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Cidades, Política

Belém pede socorro

O pior desafio em Belém – e uma aventura desgastante e perigosa, com risco de morte – é a circulação diária pela cidade. Insegurança física e emocional quase absoluta à parte, o que choca é o sofrimento para quem vai de um ponto a outro, perto ou distante, a pé ou de carro, em ônibus ou veículo particular.

O abuso e o absurdo quase igualaram o padecimento público. Semi-igualdade nivelada por baixo – logo, pior para o mais pobre, o que espera pelo ônibus em desabalada corrida, a queimar pontos,  em paradas, quando elas existem, raramente cobertas, sempre precárias, oferendas ao assalto e ao assassinato

As dificuldades naturais do sítio no qual a cidade foi erguida quatro séculos atrás seriam facilmente superadas se não houvesse um complicador: a incompetência das administrações públicas. Combinada com a passividade inacreditável da população, que parece sair da etapa da brutalização e insensibilização para a patologia do masoquismo. Sofre tanto que se viciou no sofrimento.

Em estado doentio no seu cotidiano, Belém foi ficando para trás no conjunto das capitais e grandes cidades do Brasil. Está no rabo da fila. Perdeu até o senso crítico – e mais: autocrítico. Olha-se no espelho e não vê sua nudez. Imagina-se ricamente vestida. Por isso, não se corrige.

Um exemplo recente e patético dessa síndrome. O governo construiu um viaduto, conectado ao maior campo de batalha do deficiente e mambembe sistema viário da região metropolitana de Belém, a avenida Augusto Montenegro. Na entrega do equipamento, descobre-se que a passagem sob o viaduto não possui a altura legal estabelecida pelo DNIT.

É preciso aprofundar as pistas. Quando elas foram inauguradas, um caminhão se entalou na estrutura e quase provoca um acidente grave. O serviço de rebaixamento vai demorar 90 dias. Significa aquecer ainda mais o fogo do inferno diário de quem vai e volta por ali e por todo perímetro de influência desse desastroso esquecimento, apesar de elementar. A presença da Semob, supostamente encarregada da mobilidade urbana, para orientar o trânsito, é bissexta, quando dá os ares da sua graça.

Quem é o autor do projeto? Quem, ao executá-lo, deixou de conferi-lo? Quem foi responsabilizado? Em quanto foi onerado o custo original do viaduto (em homenagem ao engenheiro José Augusto Affonso, com sua memória maculada pelo malfeito)? Quem vai responder por esse acréscimo devido à inépcia do autor? Por que o reparo não pode ser feito com menor prazo de tempo?

O tempo (como a verba) é o que menos interessa aos gestores da mobilidade urbana. O BRT é o mais escandaloso exemplo desse desprezo pelo dinheiro e a paciência do contribuinte e do povo em geral. Recursos dissipados, dilapidados, desviados. Obras executadas, como as estações da Almirante Barroso e o elefante branco na caótica São Braz, mas sem serventia. Desrespeito não só ao público, mas à racionalidade, à lógica, ao mínimo do interesse coletivo.

E o que dizer de obras que estão em uso h´pa muito tempo, mas continuam a desafiar a compreensão e a aceitação? Acessos a pistas pelos quais os carros não chegam a uma pista própria, tendo que estancar e prestar atenção ao fluxo antes de buscar um lugar para continuar seu caminho, como nos viadutos da Dr. Freitas (obra de Edmilson Rodrigues, então no PT) e o da Pedro Álvares Cabral com Júlio César, versão atualizada dos mesmos erros sob Ana Júlia Carepa?

E o túnel do Entroncamento, inundado a cada chuva mais forte, intransitável quando chega água do céu e da baía?

Pobre Belém. Quem a socorre?

Discussão

13 comentários sobre “Belém pede socorro

  1. Ninguém virá nos salvar. A incompetência é toda nossa. Em todos os sentidos.

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    Publicado por Edyr Augusto | 13 de abril de 2018, 14:38
  2. Por você não cita o nome do Zenaldo em relação ao BRT e ao viaduto anão? Depois não quer ser chamado de parcial.

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    Publicado por Jonathan | 13 de abril de 2018, 15:05
    • Leia-se por que.*

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      Publicado por Jonathan | 13 de abril de 2018, 15:05
    • Já citei tantas vezes o Zenaldo, como você poderá comprovar, se for reler posts sobre Belém, que uma eventual omissão pode ser creditada a um lapso, pecado venial na dogmática, não a uma proteção. Aliás, no primeiro número do Jornal Pessoal depois da posse dele, lhe enderecei uma carta aberta. Desde então, nunca deixei de falar dele como prefeito decepcionante. Basta um pouquinho de trabalho de leitura para comprovar, ao invés de fazer acusação sem fundamento.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de abril de 2018, 16:24
      • Só achei estranho a omissão dos nomes de Jatene e Zenaldo, enquanto os de Ana Júlia e Edmilson (que já saíram há muito tempo do governo) aparaceram. Enfim.

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        Publicado por Jonathan | 13 de abril de 2018, 18:07
      • Pois hoje o que não faltou foi nome de Zenaldo. E o artigo que você crítica só falou nos nomes dos dois porque realizaram as obras que critiquei. E também devo estar comprado por Duciomar, o autor do buraco a que dão o nome de túnel. Só que, para refrescar sua memória, venho denunciando o Duciomar desde sua usurpação como médico.
        Caros leitores, vamos fazer um acordo: podem me criticar à vontade (os comentários nem passam pelo meu controle; entram direto no blog), mas fundamentem as críticas. Dia desses um leitor lembrou matérias sobre a polícia que publiquei em 1975, no Bandeira 3, jornalzinho alternativo feito em equipe. Para saber isso, deve ter pesquisado. Pois pesquisem antes de me acusar de erros, falhas ou leniências injustamente. E lembremo-nos do ensinamento popular: é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de abril de 2018, 19:25
      • PS: Não lhe fiz acusação alguma. Apenas questionei um detalhe no seu texto que pode dar brecha a uma ideia de parcialidade. Mais uma vez: pare de querer colocar palavras na minha boca.

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        Publicado por Jonathan | 13 de abril de 2018, 18:16
      • apareceram*

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        Publicado por Jonathan | 13 de abril de 2018, 18:16
  3. Empresto uma metáfora de sua autoria para contextualizar meu comentário: “os belenenses estão estáticos como cracas”, claro que não generalizo, pois há entre os mesmos, indivíduos conscientes da opressão diuturna, mas por “espirito de sobrevivência” neutralizam sua contestação em respeito aos verdugos para não despertar reações psicológicas desnecessárias e evitarem de se tornarem mais um nos dados estatístico.

    A esperança ainda é possível, mesmo no cenário de caos deliberado.

    Como estão sendo arquitetados os cenários eleitorais que se avizinham, sem ser utópico, os eixos mais sensíveis à população precisam ser debatidos e entre os candidatos aos cargos do Senado e Assembléia Legislativa.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 13 de abril de 2018, 16:42
  4. Algo que não foi muito explorado pela imprensa foi a inundação de um canal em Marituba, que paralisou a BR sábado de manhã.

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    Publicado por jjss555 | 13 de abril de 2018, 18:47

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