//
você está lendo...
Cidades, Cultura

Censor confesso

Reproduzo os documentos a seguir porque eles ilustram amargamente a velha piada: o marido encontra a esposa em ato de infidelidade em pleno sofá da sala do sagrado lar de ambos – e joga fora o sofá. Ou, em comparação mais afeita ao tema: se a realidade incomoda, que seja abolida a realidade.

Pessoas que frequentam o Parque Shopping Belém “se sentiram incomodadas com a cena de violência no espaço, que é frequentado por crianças”. Parabéns aos pais zelosos, sem ironia. Eles são os responsáveis pela formação dos seus filhos e devem exercer ativamente essa responsabilidade.

Mas, ao invés de pedirem a retirada do desenho incômodo (e serem prontamente atendidos pela débil curadoria da exposição, que voltou atrás numa decisão tomada, a de incluir o tal desenho na mostra, ou então organizou a mostra sem a atenção devida), não poderiam aproveitar a situação imprevista para tratar do problema com seus filhos?

Por que censurar, ao invés de esclarecer? A psicologia já provou há tempos que o pior, na relação, é os adultos tratarem as crianças como débeis mentais.

O desenho censurado não é uma perversão ou uma anomalia. A violência da polícia é fato diário. Se é justa ou não, se está conforme a lei ou a viola – e, mesmo, está aquém do que deveria ser – tudo isso é tema candente, que existe, não foi inventado por uma mente doentia.

O artista que ousou se expressar, transformando em imagem o seu pensamento a respeito da questão, pode ser criticado e até repudiado. Só não pode ser amordaçado. Involuímos quando fazemos isso.

Admitindo-se que todos os Torquemadas agiram certo, então aproveite-se para aplicar o mesmo desvelo à proteção das crianças da periferia metropolitana. Elas não veem um trabalho artístico, como o que foi exibido no Parque Shopping, inclusive porque raras delas frequentam esse espaço segregacionista.

O que elas veem são atos cotidianos da mais brutal violência, que chega à própria morte – de desconhecidos, amigos ou parentes das crianças, ou delas mesmo. Quem ficou incomodado pelo desenho deveria dar uma olhada nas fotografias das sangrentos  páginas do noticiário policial da grande imprensa paraense.

Veriam crianças cercando cadáveres que tombaram ali, assassinados em conflitos ou sumariamente executados por grupos dos mais cruéis criminosos. De tão frequente, a cena se tornou banal. As crianças, quando captadas em imagem de televisão, apontam para as pessoas mortas, correm, gritam, brincam.

Não podem tirar o cadáver do local, como o marido traído faz com o sofá, nem pedir para uma curadoria relapsa, desligada dos seus deveres, tirar o desenho, desrespeitando o trabalho e a figura do seu criador.

O cuidado exagerado com as crianças estanca nos limites sagrados do shopping. Ir à periferia? Dar atenção a crianças pobres e sujas? Expor-se ao risco de sair das áreas protegidas? Nunca!

Os tutores da segurança pública acreditam que esse mundo promíscuo e inferior permanecerá segregado nos guetos periféricos. Iludem-se e nada sabem da história real.

A criminalidade, cuja reprodução, multiplicação e agravamento podiam ser estancados pela atenção às crianças, sujeitas a passar da posição de espectadores para a de participantes cada vez mais precoces, numerosos e agressivos no crime, já começam a agir nos shoppings,

Sua incolumidade está acabando, o que é ruim, mas é o custo coerente com a atitude dos que acreditam que acabam com a realidade ao impedir que ela seja refletida pela ótica de um artista. Bloqueia-se justamente aquele que vê mais longe – e mais profundamente.

NOTA PARQUE SHOPPING BELÉM
Diante da repercussão gerada pela retirada da obra da Exposição de Quadrinhos, o Parque Shopping esclarece que apenas cedeu o espaço em sistema de comodato para a montagem do evento. O Parque Shopping reafirma sua missão de incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas paraenses.

NOTA DA COORDENAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DE QUADRINHOS
A coordenação da Exposição de Quadrinhos esclarece que a decisão de retirar o desenho de Gidalti Moura Jr, ilustração que integra a obra intitulada “Castanha do Pará”, foi tomada em comum acordo com a curadoria do evento. Outra obra do mesmo autor será colocada na mostra.
A mudança ocorreu diante de manifestações de frequentadores do shopping que se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças.
A coordenação ressalta, ainda, que a atividade não foi criada pelo Parque Shopping, o empreendimento, apenas cedeu o espaço, gratuitamente, em sistema de comodato.

Discussão

5 comentários sobre “Censor confesso

  1. E a tal “mão invisível”, causa violência?!

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 17 de abril de 2018, 09:39
  2. Sinceramente, é tudo tão burro, cretino e estúpido que não dá para discutir. é preciso repudiar imediatamente, sem argumentações. Está difícil viver em Belém.

    Curtir

    Publicado por Edyr Augusto | 17 de abril de 2018, 13:52
  3. Li pela manhã esse assunto aqui blog, mas confesso que o tema não me chamou a devida atenção. Porém acabei de ler na Folha de São Paulo a mesma matéria e ver a imagem criada por Gidalti. Imediatamente me veio várias perguntas. Por que artistas não retratam o outro lado do cotidiano, policiais que são mortos como mosca aqui em Belém. Até que ponto Gidalti ganha com a exposição da sua obra nesse momento caótico da segurança pública do Pará? Até que ponto o Pará e sua capital ganham com a exposição dessa obra? A maioria da população se senti segura para ir visitar a obra? Se não retrato o todo da segurança pública, estou pelo menos ajudando melhorar a autoestima desses servidores? Criminalizar e Fragilizar ainda mais a imagem da PM frente a sociedade paraense é bom para quem? Gidalti faria um quadro com a mesma temática, mas tendo a PM como vítima? Pode não ter sido a intensão do autor da obra em criminalizar e fragilizar ainda mais a imagem da PM, mas o que está muito bem registrado na gravura é exatamente isso: o forte perseguindo o fraco; do opressor e do oprimido; do indefeso contra o poderoso.
    Assistimos estarrecidos o que aconteceu com a população quando a PM do Espírito Santo cruzou os braços. É fácil pichar e criticar a imagem da PM, difícil é fazer o serviço que os bons policiais fazem. O pouco de segurança que temos para fazer tudo o que fazemos, inclusive artes, é trabalho árduo da PM. Por que não honrar de forma justa os bons policiais? A polícia é mais digna de respeito ou de desprezo? Será que teríamos coragem e animo para ser um bom PM quando os mais afortunados dotes artísticos são usados como armas para quase que letalmente?
    No sábado li no diário que já chegamos a 19 policiais mortos de Janeiro até Março. Por qual razão o senso artístico da maioria esmagadora dos artistas não consegue ver esse lado da realidade? Eles não são humanos? Não são dignos? O trabalho deles não nos inspira as melhores ideias e ideais? Não estaríamos diante de um quadro de censura seletiva por parte dos sensíveis artistas? A imagem criada por Gidalti é sim uma cópia fiel da realidade. É aúnica? Também é verdade que a obra é sim depreciativa para combalida, pessimamente assalariada, terrivelmente equipada polícia militar do Pará. A gravura só mostra um pedaço da corporação policial.
    Ela tem o poder de tomar a parte ou momento podre da PM e passa-la como o todo. Ela é no mínimo inoportuna para esse momento trágico do aparato de segurança pública que vem enfrentando uma crise gravíssima, talvez a maior da sua recente história na democracia.
    A exposição dessa imagem nesse momento é altamente prejudicial para os bons policiais, eles ainda são a maioria. É bom lembrar que se direta ou indiretamente depreciamos um organismo tão importante como a PM, estamos a abrir mais ainda os flancos para bandidos e milicianos. O artista ganha em muitos sentidos com a exposição da sua obra aos olhos de certos indivíduos, principalmente em um momento como esse, mas quem mais perde é a sociedade que a cada dia fica mais fragilizada com deterioração da imagem daqueles que prestam um dos mais nobres e perigosos serviços ao cidadão, a polícia. Falta de sensibilidade ou discernimento para com a realidade da cidade onde moro pode ser um ato de censura. Ah! Acabei de ver mais um corpo, esse estava na frente do CIABA, aqui na Pratinha, vi os policiais com péssimas viaturas.
    Gostaria de me congratular com o artista, mas ficarei lhe devendo momentaneamente isso, espero fazer isso em um momento de maior segurança pública em nosso Estado. Não sei até que ponto o tema segurança pública faz alguma diferença para o Gidalti, mas para mim que tenho que existir aqui em Belém, faz toda diferença. Antes que eu me esqueça, amo artes, principalmente a pintura. Arte com sensibilidade, justiça social para todos, boa técnica, boa segurança para ir e vir é uma combinação fantástica.

    Curtir

    Publicado por Diniz | 18 de abril de 2018, 02:15
    • Pelo amor de Deus, pare de defecar pelos dedos.

      Curtir

      Publicado por Raimundo | 20 de abril de 2018, 14:07
      • Controle essa votande que você tem de falar besteira e procure se informar melhor. A imagem que foi censurada é parte de uma história em quadrinhos que tem a cena da fuga do menino. Não entendo o porquê do estardalhaço. Engraçado que reaças como você adoram reclamar do politicamente correto, mas se ofendem com qualquer coisa.

        Curtir

        Publicado por Raimundo | 20 de abril de 2018, 14:13

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: