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Política

Lula (9)

PT: a bandeira, o “laranja” levou

(Publicado no Jornal Pessoal 348, de junho de 2005. Permiti-me ressaltar em negrito os trechos que têm conexão mais direta com os tempos atuais,)

Antônio Delfim Netto cultivava um hobby muito liberal, ainda que não muito coerente com o seu temperamento: colecionar as charges que o tomavam por motivo. Por compra ou doação, as obtinha, emoldurava e pendurava em seu sofisticado escritório paulistano. Gordo, papudo, grandes óculos, Delfim é uma permanente fonte de inspiração para os caricaturistas. Algumas charges eram mordazes. Nem por isso ele deixava de recolhê-las.

Enfileiradas, as charges serviam de atestado de liberalismo para o homem que mandou no Brasil quando mandar era, literalmente, tudo poder, o legal e o ilegal, o admissível e o impossível. Todo-poderoso foi Delfim no longo mandato do general Garrastazu Médici (1969-74). Poderoso foi também antes e depois, sob o regime militar. Talvez nenhum chefe militar pôs mais e dispôs mais do que o mestre em economia da USP, a Universidade de São Paulo.

Mas Delfim Netto não emoldurou uma charge que Luís Trimano preparou para o jornal Opinião publicar em 1973, no auge do “milagre econômico” brasileiro. Delfim, o mago desse milagre, monstruosamente distorcido, só banha, óculos e orelhas, aparece no desenho sobraçando dinheiro enquanto a patuléia, faminta e ávida, se retorce na tentativa de conseguir pelo menos as sobras da bolada.

Era a alegoria do crescimento do bolo da riqueza, que só devia ser fatiado e distribuído ao povo quando chegasse a um tamanho monumental. A concentração de renda no Brasil se tornou recordista graças a esse modelo. A distribuição foi para as calendas gregas, onde Loredano foi buscar o ciclope míope para a sua charge arrasadora.

A ilustração compôs, com o texto de Marcos Gomes sobre o crescimento mais que proporcional (ao milagre econômico) da dívida externa, um raro momento em que o jornalismo falou tão alto, na denúncia dos erros do governo, quanto o próprio governo, na consumação do dano. Delfim bufou de raiva ao abrir a página do jornal com sua caricatura nauseabunda. Já nós, os jornalistas críticos, nos sentimos redimidos por aquela combinação de texto e imagem a serviço da verdade e contra os falsos milagreiros. Aquele grito de indignação jamais iria figurar na galeria particular do paulistano da Mooca.

Esse mesmo Delfim, agora representante parlamentar de São Paulo pelo PP, é chamado para conversas ao pé do ouvido no Palácio do Planalto com o outrora chamado “núcleo duro” do poder, montado em torno (e além-fosso) do presidente Lula. Além de dar dicas e semear as bases de um novo plano econômico, o ex-ministro do planejamento de Médici poderia até ocupar um dos ministérios no governo desnorteado do PT.

Dá para lembrar, com outro sentido, o quadro da televisão criado por Jô Soares para retratar o exilado político na época em que Delfim era o czar da economia e quem não rezasse pela cartilha do regime tinha que ir ajoelhar lá fora: “não querem que eu volte”, dizia o exilado (no caso, auto-exilado) de um orelhão de Paris.

Agora o bordão teria que sofrer a devida adaptação: não querem que eu acredite. O governo que se elegeu como porta-voz daquela massa de deserdados do milagre, a cercar o rotundo e rico Delfim com sua aparência famélica e seus instintos em esgotamento, agora ousa sair atrás dos conselhos do homem que melhor personificou o elemento mais abjeto desse modo de fazer crescer um país: impondo-lhe a maior concentração de renda dentre todos os países do planeta, com os juros mais extorsivos da Terra, oito vezes superiores aos praticados na nação mais poderosa, os Estados Unidos.

Um governo com essas características marcantes não pode estar sendo alvo de uma conspiração das elites, como alegam os integrantes do apparatchick petista, tão realistas quanto conseguia ser o realismo de Papá Stálin, concebido nos gabinetes fechados do Kremlin. Afora o “detalhe” de que o país está submergindo socialmente, a vida nunca esteve melhor para a terrível elite brasileira, se não lhe falta dinheiro para transformar sua residência em bunker, seus carros em blindados, seus empregados em capangas e uma ida a Nova York no equivalente a ir ali à esquina para a massa dos pobres mortais, mais mortais do que nunca, sobretudo por doenças que pareciam extintas e por causas não-naturais (balas, por exemplo).

Há um Brasil afluente, rico, alegre, leve, lindo e solto. Seu dinheiro vem da economia subterrânea, informal, clandestina (o que não falta é estoque de adjetivos para a sinonímia) ou dos negócios internacionais. Esse Brasil ou vende para o exterior, fatura em dólares, com todos os favores oficiais, ou então vai buscar seu rendimento em um cofre sem fundo, alimentado permanentemente por soturnos homens da mala, com conexões secretas que levam ao erário. É um Brasil para o qual a dezena de milhar é troco, ainda que não seja bicho.

Esse Brasil não quer o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva fora do trono, mas também não o quer em rememorações com um passado cronologicamente tão recente, mnemonicamente tão remoto. O líder operário foi seduzido e manipulado para ser o continuador do seu ex-correligionário e amigo, Fernando Henrique Cardoso. Por isso teve acesso a um formidável esquema de poder na eleição e por isso a faixa presidencial lhe foi passada sem trauma, depois da tensão anterior, que causou febres cambiais e distúrbios nas agências de classificação do risco-país.

Coerente com esse enredo, Lula tomou posse em emocionante festa popular. Vinha para mudar. No dia seguinte passou o bastão do poder de fato ao médico Antônio Palocci, que poucos sabiam quem era. Ele cuidaria do que interessava, a economia, enquanto o presidente fazia relações públicas internas e externas, em sessões de bonomia verbal e contorcionismo (anti)intelectual.

O PT, que nunca tentou ser PT no governo, se desnaturou, se promiscuiu. Vários dos seus integrantes baixaram ainda mais: prostituíram-se. Tinha que dar no que deu: o aliado Roberto Jefferson, figura triste da fase collorida, investindo-se no papel de anjo Gabriel, indicando o inferno para os querubins caídos em desgraça.

O varejo das denúncias, por ser triste, por ser melancólico, a tudo admite: verdades, mentiras, meias-verdades, meias-mentiras, algumas coisas ditas com lealdade, outras com desfaçatez cínica. Um dia, talvez, isso até passe, a um preço que hoje nem se pode calcular, tantos são os canais de vazamento que se abriram nessa geleia geral em que o Brasil se transformou (o criador da expressão, talvez surpreendido por sua eficácia, acabou engolido pela criatura, ministro do etéreo que se tornou, êmulo do supérfluo), nesse queijo imensamente furado que os vermes drenam.

Ao pipocar das cobranças e acusações, o PT responde com oníricas promessas de correção, que estão vindo, mas vêm tardiamente, sem muita convicção, e com delirantes reconstituições de conspirações e golpes. Há grupos que não toleram mais o governo do PT, dentre os quais aqueles que não o toleraram jamais. Mas, até onde se pode saber, nenhum grupo político se sente disposto ou em condições de dar o primeiro grito, conclamando às armas. Preferem – ainda – as urnas, de preferência as fraudadas.

Claro que sempre um estourado, como o general Olympio Mourão Filho, que colocou as tropas nas estradas mineiras em 31 de março de 1964, sem acerto prévio com nenhum dos conspiradores do eixo ESG/UDN, pode provocar o estouro da boiada. Uma vez estourada, porém, a boiada não terá para onde ir. A porteira, desta vez, está fechada. Ou por enquanto. Quem der o grito pode acabar ficando apenas com o grito, embora haja um certo grau de imponderável em qualquer história, mesmo a antecipada.

O que o PT devia ter feito, e já a partir da primeira semana de Lula desenxabido no Palácio do Planalto, no Alvorada ou no Torto (que nome!), era mandar apurar logo, escancarar o resultado e colocar para sambar, no tempo certo, aquele que tivesse descumprido o estatuto da gafieira, na versão de Billy Blanco. Mas as medidas foram sendo proteladas e agora, por melhores que sejam, soam a destempo, suspeitas.

Pior ainda são as pomposas autoproclamações de inocência, que se tornaram o mote monocórdio do presidente do partido, José Genoíno. Como se fosse o sentenciador de um processo jamais instaurado, ou, se inaugurado, que não teve como consequência o amplo contraditório necessário à demonstração da verdade, Genoíno se limita a dizer que a imoralidade não compõe a bandeira do PT.

O problema, entretanto, é outro: o PT é que já não tem bandeira. Talvez seu estandarte tenha sido esfarrapado por tanto mau uso. Talvez tenha sido vendido por um laranja qualquer, que não tem credenciais, mas anda em carro oficial, circula com desenvoltura pelo Palácio do Planalto e fala em nome do “ômi”, como se diz em linguagem de gafieira, a língua oficial nos bastidores do poder.

A esquerda tinha o monopólio da moral e da ética quando era oposição. No governo, ficou sem esse título. Uma longa tradição de “progressismo” gerou esse patrimônio, a partir do século XVIII, dilapidado num vapt-vupt. Agora, o PT precisa ir para as ruas, não para passeatas ou qualquer outra mobilização de massa, para cuja convocação já lhe falta autoridade e legitimidade, mas para enfrentar cada uma das acusações que lhe foram feitas. Não mais como o partido dos escolhidos, dos eleitos pela história.

Deve agir, a partir de agora, como um partido qualquer, provando sua verdade, desfazendo as mentiras, se ambas existem. Reconquistando o que perdeu exatamente por não ter utilizado, no governo, a diferença que o credenciava enquanto oposição. A história passou e o companheiro Lula não se deu conta dos apitos do trem. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, o pior é que Lula não tentou nem ser o novo com que se anunciou na campanha eleitoral. Dormiu Mr. Hyde no dia da vitória e acordou Dr. Jekyll na festa de posse. E só agora, indo ao espelho, descobriu no que se tornou. O sapo da alegoria safada da oposição era melhor.

Discussão

2 comentários sobre “Lula (9)

  1. E olha que o seu artigo foi de 2005. Então porque os petistas ficaram transtornados com você somente agora? Minha explicação é que eles estavam ocupados usufruindo do poder e não tinham tempo para reconhecer as críticas feitas.

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 17 de maio de 2018, 02:54

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