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Imprensa

Querida Vera:

Não conheço palavrão mais autêntico, sonoro, legítimo e “nelsonrodrigueseano” do que o de Vera Castro. Ele anima qualquer conversa, por mais longa que se tenha tornado, como as que nos mantinha acesos, pela noite adentro (ou afora), nos vários apartamentos nos quais Edwaldo Martins morou e reunia os seus amigos mais íntimos. Didi e Vera sempre foram, desde que nos conhecemos, meio século atrás, dois dos meus melhores amigos. Daqueles que, reunidos, somam menos do que os dedos das duas mãos, conforme sabem muito bem as manicures.

Vera e Edwaldo, como colunistas sociais, não podiam publicar muitas das informações que tinham. Mas as partilhavam com generosidade e prazer. Também eram repórteres. Queriam que mais gente soubesse do que transmitiam a amigos jornalistas, em confidência. Era matéria de interesse público.

As fofocas, mais impublicáveis ainda, algumas vezes, ficavam no conciliábulo. Impedida por seu próprio ofício de dar vazão ao que colhia nas suas constantes rondadas pela “alta sociedade”, sob compromisso com suas muitas fontes, Vera soltava seus pantagruélicos (ou seriam homéricos, dantescos?) palavrões, como se fossem válvulas de escape. E todos riam. E a reunião se reanimava. E o papo recebia novo combustível para se alongar. Uma conversa mais terapêutica do que a do Bial – e muito mais alegre.

Vera sempre foi aquilo que sua expressão fisionômica, suas palavras e seus palavrões deixavam inteiramente à mostra. Uma personagem da cidade e da vida. Sempre no batente, ligadíssima nos acontecimentos, irmã dos seus amigos mais próximos, conselheira e mãe acolhedora, mas severa, implacável na aplicação do que pensa.

Esta nota – nada peculiar deste blog – é para partilhar com meus leitores (e suas eventuais extensões) minha preocupação pelo estado de saúde de Vera Castro. Que se una a energia daqueles que a amam para que aumente a carga dela própria para os combates que continuará a travar pelo restabelecimento da “plenitude da forma física e mental”, como costumam dizer os jogadores de futebol. De tal maneira que continue a nos brindar com seus palavrões seminais, seus sorrisos, e também, seus sábios silêncios.

Muita saúde, querida amiga. Como dizia o filósofo Elói Santos, “vamos em frente que atrás vem gente com muita inveja da gente”. Saravá, Vera!

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Para quem não entendeu os dois pontos sem sucessão, como que perdidos na frase, explico: é também uma homenagem a Haroldo Maranhão. Quando ele me mandou os originais do seu texto, que fiz questão de publicar, ante manifesto desinteresse das editoras, seu título era Querido Ivan: – assim mesmo, com dois pontos ao final.

O precioso livro voltou da impressão sem o complemento (por culpa do computador, naturalmente, ou do mordomo, of course, Mr. Watson), indispensável para o autor. O que fazer? Mandei 100 exemplares de presente para o Haroldo, que estava no Rio de Janeiro. Era antevéspera de Natal. Até hoje não sei como ele recebeu op Papai Noel.

Discussão

6 comentários sobre “Querida Vera:

  1. Ebaaaa. Parabéns.
    Quero muito.
    A muito espero o livro Querido Ivan:,ou como for, tanto procuro em sebos, mas nada encontro.
    Se sair um de Vera o Edwado Martins também seriam muito bem vindos. Acompanhei alguns textos sobre os dois que já foram muito instigantes para que conhecesse um pouco sobre esses personagens. O do Pierre Beltrand já trás bastante sobre os sociáveis da cidade.
    Falando de biografias soube que saíram os livros sobre Vicente Salles e Paulo Fontenelles, mas ainda não os encontrei, e espero que não fujam muito do meu orçamento.
    P.S.: Falando em conversa mais franca que a do Bial. Qual sua opinião sobre o famoso jornalista? Ele seria mais um escritor que apenas sabe usar boas palavras? Quando esteve na cobertura de frontes jornalísticos do final do século passado conseguiu fazer bem seu trabalho como jornalista?

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    Publicado por Fabricio | 31 de março de 2018, 09:44
  2. A Vera é uma mulher incrível, mesmo. Nunca conheci alguém falar tanto palavrão com tamanha elegância e refinamento. Quando você pensa que ela vai elaborar um argumento profundo e sensato, ela profere um dos seus “cabeludos”, num contexto inesperado, mas absolutamente adequado. Impossível segurar a gargalhada quando ela deflagra uma de suas pérolas num tom de voz baixo e compassado, como se estivesse dizendo “eu te amo”. Vera, obrigada pelos almoços maravilhosos em sua casa. Desejo que você se restabeleça rapidamente para nos inspirar com sua alegria e autenticidade. Você está em minhas orações. Fica com Deus!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 31 de março de 2018, 10:00
  3. Não conheço a Vera Castro pessoalmente, mas acompanhei a sua história na imprensa paraense. Desejo-lhe rápida melhora.

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    Publicado por Jose Silva | 31 de março de 2018, 11:35
  4. Podias publicar as coisas impublicáveis à época, se o forem hoje.

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    Publicado por jjss555 | 31 de março de 2018, 13:33

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