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Belém (5)

Uma cidade para ver (e viver)

(Artigo publicado em 2008)

O que mais impressiona o visitante atento do Brasil é o contraste que o país exibe. Por qualquer ângulo que seja olhado, esse país enorme e diverso, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 180 milhões de habitantes, deixa à mostra paradoxos brutais. Tem o 12º maior PIB do planeta e a sétima pior distribuição de renda.

Quarenta milhões de brasileiros saíram da faixa da pobreza absoluta não por partilhar os resultados da produção nacional, que é mandada em volumes crescentes para o exterior (a conta da exportação passou de 120 bilhões de dólares anuais), mas graças a um bônus do governo federal, o Bolsa Família, que nada tem a ver com produção, produtividade ou méritos pessoais (é uma espécie de indenização por ter filhos e mantê-los na escola).

Esse fundo, de 15 bilhões de reais (US$ 17 bilhões), é que garantiu a reeleição do presidente Lula e mantém sua popularidade, a despeito das explosões de tensão social, principalmente na sua forma de violência e criminalidade. O ex-líder operário não eliminou os contrastes (ao contrário da retórica, até os aprofundou), mas conseguiu se apossar do título de “pai dos pobres”, galardão desejado pela maioria dos políticos, conquistado meio século atrás pelo maior dos líderes populistas do Brasil, Getúlio Vargas. Uma versão depravada de Robin Hood, a cobrar uma taxa de serviço dos ricos para mantê-los protegidos dos pobres.

Belém do Pará, escolhida para sediar a nova versão do Fórum Social Mundial em 2009, é também um exemplo acabado desse padrão de contrastes. Os visitantes desembarcarão num aeroporto novo, que guarda alguma – ainda que vaga – semelhança com o terminal aéreo de Barcelona, mas para chegarem aos seus hotéis atravessarão enormes manchas de áreas sujas, precárias, insalubres, pobres.

São as “baixadas”, terras situadas abaixo da cota quatro do nível do mar, constantemente sujeitas a inundações pela ação da chuva (que cai quase o ano inteiro) e da maré (que pode variar até seis metros). O sítio pantanoso e plano fez da drenagem o problema físico principal e a maior fonte de incompreensões dessa cidade de 2 milhões de habitantes no seu perímetro metropolitano, capital de um Estado que tem o tamanho da conturbada Colômbia (1.2 milhão de km2, ou 15% do território brasileiro) e 7 milhões de habitantes. Ela era a incontestável “metrópole da Amazônia”, próxima de completar 400 anos de fundação, até dividir a liderança na última década com Manaus, hoje a capital da metade ocidental da região.

No século 18 um técnico estrangeiro chegou a conceber um plano para adequar a cidade a esse terreno deprimido e permitir que os cursos d’água cruzassem-na, como uma Veneza tropical. Mas logo partiu de cima a ordem: era preciso aterrar o mais que se pudesse. Seus moradores queriam se livrar dos efeitos da insalubridade e do estigma de atraso associado à paisagem natural, de trópicos condenados ao subdesenvolvimento.

Desde então, o aterro tem sido a moeda de troca nas relações entre os poderosos e os seus clientes. Os primeiros promovem a substituição das “baixadas” e os segundos lhes devolvem a gentileza na forma de votos, recolhidos em autênticos “currais”, dominados por “cabos eleitorais”, espécie de feitores da política.

Mas a incorporação de novas áreas à textura urbana tem sido à custa da expulsão do ocupante antigo, enxotado para a periferia, que incha como um tecido canceroso. Os participantes do Fórum Mundial verão os arranha-céus em competição pela altura e a bloquear os ventos oceânicos, que antes faziam o ajuste da temperatura, soprando sobre todo o cenário e minorando os efeitos da umidade combinada com o calor.

Prédios surgem às dezenas em terrenos antes deprimidos – fisicamente e socialmente. Duas dessas torres de concreto e vidro chegaram agora aos 40 andares, recorde no Norte e Nordeste. Quem pode pagar por um dos metros quadrados mais caros do Brasil, injustificadamente caros, parece procurar o topo para se isolar da miséria circundante.

Não sem motivo. Belém ostenta a maior favela horizontal do país, com quase 100 mil habitantes. Os subúrbios são formados por linhas de passagem impropriamente batizadas de ruas, que dão acesso a casas precárias, sem serviços básicos, sem lazer e sem trabalho. Alto consumo alcoólico, drogas, ócio e selvageria tornam sangrento o cotidiano, principalmente nos fins de semana, de que dão mostras 12 páginas diárias de cobertura policial sem qualquer pudor nos três jornais diários, outro recorde indesejado da cidade.

Quem circular por lugares como Cidade Nova, Benguí ou Jaderlândia poderá fazer associação de imagens com Bagdá ou Calcutá, em estado de guerra, aberta ou não declarada. De cada três habitantes em idade de trabalhar em Belém, apenas um tem emprego. Os outros vivem de serviços ocasionais ou na economia clandestina. A clandestinidade pode significar que ele é um vendedor ambulante, a transgredir suavemente as leis para exercer a sua função, ou atua diretamente no crime, até mesmo como pistoleiro de aluguel em ações de extermínio já tornadas rotineiras.

Ao lado de Belém, uma cidade de 80 mil habitantes, Abaetetuba, é considerada a Calli da Amazônia, por ser um ponto de referência importante na rota do tráfico de drogas, inclusive internacional. No ano passado, Abaetetuba foi notícia no mundo inteiro: em sua cadeia pública, uma jovem de 15 anos foi presa (por tentativa de furto) e obrigada a dividir a cela com 20 homens, durante um mês. Nesse período, foi estuprada e seviciada várias vezes. Nenhuma autoridade se apercebeu do fato até ele ser revelado por cidadãos comuns. Quando o escândalo estourou, providências foram anunciadas, mas ainda tardam. A vítima recebeu auxílio financeiro para se esconder.

A cidade parece estar passando por um estado generalizado de insensibilização. Nada mais choca. Nem há esperança de que a situação possa mudar em substância. Nunca mais foi apresentado um plano de mudança consistente e ousado, como o da Veneza tropical (que Recife, a capital do Nordeste, incorporou ao menos parcialmente, com seus canais e pontes espalhados por toda cidade).

A ocupação do poder tem sido pendular: quando um grupo sobe, o outro desce. A polarização bloqueia o diálogo e a troca de ideias: as elites se desgastam combatendo-se mutuamente com ferocidade, enquanto a participação popular é apenas um instrumento para essa recomposição do mando entre os mesmos grupos. O resultado é a falta de continuidade, o desperdício de recursos, o descompasso entre o tempo histórico real e a concepção que dele têm os que realmente manipulam os cordões decisórios.

Despejada do terceiro lugar que ocupava no ranking das metrópoles brasileiras com a crise da borracha amazônica (desbancada da hegemonia mundial pelo produto asiático muito mais barato e abundante), na segunda década do século passado, Belém tentou um futuro na industrialização. Mas quando estradas foram abertas para finalmente integrar a Amazônia ao Brasil, quatro décadas depois o parque fabril belenense foi à bancarrota: sustentadas no isolamento físico do Estado em relação ao restante do país, distância que funcionava como autêntica barreira alfandegária, as indústrias locais não tiveram condições de competir com os produtos que chegavam do sul por via rodoviária. A ilusão de uma cidade industrial chegou ao fim. O que era um distrito industrial se transformou em cemitério de indústrias, que nunca mais renasceram.

Mais de dois terços da economia urbana dependem de serviços e do governo. Barcarena, vizinho a Abaetetuba, é hoje o município com maior PIB per capita do Estado, muito superior ao da capital. Seu distrito industrial abriga a maior fábrica de alumina do mundo, duas das maiores usinas de alumina e a oitava maior metalúrgica de alumínio. Estão em curso projetos desse porte, numa associação da Companhia Vale do Rio Doce (segunda mineradora mundial) com grupos estrangeiros, todos voltados para a exportação.

Com um rico subsolo, o Pará é um minerador em escala planetária, principalmente de ferro, bauxita, alumina e alumínio – e, logo, também de cobre e níquel. Tem a quarta maior hidrelétrica do mundo, a de Tucuruí, que o tornou o terceiro maior exportador de energia bruta do país. É o sexto maior exportador e o terceiro em saldo de divisas. De cada 10 dólares que o Brasil recebe por suas exportações, 1 dólar sai do Pará.

Belém recolhe as migalhas dessas riquezas, a atividade que restou a um Estado impedido de cobrar imposto das empresas que exportam matérias primas e insumos básicos extraídos do seu território. Sendo o segundo em território e o nono em população, é o 16º em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o 23º em PIB per capita, só à frente dos quatro Estados nordestinos mais pobres do Brasil.

Essa imposição colonial obriga a elite mais sofisticada da cidade a tapar o nariz à chegada ao porto de grandes navios, que embarcam milhares de bois em pé com destino à Venezuela e ao Líbano. Desse boi só fica o grito e o mau cheiro: o chifre e o couro, além da carne, serão beneficiados pelo comprador. Mas Belém já não exerce o controle administrativo do Estado. Perdeu os mecanismos de ação, o que estimula movimentos separatistas a oeste e ao sul, de municípios que querem se agrupar para formar dos novos Estados, exigindo do atual Pará que acomode 60% da sua população em 20% da sua área, e justamente a com menos riquezas remanescentes e mais desmatamento.

Não surpreende que quantitativos grandiosos convivam com qualitativos trágicos num espaço tão concentrado. Os contrastes são visíveis a olho nu e Belém não os desconhece, mas parece se sentir impotente para mudar um destino que está escrito nas estrelas, tendo que apenas ouvi-las, como dizia um grande poeta brasileiro, muito dado às grandezas quantitativas. O que a ainda bela e característica capital dos paraenses pode esperar dos milhares de visitantes que para ela serão atraídos no próximo ano pelo Fórum Social Mundial é que não sejam tão apressados, nem tão superficiais nas suas observações. E se disponham a partilhar o seu saber (e o querer fazer) com a cidade.

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