, homossexuais – os deserdados do modelo.

Mas se um desses temas tivesse sido o motivador da encomenda da sua morte, a aproximação do verdugo teria sido precedida por um processo de intimidação crescente, o que não houve, segundo testemunhos dados pela irmã dela, seus parentes e amigos. Foi uma morte súbita, seca, eficiente.

Foi um atentado político, que tomou por alvo alguém, não pelo que representava intrinsecamente, mas pelo que podia causar nos desdobramentos. Talvez a sorte – em certa medida determinada por casualidade – de Marielle tenha sido decidida por uma circunstância: a intervenção federa no Rio de Janeiro, comandada pelo Exército.

Esse componente agravou profundamente o fato. No parlamento europeu foi requerida até a suspensão das negociações comerciais do acordo de livre comércio entre a Europa e o Mercosul, um evidente despropósito, um exagero absoluto.

O assassinato da vereadora do Rio se equiparou à tentativa de assassinato por envenenamento de um agente duplo da espionagem russa em Londres, acontecimento que Vladimir Putin tenta desviar da sua direção, alegando que é mais uma manobra do imperialismo (reunindo Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos) para tirar o brilho da Copa do Mundo. Correlação, evidentemente, incorreta.

Para a ONU, que vem advertindo o governo sem resposta concreta, o Brasil se tornou o lugar com maior número de execuções de ativistas de direitos humanos. Na lista da organização, 17 deles estão visados, principalmente os que defendem o meio ambiente e os índios. A média seria de uma morte dentre eles por semana. Daria 48 por ano.

A estatística impressiona e é realmente grave. Mas precisa ser checada qualitativamente para que se possa separar o joio do trigo, o que é defesa de causa nobre do que é litigância por outras motivações. De qualquer maneira, o Brasil é um país violento e intolerante. Cada vez mais intolerante, agressivo, incapaz de garantir a convivência civilizada entre seus diversos e opostos agrupamentos humanos e sociais.

Mesmo se considerasse exageradas as avaliações da ONU e de entidades internacionais, ou buscasse inspirações ocultas para suas iniciativas, o melhor que o governo podia fazer era levar a sério suas observações e pedidos. Nenhum, porém, parece ter sido feito em favor de Marielle.

Ela podia ser enquadrada entre alvos potenciais de criminosos. Mas quantos estão nessa condição no dia de hoje em todo país? E quantas pessoas de valor, dignas, valiosas, de importância para a coletividade, são eliminadas da vida por um ato de império de bandidos, que marcam a execução no coldre das suas armas como se estivessem assinalando mais um dia numa folhinha imaginária (ou digital)?

Assustado e pressionado, o Brasil tenta ir atrás do prejuízo, uma imensa massa de problemas para os quais quem mais contribuiu foi quem mais deveria enfrentá-los de imediato – a elite, em geral, e a sociedade política, em destaque.

No caso do único Estado já em guerra reconhecida oficialmente, a semente, plantada remotamente, foi regada pelo acordo de Leonel Brizola com os bicheiros, extensivo aos traficantes, em nome da abertura aos excluídos da bonança (antes, então e agora, sempre), mas em proveito de um projeto político do caudilho dos pampas, urbanizado por uma linguagem de panfleto positivista.

A partir daí, o status quo não foi modificado. Pelo contrário, foi renovado e ampliado – tanto politicamente quanto socialmente, pela indiferença dos consumidores de drogas, sobretudo as mais caras, nos bairros nobres da cidade, conectados aos centros de fornecimento, nos bunkers instalados nos morros superpovoados (por pobres, pretas e prostitutas, na simbologia dos “três pês”, hoje ampliada), por uma teia de conexões que acabou por criar um Estado selvagem (mas muito organizado) à margem (e acima) do estado (e do Estado) normal, regular, convencional.  Tudo isso confluiu para a execução de Marielle.

Está escrito na Bíblia: depois da indiferença, o fogo.

(Texto revisto e corrigido para expurgar alguns erros.)

Discussão

4 comentários sobre “A guerra civil (e militar) brasileira

  1. Muito triste o assassinato da vereadora do PSOL. Era uma lutadora. A seleção da Marielle como alvo demonstra que o estado paralelo não é tão desorganizado assim. Ele sabe muito bem o que está fazendo. Usará o possível e o impossível para desidratar a intervenção militar no Rio.

    Tudo indica que a intervenção está incomodando. Aguarde mais mortes selecionadas a dedo nas próximas semanas. É uma forma bem clara de mandar uma mensagem para a sociedade brasileira. É assim nos outros países dominados pelo narcotráfico.

    Sobre a intervenção do Temer, claramente ela foi oportunística. Vamos ao dados: o Rio não está entre as cidades mais violentas do Brasil. Se há a necessidade de intervenção militar para reduzir a violência urbana, as cidades prioritárias seriam Natal, Fortaleza e Belém. Tudo bem que o Rio De Janeiro está em profundo desarranjo institucional. Entretanto, se este é o caso, a intervenção federal não deveria ser restrita somente a área de segurança pública. A fragmentação das ações, neste caso não ajuda muito.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Jose Silva | 16 de março de 2018, 11:04
  2. É o Estado dentro do Estado?

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    Publicado por Luiz Mário | 16 de março de 2018, 11:16
  3. Esta barbárie muito além de comover pela brutalidade, reascende o farol à atenção ao estabelecimento do contra-poder idealizado e cada vez mais estigmatizado pelos operadores (em rede) do caos deliberado na “cidade maravilhosa”.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 16 de março de 2018, 21:21

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