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Política

Lula (11)

Os riscos do futuro

e o enigma de Lula

(Artigo pu blicado no Jornal Pessoal 351, de agosto de 2005)

Quem compareceu ao “comício das reformas”, realizado no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, supôs que o presidente João Goulart estava mais forte do que nunca. Quem acompanhou sua incursão à assembleia geral dos marinheiros, na sede do Automóvel Clube do Rio, duas semanas depois, podia muito bem imaginar que Jango estava completamente perdido, ou então acreditava em duendes (como os do “dispositivo militar” do general Argemiro Assis Brasil). No dia seguinte o presidente começava a cair. Em 24 horas mais entregava os pontos e partia para o Uruguai, com escala em Porto Alegre. Só voltaria do auto exílio como cadáver.

Quem participou da “marcha dos 100 mil”, no centro do mesmo Rio de Janeiro, em maio de 1968, pensou que os estudantes realmente eram os novos parteiros da história. Nada mais tendo a perder, ao contrário dos operários, eles arriscariam tudo para colocar abaixo a ditadura, restabelecendo a democracia e, quem sabe, até podendo fazer chegar finalmente o socialismo ao solo do Brasil. Mas o dobre de finados teve outro autor, em 13 de dezembro daquele ano. Com a edição do AI-5, o que era uma ditadura envergonhada se assumiu por inteiro como tirania, no que viria a ser “os anos de chumbo”.

Os “sinais dos tempos” às vezes são fluidos, enganadores. Há novos sinais no ar, como nessas duas situações anteriores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por convicção própria e sugestão de seus “conselheiros”, parece desiludido da possibilidade de restabelecer, através de negociação política, um poder que, pelos mesmos instrumentos, tentara fortalecer ao máximo, simplesmente (e literalmente) comprando apoios. Sem uma “volta por cima”, sua presidência está moribunda. Poderia sobreviver até o final do mandato por estratégia dos seus inimigos.

Mas Lula não cede os pontos. Ele não quer só sobreviver. Pretende disputar um segundo mandato. Para isso, precisa preservar as fontes do seu carisma, que ainda lhe dão aprovação popular: ser considerado um homem honesto, simples, igual ao brasileiro comum, defensor dos pobres e humildes, que, apesar de tudo, está empenhado em transformar o Brasil num país mais justo, mais favorável aos necessitados.

O caminho da salvação seria colocar o povo nas ruas, mobilizar manifestações de massa em seu apoio, advertindo os golpistas, que sempre têm abrigo em gabinetes jurídicos e quartéis, de que o presidente é tão “pai dos pobres” quanto o foi Getúlio Vargas.

Getúlio, aliás, na última das situações adversas que enfrentou, preferiu não tentar mais uma de suas insuperáveis artimanhas. Não tinha mais energia para tanto, nem apoio popular, convém acrescentar. A uma iniciativa radical de resistência preferiu acertar as contas diretamente com a história – e se suicidou. Ao plano pelo qual optou nenhum dos seus inimigos tinha tutano para chegar. Eles desapareceram na poeira do tempo, mesmo os mais notáveis. Getúlio se imortalizou.

Lula não tem essa grandeza, mas ainda tem uma margem de apoio popular capaz de impressionar diante do mar de lama no qual chapinha no Planalto & arredores. Lidas em suas sutilezas e filigranas, porém, as pesquisas de opinião sugerem que essa resistente simpatia do povo para com o presidente eleito com 53 milhões de votos pode ter desfalecimento súbito. Existe hoje, pode evaporar amanhã. De que forma?

Em sã consciência, é muito difícil prever, tantas são as variáveis em jogo, sobretudo as subjetivas. As análises continuam a ser feitas nos segmentos mais ruidosos da população, os que aparecem e se fazem ouvir. Quando as ditas camadas C, D e E entram em jogo, percebe-se que são pouco conhecidas, praticamente uma incógnita.

Elas apoiam o presidente porque ignoram completamente os fatos. Quando deles tiverem notícia, mudarão de opinião. É o que dizem os analistas de algibeira, à base de um empirismo que dispensa a realidade, por mais que pareça paradoxal.

Essas pessoas, que têm tão pouco para sobreviver na guerra de todos os dias pela existência, estariam tendo esse pouco fornecido pelas estruturas clientelistas do governo, produtos criados tanto pela administração Lula como por ela herdados de políticas sociais anteriores. Renda, por menor que seja, está sendo paga pelo governo a dezenas e dezenas de milhares de famílias, que também têm acesso a algum tipo de alimentação e a um serviço de saúde um tanto mais eficiente.

Se chamadas a ir às ruas, mesmo que ao toque de ordem unida das manifestações “espontâneas”, com transporte gratuito e arregimentação corporativa, elas estariam dispostas a proteger o presidente-companheiro das rasteiras de uma elite predadora, insaciável. Em tese, provavelmente.

Tal elite, contudo, só fez crescer nos dois anos e meio da administração Lula, que a ela cada vez mais se assemelha. O presidente teria qualidades suficientes de coringa para partilhar o perfil de dono do jatão oficial e marmiteiro (que, a rigor, já nem mais existe, obrigado agora a comer as porcarias industriais de rua, que substituíram a comida caseira da mulherzinha, hoje também no batente, dessa forma se sujeitando ao teor de gordura que mascara a fome aberta com a fome funcional, à semelhança do que aconteceu com o analfabetismo)?

Esta é a grande dúvida. Claro que Lula não é Collor. Por isso não está sujeito a ver sua convocação de caras-pintadas se transmutar em ritual de morte, como aconteceu com o caçador de marajás das Alagoas. Mas não está muito longe das ilusões de João Goulart, 40 anos atrás. Por isso, precisaria ter uma análise bem realística da situação antes de mexer a próxima peça no jogo de xadrez, sujeito a chuvas e trovoadas, no qual a política brasileira se transformou.

Mas quem não se vexa de proclamar inocência absoluta, baseada na ignorância cega, está capacitado a ver o que vai pelo mundo, como se anunciava aquele telejornal cinematográfico de décadas atrás?

Shakespeare, se vivo fosse, bem que gostaria de criar uma peça com essa resposta para o drama (ou tragédia) à brasileira, que se avizinha grave.

Discussão

3 comentários sobre “Lula (11)

  1. De jornalista a oráculo, a matéria parece que foi uma visão, feita com base na capacidade lógica de raciocínio e conhecimento do autor.
    Ele estava liquidado, no conceito de seus oponentes, mas como um Pedro Malazar, partiu para suas enganações e fez as alianças que o manteriam no poder para atingir com seu poste, ou melhor, “posta”, a tragédia grega para o drama à brasileira, que se avizinhava grave e que poucos viram, como LFP.

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    Publicado por Jab Viana | 28 de maio de 2018, 19:20
  2. A sociologia da reeleição, chancelada pelo Habitual Financiador da Corrupção, revelou as apodrecidas entranhas da Casa-Grande que seus asseclas, com suas falidas retóricas, não conseguem escamotear…

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 29 de maio de 2018, 18:25

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