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Cultura, Educação, Política

A universidade é a morada da inteligência?

Com alta dose de dedicação, generosidade e trabalho, um grupo de pessoas montou uma exposição de desenhos, caricaturas e ilustrações do Luiz Pinto, meu irmão e editor gráfico do Jornal Pessoal. Nossa colaboração remonta a 1971, 26 anos antes de 1987, quando o JP começou a sua carreira, que ainda persiste. A produção de Luiz é ainda mais antiga. A exposição é uma diminuta seleção de milhares de obras que ele criou em 50 anos.

Walter Pinto (Pinto ilustre de outro galinheiro), um dos curadores da mostra, foi ao cume da generosidade (sem, no entanto, se distanciar da verdade, na planície) ao ressaltar a importância da exposição. Ela surpreenderia e agradaria ao mais exigente público em qualquer lugar do mundo, garantiu o Walter, um raro e bom cartunista que se tornou raro e bom pesquisador acadêmico, caminhando agora para o doutorado.

Palavras bonitas de outro curador, Patrick Pardini, da administradora do espaço da exposição (cujo nome, infelizmente, neste momento esqueci) e da alma dessa iniciativa, a professora e socióloga Marly Silva.

Todos estávamos discretamente emocionados diante da preciosidade dos trabalhos do Luiz. Eles retratam com fidelidade e o toque do artista que se distingue no seu ofício o que têm sido o Pará, a Amazônia e o Brasil neste meio século, na síntese (e na propositura) sem igual da imagem. Que Estado ou mesmo país teria a oportunidade de dispor de um acervo desses, com traço de alta qualidade e densidade de ideia?

Cada uma daquela meia dúzia de pessoas reunidas em torno do Luiz faziam a sua festa interior, hoje de manhã, no campus do Guamá da UFPA. Estímulo externo nenhum para aquilo que dissemos, como se lançássemos sementes ao vento ou pregássemos ao deserto humano. Os estudantes passavam absortos, aéreos, sequestrados por seus celulares para um nirvana minimalista, etéreo e escapista, talvez fatal.

Mas tudo bem. Lembrei-me: pelo menos não enfrentamos a situação constrangedora que um professor e ex-reitor da Universidade Federal do Pará teve que superar. No dia 19 do mês passado, Alex Fiúza de Melo, convidado pela Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, fez a conferência de abertura do semestre letivo para os novos calouros.

O tema da exposição era convidativo: os desafios da universidade na Amazônia, na atual contemporaneidade. O auditório estava lotado. O currículo do conferencista era ilustrado e lustroso. A apresentação ficou à altura.

Mas antes que que Alex pudesse falar, um grupo de cerca de 20 estudantes, estrategicamente postados nos assentos traseiros do auditório, começaram a gritar palavras de ordem contra o palestrante. O motivo? Ele é”secretário do PSDB” (de ciência, tecnologia e educação profissional e tecnológica). definição que abriu caminho para outros impropério. Por vários minutos, a ovação retardou o início da conferência.

Agradecendo “à calorosa recepção”, o ex-reitor e doutor em ciência política pôde, finalmente, falar. Mal encerrou a conferência, o grupo voltou a gritar e gesticular contra ele, hostilizando-o enquanto Alex atravessava o corredor para sair do recinto.

Com meus companheiros, alguns tão velhos quanto eu, partilhei uma reflexão que parece estar se expandindo, embora em silêncio para a maioria dos que pensam nisso: parece que se perdeu o espaço do debate acadêmico, livre e plural, dentro da universidade, para a intolerância e o fundamentalismo ideológico.

Não se prestam contas nem ao povo, que fica com a conta do custeio desses indispensáveis centros do saber.

Discussão

17 comentários sobre “A universidade é a morada da inteligência?

  1. Lúcio,

    Este comportamento de falta de respeito com as pessoas por parte dos alunos da esquerda festiva não é novo. Sempre foi assim desde a década de 80. Ninguém poderia divergir porque era vaiado, criticado e ameaçado. Nunca houve espaço aberto para o debate inteligente no movimento estudantil. Você se lembra da invasão da reitoria quando o reitor era o Cristóvão?

    Às vezes o tiro sai pela culatra. Lembro-me de uma SBPC em Belém na qual o Lovejoy foi convidado a falar. Quando ele foi anunciado, a esquerda começou a vaiar e o líder deles arrancou o microfone e disse que era um absurdo um americano vir ao Brasil em uma conferência e falar ingles. Lovejoy, com toda a calma do mundo, disse boa tarde. A plateia morreu de rir e vaiou os membros da esquerda festiva, que saíram do prédio de cabeça abaixada diante do vexame. O Lovejoy continuou a sua palestra em um bom português.

    Em resumo. O que se vê hoje é resultado de anos e anos de cultivo cuidadoso das mentes e dos corações dos jovens universitários paroaras para transformá-los em cães raivosos quando enfrentam o contraditório.

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    Publicado por Jose Silva | 24 de abril de 2018, 20:19
  2. Gente que solta cobras e defende réu condenado por quinze Juízes de Direito faz qualquer coisa.

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    Publicado por Pescada Gó | 24 de abril de 2018, 20:52
  3. Pior! Esses alunos são cultivados e adestrados por “professores” da própria universidade, que mal estudam e pesquisam e que vivem para transformar o ambiente – que deveria ser acadêmico – em “campo de guerra” ideológico, manipulado por partidos de esquerda, que só pensam em retomar o poder no país, usando as universidades (como no passado) como trincheira. Não é ao acaso que você, Lúcio, por não rezar na cartilha, teve o tratamento que teve recentemente. E assim todos os que têm a coragem e a ética de discordar desses predadores da ética e do respeito intelectual.

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    Publicado por Julio | 25 de abril de 2018, 08:58
    • Dizem que o Curso de Economia da UFPA (particularmente a pós-graduação), hoje dirigido nada menos que por Claudio Puty (lembram-se?!!!), do grupo político da ex-Governadora Ana Júlia, está extremamente “seletivo”: só passa quem tem “carteira ideológica” de esquerda. A conferir…

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      Publicado por Yunes | 25 de abril de 2018, 09:02
      • A pós-graduação de Economia da UFPA não é dirigida por Cláudio Puty, mas por Ricardo dos Santos. A área de economia da UFPA, hoje, é mais plural do que nunca, desde o centro acadêmico que é dirigido por alunos que se autointitulam liberais (posição não muito frequente no passado acadêmico) e que promovem a diversidade de opiniões tanto de liberais quanto de esquerdistas, até a pós-graduação, que promove tanto pesquisas de fundamentos marxistas quanto pós-keynesianos e neoclássicos.

        http://www.ppge.propesp.ufpa.br/index.php/br/programa/coordenacao

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        Publicado por Ali | 27 de abril de 2018, 11:10
    • Obrigado, Júlio. A pergunta que fica é: por que estes professores não vêm ao debate público? Por que não saem da trincheira armada no campus? Por que não tentam impor aos seus pupilos um padrão técnico para os debates?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 25 de abril de 2018, 09:24
      • A resposta ê simples, Lúcio. Como eles não são cientistas, o universo acadêmico deles se restringe ao dogma. E como se sabe, dogma não se discute. Aceita-se ou não.

        O que o Brasil e as universidades precisam é de mais ciência de verdade, aquela que levanta hipóteses, coleta evidências e confronta as hipóteses e teorias com a realidade. Infelizmente nossos alunos universitários não são preparados para seguir os passos básicos do método científico. Por um lado porque nada é ensinado sobre o tema. Por outro lado, quando eles descobrem o método preferem não falar pois tem medo de serem tachados de positivistas pela mediocridade intelectual barulhenta que patrulha o interior das instituições de ensino superior.

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        Publicado por Jose Silva | 25 de abril de 2018, 10:00
      • Os professores marxistas deveriam pelo menos mandar seus alunos lerem Questão de Método, do Jean-Paul Sartre. Veriam que pensar exige o uso de categorias, conceitos e tipos num procedimento no qual o principal é testar hipóteses formuladas até que elas resistam a todos os questionamentos. E não ir para o confronto com a verdade sequestrada do catecismo e mantida como refém na algibeira.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 25 de abril de 2018, 11:17
  4. Caro Lucio,

    A Universidade de mão-única envergonha a inteligência.

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    Publicado por Deusdedith | 25 de abril de 2018, 10:09
  5. Concordo com o José Silva! è isso aí! Professores demagogos e despreparados, vis. Da mesma forma que a escola básica no Brasil afundou por conta do mesmo problema: os pedagogos ensinam as crianças e jovens “cidadania rebelde” e se esquecem (ou não sabem) alfabetizar. Resultado: “cidadãos críticos” semianalfabetos. Com essa turma, para onde levará a “revolução”???…

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    Publicado por Andrea | 25 de abril de 2018, 10:36
  6. Lucio, estive ontem na exposição do Luiz. Apreciando aquelas belas telas conseguimos acompanhar um pouco da história recente do Pará. Parabéns ao LuizPê pelo excelente trabalho e à professora Marly Silva pela iniciativa e pela organização do evento.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 25 de abril de 2018, 10:39
  7. nesta mesma universidade, um funcionário motorista de um dos ônibus responsáveis pelo transporte de estudantes e visitantes pelo seu campus, me interrompeu desrespeitosamente enquanto eu cantava no interior da condução, simplesmente ordenando que eu parasse de tocar alguns gêneros de nossas músicas brasileiras de raiz (assim mesmo, sempre no plural ao falar da cultura brasileira, apesar dos seus monstruosos inimigos), ao mesmo tempo em que o mesmo ouvia e impunha aos demais, uma sequência de tenobrega, forró de plástico e outras versões empobrecedoras de nossa música, e diante da minha recusa em não me calar, continuar cantando ao sol daquela manhã ainda fresca, o motora chamou a guarda patrimonial da ufpa, que chamou a polícia militar deste estado de coisas para me constranger, me expor ao despreparo-preconceito deles e delas, todos funcionários da mediocridade e da covardia diante de uma platéia passiva e cúmplice destas mesmas mediocridades e covardias, como um dos traços da nossa subcidadania,- e isto é só um dos exemplos de desinteligência e “universiotariedade” tão presentemente amiúde de que fui vitima ou testemunhei contra alguém neste campus à beira do maltratado guamá

    daquele dia, seu lúcio, o melhor que ficou (porque é o que compensa), é a certeza de que quando o ser humano é estimulado à ir além do instituído, do formalismo funcional seco, como se não fôssemos seres circunstancias, ele é capaz até de dançar dentro de um ônibus em movimento, como fez um casal ao som da minha viagem musical deseducadamente interrompida, para a honra e a glória da universidade federal do pará!

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    Publicado por felipe puxirum | 25 de abril de 2018, 20:34
  8. Gentes !

    Obrigada pelo reconhecimento do meu trabalho à frente do Projeto de Extensão Universitária , Confronto de Idéias . Espero que vcs visitem a Exposição, levem amigos/as , filhos,/as parentes …

    . A expô está no hall do Espaço De Ensino Mirante do Rio, no Campus Básico do Guamá até o dia 30 deste mês em horário comercial e até as 21 horas . Indo de dia aproveitem para , dos 3º e 4º. andares do prédio , desfrutar de uma agradabilíssima vista do Rio Guama .

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    Publicado por Marly Silva | 2 de maio de 2018, 14:44

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