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Cultura

A última cesta de Nelson Maués

Felizmente, personagens orais da nossa história cotidiana, mais para as estórias de Guimarães Rosa do que para uma história engravatada, estão deixando de ser apenas orais: começam a escrever. Mais relevante ainda: escrevem sobre histórias que raramente têm passado da condição de estórias. Não sobre o futebol, a paixão nacional, mas sobre o basquetebol.

Como fez recentemente Nelson Maués com seu livro De Mosqueiro a Xangai, memórias contidas em crônicas ligeiras, que ele escreveu com a mesma leveza e agilidade do seu tempo de jogador de bola ao cesto, botando bola pra xuxú na cesta do adversário, graças aos seus então colossais 1,90 metro e à sua invejável pontaria.

Na metade dos anos 1960, Nelson era o ídolo e a meta de todo menino ou adolescente da Belém ainda provinciana que se interessasse pelo elegante esporte de quadra. Não eram poucos. Com meu 1,67, ousei passar dos campeonatos internos do Colégio do Carmo para a quadra (também de cimento, porém menos áspero) do Júlio César (sem nunca chegar ao piso de madeira nem à bola de borracha), sob o comando do “seu” Castro, guia de 11 em cada 10 moleques que queriam se arriscar no basketball.

E por que não? Vlamir era o nosso modelo nacional e Manolinho (do meu “tope”), versão minimalista do irmão(zão) Nelson, a referência local. Conseguíamos até invadir o garrafão e fazer uma bandeja (uma vez ou outra , é verdade), no meio dos gigantes de 1,75, a média da altura da rapaziada de Remo, Paissandu e Bancrévea.

É impossível excluir o basquete paraense desses anos dourados, durante os quais nossa classe média se expandiu, se urbanizou e, às vezes, se tornou cosmopolita. Nelson Maués, que foi ativo participante dessa história, conseguiu a façanha de dar a forma de livro a uma notável reunião de informações de época (em 254 páginas) num livro bonito, que dá prazer, alegria, alguma tristeza e muita melancolia.

Com esse livro,. Nelson fez mais uma cesta. A nós, cabe aplaudir – e recomendar aos interessados: corram atrás, antes que acabe o espetáculo, os refletores se apaguem e o que é história bonita vire silêncio e sombras.

Discussão

4 comentários sobre “A última cesta de Nelson Maués

  1. Lúcio, tive o prazer de trabalhar com o Nelson Maués, por uns cinco anos, quando tive uma experiência na Comunicação da extinta Codebar e ele era o chefe de gabinete do presidente João Ramos e, por extensão, meu chefe. Nessa convivência salutar fui testemunha que ele era também bom de cesta no trato e atenção com as pessoas. Já reservei meu livro para ter o prazer de fazer a leitura que você tão bem recomenda.

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    Publicado por Orly | 16 de maio de 2018, 08:39
  2. Caro Lúcio!
    Ontem mesmo li, com a imensa admiração e apreço que te tenho, o elogioso comentário que fizeste sobre o livro do nosso amigo, Nelson Maués. E fiquei comovido por ele, que é uma pessoa de indiscutível valor, ícone de dignidade da nossa geração, como também por conseguires voltar ao passado, à ” gostosa Belem de outrora”, para usar a expressão do poeta, De Campos Ribeiro, e de lá trazer, em retalhos da tua juventude, as saudosas recordações de um tempo feliz que há muito ficou para trás, mas que permanece grafado no coração de todos nós! Parabéns, Lúcio, com um afetuoso abraço!

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    Publicado por Carlos | 16 de maio de 2018, 12:23

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