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Segurança pública, Violência

A morte que nos ronda

Para usar uma frase antiga, que serve de mote para o cotidiano: viver em Belém se tornou perigoso demais. O simplesmente viver, como o que  Maria de Nazaré Borges Alcântara até o início da noite do último dia 7. Dirigindo seu carro, na companhia da sua secretária particular, Iranilma Prestes dos Reis, de 26 anos, ela saiu da sua casa, num condomínio fechado na avenida Augusto Montenegro, em Ananindeua. Parou pouco adiante, na mesma via, no supermercado Formosa.

Iranilma foi ao caixa eletrônico sacar o dinheiro da aposentadoria do pai de Nazaré, de 90 anos, que mora na mesma área. Dois homens, ambos jovens de 19 anos, que as observavam, atacaram-nas quando a secretária entrava no carro. Apossaram-se logo do dinheiro que ela carregava. Como queriam mais, planejaram levá-las a outros caixas para novas retiradas, num dos vários sequestros relâmpagos de todos os dias.

No caminho, porém, a funcionária se deu conta de que os dois agressores eram funcionários do supermercado, que ela frequentava bastante. Ingenuamente, admitiu a informação. Com suas identidades reveladas, os criminosos decidiram de imediato matar as duas mulheres. Como ocorre com assustadora frequência, a vida da vítima se tornou irrelevante diante do objetivo maior: se manterem incógnitos. O risco assumido deve valer a pena diante da fragilidade da punição pelo crime.

Levaram as duas mulheres para um local ermo na ilha do Outeiro e as mataram asfixiando-as com um cinto de roupa. Jogaram os corpos a alguns metros da caminhonete de Nazaré, que foi abandonada no local.

Com base nas imagens das câmeras do supermercado, a polícia identificou os dois agressores, que já têm antecedentes criminais. Prendeu um deles. O outro ainda está foragido. As duas vítimas foram enterradas ontem.

Fim da história? Não.

Marlisson Neves assumiu a autoria do crime, praticado com o seu comparsa, e o reconstituiu para a polícia, que assumiu a versão depois de investigações no local. Um ponto ainda é duvidoso. Os dois corpos permaneceram ao ar livre durante 48 horas. O lugar é isolado, mas é rota de passagem para os moradores. E há atividades por ali. O funcionamento de uma igreja impediu que os dois criminosos pilhassem as suas vítimas, carregando seus pertences de valor. Fugiram ao ouvir barulho próximo, temendo serem descobertos.

A descrição do ato diz que os corpos foram colocados em cova rasa. O mais provável, porém, é que os dois apenas tenham atirado a terra que Nazaré carregava na sua caminhonete para usar no seu jardim. Logo, a decomposição dos corpos deveria ter servido de alerta para quem tivesse passado pelo lugar. Os cadáveres só foram descobertos depois da prisão de Marlisson, no sábado, 9.

A reconstituição mais minuciosa e rigorosa dos fatos deverá esclarecer as dúvidas. Mais esse crime selvagem, por motivo fútil e torpe, mais do que tipificável como latrocínio, se caracteriza como homicídio qualificado, execução direta, que deveria ser punido com rigor muito maior do que o previsto pelo atual Código Penal, serve também como mais um alerta para a população de Belém.

Agora, em relação às dependências de estacionamentos de supermercados (e de shoppings). Os criminosos transformaram-nos em pontos de ataque. Quem frequenta esses locais deve aumentar a atenção e vigilância. Mas a tarefa principal é das empresas que realizam esse negócio. Elas têm não só reforçar a segurança como transferir os caixas eletrônicos dos estacionamentos, onde costumam ficar, para o interior das suas lojas, onde se supõe que esse tipo de ataque seja menos provável.

Ao menos até um novo crime bárbaro como este. Mais uma vez os homicidas deliberam, ao seu arbítrio absoluto, se devem matar ou não, privando completamente suas vítimas de qualquer direito. Para serem inibidos, o Estado também deve privá-los dos seus direitos quando se concedem o direito máximo numa sociedade: o poder sobre a vida alheia.

Discussão

13 comentários sobre “A morte que nos ronda

  1. Lúcio, você descreve muito bem as narrativas criminais urbanas. Me lembrou o também Latino-americano Roberto Bolaño, no seu livro 2666.

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    Publicado por Alberto | 11 de junho de 2018, 23:10
  2. O que vc dá para os jovens hoje, é o que eles trarão para a sociedade amanhã.

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    Publicado por Lucilio de Matos | 11 de junho de 2018, 23:50
  3. Lúcio, compartilho do seu horror por esta situação a qual todos nós estamos sujeitos. Gosto de ler o noticiário desses crimes (ao contrário da maioria da população) e procuro extrair muitas informações sobre cada caso. Ao contrário dos instrutores de seguranças, busco aprender coisas com pouco ou nenhum conteúdo didático em táticas de defesa.
    I.Altura, peso, vestuário, dentição e acessórios exibidos pelos meliantes de hoje são geralmente mais avantajados do que o daqueles perfis antigos de pivetes e trombadinhas dos anos 80s. Outro dia ri muito ao ver num desses noticiários o policial tentando agasalhar dois deles num camburão e não deu. Acho que não são poucos os que tiveram lar, uma razoável alimentação, usam roupa da moda e estão antenados com redes sociais e games.
    II. Todos sofrem um forte apelo consumista e apesar de jovens, não querem percorrer várias etapas até juntarem o necessário para dispor de um padrão de vida melhor. Isso é agravado com a má distribuição de renda no país e políticas salariais cada vez mais desvantajosas, que tornam difícil acreditar no sucesso pessoal através de uma vida inteiramente honesta. Concomitante com esse pessimismo, o mundo atual promete arremessos a longa distância no padrão de vida sem muito estudo ou trabalho, como o futebol, o rap ostentação, as igrejas neopentecostais, as pirâmides, os jogos de azar, sorteios, loterias, etc. O cenário é ainda mais exuberante nas novelas da TV.
    III. O pessimismo é tanto que milhões de jovens brasileiros já se conformaram em nem procurar estudo ou trabalho.
    O pior de tudo é que este problema gigante ainda é tratado pela sociedade e pelos governantes com soluções pontuais. Acho que nenhum dos presidenciáveis tem propostas concretas para encarar o problema, nem os candidatos a governador. O país em que vivem já não merece o respeito de ninguém; os políticos são os maiores bandidos; a justiça melhorou no sul mas ainda é lenta e corrupta no resto do país. O tráfico de armas e drogas, o PCC, o Comando Vermelho e as milícias estão se transformando numa alternativa de governo. Não é difícil supor que para um desses milhares de meliantes latrocidas o respeito a vida alheia seja um luxo desnecessário.

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    Publicado por J.Jorge | 12 de junho de 2018, 00:07
    • Sua análise revela a abordagem crítica que você faz de uma base de dados que os intelectuais costumam desprezar. Alguns dos especialistas em segurança pública não têm um conhecimento real e vívido da questão. Sabem o que a bibliografia lhes diz e um ou outro contato direto. A sociedade precisa muito do conhecimento analítico de fatos tão graves como os que presenciamos diariamente, mesmo pelo filtro deturpado ou viciado da imprensa. É um dos mais graves e menos conhecidos problemas da sociedade atual.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de junho de 2018, 07:24
  4. Essa é a “Geração Lula”.

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    Publicado por bernstil | 12 de junho de 2018, 08:02
  5. Lúcio,

    Você está indiretamente sugerindo a pena de morte para tais casos?

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    Publicado por Jose Silva | 12 de junho de 2018, 08:30
    • Não. Já escrevi tanto sobre o que sustento, mas vou repetir: o homicida deve receber a pena mais grave que pode haver (sugiro o mínimo de 50 anos de prisão) e cumpri-la integralmente, sem atenuante algum, sem progressão, e em cela isolada. O homicídio deve ser crime hediondo (e este, agravado ao máximo pela lei), ter prioridade no processamento pela justiça. Nenhum réu, preso em flagrante por homicídio, pode responder em liberdade ou ter qualquer outro tipo de punição que não seja a cela em regime fechado, em penitenciária de segurança máxima, em isolamento. A sociedade tem que punir – rapidamente e exemplarmente – todos os homicidas.
      Sou um chefe de família. Se alguém atentar contra ela dessa maneira, eu não mataria o criminoso, mas perseguiria a ele e ao poder público, para que este punisse o bandido com a pena seguinte à da execução: o confinamento definitivo, apartando-o para sempre do convívio social. Não vejo saída para a violência que transborda no Brasil, ameaçando afogar a sociedade, do que dessa maneira. Temos que impor ao candidato a homicida conter seu ímpeto e abolir a execução, a morte por motivo pueril, torpe, banal.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de junho de 2018, 09:56
      • É sempre bom repetir a sua posição sobre o assunto. Obrigado!

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        Publicado por Jose Silva | 12 de junho de 2018, 17:24
      • Lúcio, a coisa mais civilizada é não aceitar a violência e a morte; porque é aí que descobrimos que esperamos demais de uma organização criada justamente para garantir a nossa vida, a nossa saúde, o nosso crescimento, os nossos direitos, etc.Jesus Cristo não foi um pregador de civilização; embora tenha se deixado levar por ela em alguns momentos indispensáveis, como na infância humana. O medo que lhe assalta em relação a pessoas tão amáveis é também o meu medo; mas eu confio mais em Deus do que na civilização. Nem sei se existiremos por mais 40 anos. Os ateus cobram de Deus (para que creiam) uma civilização perfeita, quando provavelmente isto sim é que não exista.

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        Publicado por J.Jorge | 13 de junho de 2018, 05:45
      • No nosso caso, acho que o que nos falta é justamente um projeto de civilização.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de junho de 2018, 08:14
      • J.Jorge,

        Os ateus não cobram nada de Deus, pois para eles Deus não existe. Para os ateus é nossa obrigação, até como para garantir a nossa própria sobrevivência individual e coletiva, criar uma sociedade perfeita.

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        Publicado por Jose Silva | 13 de junho de 2018, 11:35

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