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Polícia, Segurança pública, Violência

O ato da PM e o Brasil

Qualquer desdobramento que o caso venha a ter ou interpretações que suscite, como cidadão, aprovo, louvo e sou reconhecido ao ato da cabo da Polícia Militar de São Paulo, Kátia da Silva Sastre. Ficar ao lado dela, foi a reação imediata que tive ao ver a cena de sábado. Com todo barulho da controvérsia desencadeada desde então, nada me fez mudar meu juízo imediato.

Quando sou colocado diante de situações como essas, em que os protagonistas têm que dar respostas instantâneas a circunstâncias externas dramáticas ou trágicas, para ser honesto, me coloco na situação deles e me pergunto: como eu me comportaria?

Como simples testemunha da cena, eu abraçaria a cabo e lhe agradeceria. Se estivesse no lugar da militar, eu teria repetido exatamente o que ela fez. Mesmo que abalado pela violência do episódio, eu me sentiria aliviado pela certeza de haver cumprido o meu dever.

Como, então, condená-la?

A PM, em trajes civis, estava na porta da escola da filha, de sete anos, às oito horas da manhã de sábado, em Suzano, na periferia da capital paulista. Aguardava, junto com outras mães, a abertura do prédio para o início das comemorações pelo dia das mães.

Subitamente, um homem jovem investe, armado de revólver, contra o grupo de mulheres e crianças. Movimenta-se com agressividade. A policial, mesmo de folga, estava armada, como lhe autoriza a lei. Enquanto Elivelton Neves Moreira, de 21 anos, avançava na direção de um grupo, ela, em posição favorável, fora das vistas do agressor, precisava agir logo ou perderia o momento da reação

Avançou contra o homem, com extensos antecedentes criminais, e disparou três vezes com seu revólver. Acertou todos os tiros. Nenhuma bala resvalou. O homem caiu. A policial se aproximou com cautela. Não disparou mais. Não agrediu o ferido. Chutou a arma dele e se manteve no controle da situação até a chegada do socorro que solicitou.

Tecnicamente, a ação foi irreparável e irretocável. Houve certa impetuosidade e emoção na continuidade dos tiros? Ela podia ter ficado no primeiro e esperado a reação do bandido para atacá-lo de novo? Podia. Mas seria uma exposição arriscada a uma mudança na correlação de força e  nas posições no teatro de operações. Muito mais arriscado do que o que ela fez: atacar o criminoso a um ponto de saturação.

Não houve execução nem excesso. O componente de agressividade foi natural. Além de demonstrar ser uma policial bem adestrada e competente, aos 42 anos, Kátia agiu também como mulher e mãe. Sua eventual fúria, se houve, tem justeza bíblica.

Deveria ser lei a advertência – de aplicação geral e axiomática – de que quem ameaça a vida humana perde, a partir desse momento, as atenuações legais e se condena a todos os rigores que ela prevê, o máximo do rigor, o extremo da repressão sancionada pela sociedade. Só será possível combater a mortandade brutal, boçal e covarde no Brasil com essa diretriz, que a cabo da PM de São Paulo personificou no sábado, como modelo e exemplo.

Ela fez – e muito bem – a parte que lhe cabia. O resto fica por conta da sociedade brasileira.

Discussão

19 comentários sobre “O ato da PM e o Brasil

  1. Vi o vídeo, e fiquei curioso pra saber que arma ela usou. Várias pessoas me dizem que foi uma pistola. Tenho dúvidas. Ela tirou a arma da bolsa e já foi atirando. Com uma pistola não dá pra fazer isso, a menos que a arma esteja destravada. Será que ela estava com a pistola destravada dentro da bolsa? Acho que não. Afinal, ela estava acompanhando as filhas, crianças. Dificilmente uma mãe acompanharia crianças, portando uma pistola destravada.

    A meu pensar, ela atirou com um revólver. Talvez um 32. Se foi isso, estão mais do que justificados os dois primeiros tiros. O bandido já tinha disparado duas vezes: na primeira, não acertara ninguém; na segunda, a bala provavelmente era velha e fria. Não saiu. A policial não tinha como nem por que esperar o terceiro tiro. Ela sacou e alvejou o bandido duas vezes. Creio que foi com um revólver 32, porque, se fosse um calibre maior (pistola 9 mm ou revólver 38, p.ex.), haveria mais impacto, e o cara teria caído logo ao primeiro tiro. Em seguida, ela se protegeu junto ao carro vermelho, mantendo o bandido na mira. Ele tentou atirar nela, e ela deu o terceiro tiro. Foi aí que o cara soltou a arma e ela se aproximou. Chutou a arma dele, e a recolheu (foi aí que ela cometeu a única falha, acho: ela não usou lenço pra pegar a arma do bandido, e ainda a segurou pela coronha, borrando as digitais).

    É preciso ter muito equilíbrio e autocontrole, pra reagir à ameaça de um bandido armado e não descarregar a própria arma no indivíduo. A policial não fez isso. Fez apenas os disparos estritamente necessários para neutralizar o marginal. Em seguida, cuidou — com energia, mas sem excessos — para que o sujeito ficasse de bruços, com os braços estendidos, evitando assim que ele sacasse uma segunda arma, se fosse o caso.

    Ação policial de primeiríssima linha! Provavelmente o vídeo vai ser usado em treinamento de policiais, em todo o país.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 14 de maio de 2018, 22:41
    • Em todo mundo. Uma eficiência rara. Obrigado pelo enriquecimento na descrição mais detalhada. Precisamos louvar uma profissional com esse grau de qualificação e uma pessoa com esse senso de equilíbrio e determinação. Deveria ser promovida imediatamente por bravura.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 15 de maio de 2018, 08:55
  2. Tá certo

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    Publicado por José Luís Pontes | 14 de maio de 2018, 23:48
  3. Com certeza pistola, provavelmente Glock .40, de ação dupla (não precisa puxar o ferrolho para recarregar, salvo falha).Destravamento simples, sem nenhuma dificuldade. Dá para ver claramente destravando tão logo pega a pistola. Isso é muito rápido quando se treina.
    Jamais calibre 22, nunca usado pelas forças de segurança pelo baixo poder de neutralização. Depende ainda do tipo de munição. No caso, provavelmente do tipo encamisada ogival. Fosse ponta oca ou expansiva, alvejado no peito, provavelmente o meliante teria morte instantânea. Veja que foi logo com a mão ao peito, e deve ter ido a óbito por hemorragia interna, sendo que alvejado ainda por mais dois disparos sem neutralização total.
    Quem já treinou sabe que isso é rápido quando dá para antecipar os atos de reação, pegar, destravar, visar e atirar. Basta saber que vai ser assaltada, nunca quando já está sob mira sendo assaltada. A antecipação fez heroína. Ela não foi surpreendida. Um cidadão com treino poderia ter agindo da mesma forma.

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    Publicado por Romualdo | 15 de maio de 2018, 00:00
  4. Estes atos de bravura deveriam servir para promoção ao oficialato.

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    Publicado por Pedro Pinto | 15 de maio de 2018, 09:33
  5. Bravo, LFP!

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    Publicado por Paulo | 15 de maio de 2018, 09:48
  6. Salvo engano a policIal agiu EM ESTREITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL, logo conduta inimputável e papo encerrado. Ou então legítima defesa própria ou de terceiros!

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    Publicado por José de Arimatéia M. da Rocha | 15 de maio de 2018, 10:29
  7. …ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL ( CORREÇÃO).

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    Publicado por José de Arimatéia M. da Rocha | 15 de maio de 2018, 10:30
  8. Evidente que foi um ato de RE-ação, que talvez seria questionável conforme o sujeito da oração? Talvez na luta de classes?

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    Publicado por Luiz Mário. | 15 de maio de 2018, 10:44
  9. Belíssimo texto. Lúcido, coerente e preciso. Parabéns Kúcio, por tratar a questão como tratou, sem paixões e sem conotação ideológica. Irretocável !

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    Publicado por Albano Martins Jr. | 15 de maio de 2018, 11:52
  10. Só tem uma coisa me incomodando em todos esses comentários. Não vejo um protesto dos advogados do diabo contra a PM. Por que será que não apareceu até agora nenhum garantista para defender o bandido e condenar a cabo? Quando essas “crianças” ficam muito caladas…hum…
    Essa mulher foi um exemplo no instinto, na ação e no dever.

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    Publicado por Diniz | 15 de maio de 2018, 22:12
  11. Excelente texto. Concordo amplamente: “Só será possível combater a mortandade brutal, boçal e covarde no Brasil com essa diretriz, que a cabo da PM de São Paulo personificou no sábado, como modelo e exemplo”. O espírito de reação de toda mãe guerreira, sendo a heroína muitíssimo bem treinada e aplicada. Estrito cumprimento do dever e de auto-defesa.

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    Publicado por Amelia A. Oliveira | 16 de maio de 2018, 08:48
  12. Este é o comportamento esperado de uma servidora pública qualificada em qualquer país civilizado no mundo: proteger a sociedade daqueles que tentam violenta-lá. É uma pena, entretanto, que ela talvez seja um caso raro, dai o merecido reconhecimento público.

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    Publicado por Jose Silva | 17 de maio de 2018, 03:02

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  1. Pingback: O ato da PM e o Brasil | Grupo de Estudos Joaquim Nabuco - Ano V - 15 de maio de 2018

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