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Saúde

Malária sempre

Fiz em 1966 a primeira vigem como repórter recém-contratado de A Província do Pará. Fui a Muaná, na ilha do Marajó, ver a malária, que atacara praticamente toda população do município.  Deste primeiro contato com a doença aprendi que, sendo endêmica numa região de floresta, a malária se torna epidêmica por culpa dos homens. Ora porque eles derrubam as matas  e tiram os mosquitos do seu habitat natural. Ora porque os responsáveis pela saúde pública negligenciam. Assim, ou a Amazônia perde seu bem mais nobre para eliminar a doença, nessa lógica perversa, ou sofre as consequências da insensibilidade geral.

Desde então, acompanhei as subidas e descidas da incidência de um problema constante, como agora, novamente no Marajó, em sete municípios da ilha que concentram quase 90% dos casos em todo Estado do Pará, campeão nacional na questão. Agora é a vez de toda população de Bagre estar contaminada. Quem é acometido pela malária sofre bastante e fica inutilizado para o trabalho.

O tratamento dos 20 mil casos registrados exigirá do governo, se ele conseguir atacar como deve o problema, 40 milhões de reais. Gastaria muito menos na prevenção, através de medidas educativas e atos de império sobre a administração municipal, ao que parece, a mais ineficiente na cadeia de comando.

O sinal de alerta acendeu em 2016, quando houve um ligeiro crescimento no número de casos, depois de uma redução a 6% dos 183 mil casos de 2010, depois de um investimento significativo, conforme os dados fornecidos ao Amazônia pelo diretor do departamento de controle de endemias da Secretaria de Saúde do Estado. Agora, só em Bagre já foram feitos mais registros do que os 15 mil de 2016.

É chocante.

Discussão

9 comentários sobre “Malária sempre

  1. Lúcio, o controle desta doença aguarda conquistas para um futuro próximo, que deverão chegar via biologia molecular avançada e engenharia genética, com expectativas de uma vacina. Para um pouco além deste prazo, o biólogo com cara de cientista louco, Dr.George Church, da universidade de Harvard, promete um mosquito transgênico novo, que solto na amazônia, se multiplicaria e transmitiria a sua descendência a característica de não ser capaz de participar da transmissão da doença. Enquanto isso o Dr. Church e sua equipe também trabalham num projeto para trazer de volta a este mundo, em partes, o extinto mamute lanoso da Sibéria, vítima não dos homens, mas de uma recombinação genética fatal. O bicho será remontado através de uma técnica novíssima, que viabiliza a transferência de milhares de sequências de genes do mamute para o DNA do elefante indiano, até que se tenha algo muito próximo do original, para que o Dr. Church o chame de “o meu mamute”. O problema, dizem os contrários, é que depois de criado, não vai haver lugar para o criador alojar a criatura neste planeta, já em pleno processo de aquecimento global; muito diferente do que era há 39.000 anos, quando o animal cedente do DNA viveu, pastando tranquilamente na tundra siberiana, sob um frio de 60 graus negativos quase o ano todo. Voltando à malária, aos mosquitos e ao Marajó, resta à SESPA intervir e evitar que se mantenha toda essa densidade de contaminação – a médio e longo prazo isso faz mal; porque induz modificações genéticas no mosquito, capazes de lhe conferir mais resistência aos medicamentos.

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    Publicado por J.Jorge | 10 de junho de 2018, 15:30
    • Obrigado pela aula.
      Lembo-me, anos atrás, de um casal de brasileiro de Manguinhos obrigado a emigrar para os Estados Unidos depois e 1964, que faziam pesquisa de ponta sobre malária, transferida para os EUA, onde foram acolhidos com a atenção e os meios adequados.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 10 de junho de 2018, 17:31
      • Lúcio, ao reler este texto após sua publicação, descobri um erro lá no final. As modificações genéticas não são no mosquito e sim no agente causador da doença. O texto não tem o propósito de dissertar sobre a doença em si; o foco são as alternativas emergentes de controle desta, que se alinham num novo horizonte que se abriu através do domínio de técnicas de manipulação genética.

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        Publicado por J.Jorge | 10 de junho de 2018, 21:25
  2. Um abandono vergonhoso.

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    Publicado por Marlyson | 10 de junho de 2018, 16:42
  3. Talvez este resumo de um trabalho científico ajude a entender as causas reais das altas incidências de malária em alguns municípios paraenses…

    A ocorrência de malária em quatro municípios do estado do Pará, de 1988 a 2005, e sua relação com o desmatamento

    Andressa Tavares PARENTE, Everaldo Barreiros de SOUZA, João Batista Miranda RIBEIRO

    Resumo
    O objetivo deste trabalho foi estudar a ocorrência de malária em quatro diferentes regiões representativas do estado do Pará, buscando suas possíveis relações com as taxas de desmatamento. Foi realizado um estudo retrospectivo, com dados secundários, no período de 1988 a 2005, através de casos de malária registrados em quatro municípios do Estado (Anajás, Itaituba, Santana do Araguaia e Viseu), como também das taxas de desmatamento fornecidas pelo PRODES-INPE. Aplicou-se a técnica dos Quantis para se estabelecer cinco categorias ou classes de incidência da malária para cada município, sendo gerado posteriormente um IPA representativo para o Estado. De 1988 até 1994, as curvas de incidência de malária acompanham os números de desmatamento. A partir de 1995, evidenciaram-se anos consecutivos com altos índices de ocorrência da doença logo após os períodos de altas taxas de desmatamento, como registrado nos anos de 1995, 2000 e 2004. Percebeu-se que após a época de intenso desmatamento, os casos de malária variaram entre alto e muito alto no seu padrão de incidência, apontando que o desmatamento pode ser um fator de incremento na frequência e aumento no número de pessoas infectadas no estado do Pará.

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    Publicado por Jose Silva | 10 de junho de 2018, 22:45
  4. Enquanto isso,o Paraguai se torna o 1º país das Américas a eliminar a Malária em seu território..
    https://www.theguardian.com/world/2018/jun/11/paraguay-declared-free-of-malaria-by-who

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    Publicado por Marlyson | 12 de junho de 2018, 10:13

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