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Política

Lula (12)

Surge o primeiro-ministro

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 352, de setembro de 2005)

O médico paulista Antônio Palocci entrou como ministro da Fazenda e saiu como primeiro-ministro da entrevista coletiva que concedeu à imprensa, em Brasília, no dia 21 do mês passado. Se o ministro falou a verdade ao se defender das acusações feitas alguns dias antes pelo seu ex-secretário na prefeitura de Ribeirão Preto, em São Paulo, é uma questão. Ela só será respondida ao longo dos próximos dias, na prova dos nove.

De imediato, o aspecto principal do pronunciamento do Palocci foi o contraste que estabeleceu em relação ao comportamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente encolheu. Seu ministro esticou.

A aparição do ministro da Fazenda pode ter sido um competente golpe de marketing e nada mais do que isso, se o conteúdo do pronunciamento se revelar fraudulento. Mas se foi isso, o arranjo revelou-se muito melhor do que tudo o que até então a assessoria do governo federal fez por Lula. Apenas dois dias intermediaram entre a revelação das denúncias e a resposta dada a elas pelo ministro. Palocci não se limitou a fazer um pronunciamento à nação: colocou-se à disposição dos jornalistas para uma sabatina, ao vivo.

Se os inquiridores foram condescendentes ou se autolimitaram, já que são credenciados e podem temer retaliações (ou a perda de privilégios), o problema é deles, não do entrevistado, que topou enfrentar qualquer pergunta. À parte a deficiência de pronúncia, o desempenho do ministro foi convincente, mesmo se no futuro se mostrar um embuste.

E ainda que todas as restrições apresentadas pelos críticos do governo, do PT e do ministro possam ter procedência, quando classificam o espetáculo como uma armação arquitetada pelo Palácio do Planalto com a conivência (ou coautoria) dos grandes grupos econômicos, beneficiários da atual política econômica oficial, esse espetáculo foi incomparavelmente mais revelador do que tudo o que o suposto ator principal produzira até então.

De astro principal, Lula caiu para coadjuvante – e não dos melhores. Se Palocci se tornou um primeiro-ministro virtual, Lula se revelou, já sem qualquer disfarce, no que se tornou principalmente a partir de 2002: uma espécie de rainha da Inglaterra. Que nada sabe e nada faz, exceto, como antes, produzir bravatas de outro gênero. Bravatas já fora de época e fora de lugar.

O Lulinha paz & amor inventado pelo coringa Duda Mendonça teria honrado o operário Lula da Silva se tentasse colocar em prática tudo que pregou ao longo da mais extensa e mais profissionalizada carreira que um político brasileiro já teve em toda história republicana (27 anos sustentado por uma engrenagem de poder, sem precisar exercer outra profissão ou qualificar-se pessoalmente na luta pela sobrevivência).

Se Lula abriu mão de tudo que defendeu, entregando seu destino nas mãos de um feiticeiro de efeitos especiais – e, a partir daí, mudando conforme o script do marqueteiro, como preço a pagar para finalmente ser eleito presidente da república, depois de três tentativas fracassadas – então Lula caiu no canto da sereia na hora errada.

Mas se o que disse no passado era simplesmente falacioso, porque o autor das bravatas não acreditava no que dizia ou por saber que o que dizia não tinha condições de resistir a um teste de consistência elementar, então Lula sempre foi um embrião de mistificação – e a opinião pública levou tempo demais para se dar conta disso.

Ator de circo mambembe, a exibir-se em qualquer lugar do país que faça as vezes de picadeiro, a partir do desencadeamento da cascata de histórias de corrupção, formada dentro do próprio governo, o presidente foi ofuscado pela brilhante apresentação do auxiliar que lhe devia subordinação hierárquica e submissão hierática.

No entanto, a imagem de Palocci cresceu, ainda que possa não ter sido mais do que um truque de imagem. Os comentários posteriores do presidente, trôpego na lógica, na gramática e na fluência da expressão, despejaram Lula para alguma instância liliputiana do cenário nacional.

O governo Lula acabou. O que sobrevive é a engrenagem que pretende ter criado um oásis verdadeiro, uma miragem de verdade: a política econômica. Essa realpolitik está arruinando o país e corroendo suas entranhas, mas a fachada dessa construção perversa é deslumbrante, seus arremates são suntuosos, sua aparência é de saúde total (como a dos praticantes viciados de academias, cada vez mais sãos no corpo e mais esterilizados na mente).

Recordes após recordes são batidos em exportações, em saldos da balança comercial e do balanço de pagamentos, em superávits primários, em participação nos mercados de commodities, em rentabilidade e lucratividade. Mas o povo, como no nascedouro da república, a tudo assiste bestializado (e já não mais simbolicamente falando), com a deterioração da maioria dos indicadores que não integram as dependências dominadas por esses números sacralizados da venda das riquezas do país ao preço de ocasião.

O governo Lula, minado por sua incompetência, pelas más companhias e pelos hábitos viciados de sua cúpula de apparatchicks, é, hoje, só isso. Lula virou uma vírgula no écran brilhante do doutor Palocci, o produto final coerente da alquimia bastarda do artista Duda Mendonça, na versão que deu ao “médico e o monstro”, com o toque do azeite de dendê.

Se o pozinho mágico trazido dos laboratórios Disney ainda der resultado, o governo que já foi do PT prosseguirá com Palocci, deixando Lula cego pela poeira de astros que a nova carruagem do poder levantará sobre ele. Se o encanto se desfizer, as colunas de mármore da política econômica irão abaixo e o que emergirá dos escombros será a contrafação desfigurada dessa mise-en-scène que estamos assistindo, um país ainda mais injusto, iníquo, desigual.

O Brasil, definitivamente, já foi uma aposta melhor.

Diferença: Lula e Getúlio

Há, no meio da elite brasileira, quem queira tirar Lula da presidência, já? Certamente. A revista Veja parece estar nessa corrente. Mas a esmagadora maioria prefere que o presidente continue no cargo. Para uns, sua reeleição pode até ser boa. Para outros, o melhor é que ele não vá além do atual mandato.

Os segmentos mais poderosos da elite nunca ganharam tanto como agora. Mas não apenas os banqueiros constituem esse bloco dos privilegiados, diz a Folha de S. Paulo, reproduzindo pesquisa de mercado. A indústria também ganhou muito e até mais do que o setor financeiro.

Mas não a indústria como um todo, é preciso assinalar. É a indústria que exporta, que produz commodities, que avançou no vácuo da demanda chinesa. Um esplendor que pode se tornar subitamente efêmero, que não é “autossustentável”, como diz o jargão, O apoio desses industriais pode também ser fluido, momentâneo. Como as CPIs estão mostrando, esse dinheiro sai facilmente do país e não costuma voltar.

A política econômica do governo Lula, beneficiando mais a alguns do que a outros, não modificou as regras de um jogo voltado para as elites já há bastante tempo. Nada inovou nesse sentido. Apenas agregou um assistencialismo e um distributivismo compensatório, que atenua sem nada resolver.

Era muito diferente a situação que Getúlio Vargas enfrentava quando se suicidou. Na campanha eleitoral de 1950, Vargas lembrou como sua realização maior ter tirado o Brasil da secular e vexatória condição de devedor de países estrangeiros, fazendo-o gozar a sensação inédita de cobrar seus créditos da Inglaterra, França e Estados Unidos. Pretendia retomar essa trajetória quando a crise o levou à morte. Lula não frequenta esse caminho.

Discussão

4 comentários sobre “Lula (12)

  1. O Lula é uma bosta presa

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    Publicado por José Luís Pontes | 30 de maio de 2018, 21:03
  2. Na verdade, longe de se tornar primeiro-ministro, Palocci estava começando a deslizar em plano inclinado. Logo em seguida ele seria defenestrado, e substituído por Mantega.

    Jamais fui com a cara do Palocci. Sempre disse que a ausência dele preenchia uma enorme lacuna na equipe de governo. Infelizmente, minhas piores impressões a respeito desse traste estavam muito aquém do ele merece.

    As declarações de Palocci como dedo duro bem demonstram que o mau caratismo dele não tem limite. Em um dado momento, ele diz que exortou seus companheiros de governo a que parassem de roubar.

    Se é assim, por que esse vagabundo não seguiu, ele próprio, seus valiosos conselhos, parando de roubar? Por que esse rebotalho humano não cessou sua prática criminosa, e preferiu continuar enriquecendo com dinheiro surrupiado aos cofres públicos?

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 1 de junho de 2018, 00:11
    • Ele já tinha essas práticas quando coordenou a campanha do Lula e se ornou seu principal ministro. Só caiu porque forçou a Caixa a violar criminosamente a conta corrente do cidadão que denunciou as farras e gastanças do Palocci. Se não, teria continuado a ser a ponte do governo Lula com o mundo dos negócios.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de junho de 2018, 12:14
  3. Lúcio,
    Durante a ditadura de Getúlio Vargas, o Brasil foi obrigado a desenvolver uma política de substituição das importações, porque o comércio externo foi duramente afetado pela II GM. Terminada a guerra e a ditadura varguista, o governo Eurico Gaspar Dutra tratou de torrar as reservas até então acumuladas. Ao final do governo Dutra, o Brasil estava de volta à lona…

    Claro que boa parte do crescimento econômico ocorrido durante os dois mandatos de Lula se deveu às commodities, com tudo o que isso significa, em termos de instabilidade. De qualquer modo, também nesse período o Brasil se tornou credor externo.

    Além do mais, ao longo do governo Lula houve uma significativa melhoria na estrutura da despesa da União. Ao final do governo FHC, p.ex., a despesa com a dívida pública (amortização + serviço), representava perto de 60% da despesa total. Ao final do segundo mandato de Lula essa participação caíra pra 34%, aproximadamente. Isso não é pouca coisa! A esse respeito, aliás, Lula bem poderia dizer: “Nunca dantes…”.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 1 de junho de 2018, 12:07

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