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Cultura, Política

Lula (15)

O caipira e a preconceituosa

(Lembro a quem não acompanha esta série, a razão de criá-la. Alguns dos meus críticos petistas me acusam de ter virado a casaca, passando da esquerda para a direita. Por causa dessa mutação, teria começado a perseguir Lula e o PT. A única coisa que me salvaria da condenação eterna reservada aos reacionários seria a cobertura da Amazônia. Por isso, tenho reproduzido artigos que escrevi a partir da campanha de 2002 que levou Lula à presidência da república pela primeira vez. O artigo de hoje saiu no Jornal Pessoal 326, de junho de 2004. Por um acidente, defende Lula. Acidente de percurso.)

Já se foi o tempo em que eu gostava de festas juninas. Elas se foram da minha preferência não por representarem um Brasil caipira, que precisa ser enterrado pelo Brasil moderno, ou pós-moderno. Também não gosto mais de carnaval e nem por isso está em causa dentro de mim o arcaico versus o atualizado, uma luta entre o mau gosto e o refinamento.

Assim, não me causou nenhuma estranheza que o presidente Lula tenha decidido (se é mesmo que foi ele que decidiu) convocar uma festa de arraial para comemorar os 30 anos de casado, na Granja do Torto, em Brasília (esse Torto bem que podia inspirar um novo livro de Haroldo Maranhão). O que me provocou urticária não foi o São João de Lula como símbolo do lado ingênuo, primitivo e sem glamour deste imenso Brasil, mas as interferências maneiristas de algum marqueteiro, que transformou uma festa bem nossa num angu danado, de caroço.

Por que o convite aos 120 privilegiados (embora nem tanto: quase um terço deles faltou, inclusive o candidato potencial a chefe de quadrilha – junina, claro – o ministro da Casa Civil, José Dirceu) tinha que lhes impor o traje a caráter? Por que os casais tinham que ir dirigindo os seus próprios carros? Por que levar comida de casa (e por que não acrescentar as bebidas, estas – sintomaticamente ou não – fornecidas pelo governo)?

Por que a imprensa não teve acesso ao arraial improvisado? Por que dar às bodas de pérolas do primeiro casal da república um ar de convescote privado dentro da Cidade Proibida, como se Lula tivesse incorporado o verdadeiro Mao, do qual apenas recentemente ficamos conhecendo a verdadeira face?

O Brasil up-to-date manifestou seu horror ao espetáculo de cafonice pelas mãos de Danuza Leão, que escreveu um artigo arrasador sobre os atentados cometidos à etiqueta e às boas maneiras pelo casal petista e sua troupe junina. Mas Danuza só tem razão a partir de uma premissa: a de que suas opiniões não são puro preconceito.

No entanto, ela destilou um preconceito burro (redundância). Podia ser preconceito sensorial e, nesse caso, não cabia interferir nos instintos de Danuza. Mas ela quis conferir legitimidade intelectual ao seu cometimento e por isso foi buscar inspiração em Monteiro Lobato, como se o conhecesse de fato.

Segundo Danuza, o arraial da Granja do Torto transmitia ao mundo a imagem do Brasil como um país de jecas tatus, de caipiras, de ignorantes. Talvez porque de Monteiro Lobato Danuza saiba o que ouviu dizer, sua observação é um desrespeito ao conceito que o escritor paulista foi estabelecendo ao longo do tempo, desde a primeira visão, rústica, até a constatação, mais elaborada, da alta maturidade, quando combinou sua atividade intelectual com a de empresário e líder de campanhas.

Monteiro Lobato percebeu que o homem passivo com o qual convivia no interior de São Paulo era produto não de uma eugenia às avessas, de uma fatalidade genética ruinosa, mas das condições sociais de vida. Da condenação ao atraso evoluiu para o combate às causas do atraso.

Danuza, que não deve ter lido o primeiro Lobato, sobre o qual ditou regras, provavelmente leu o dobro disso do Lobato da maturidade, para ela um ilustre desconhecido. Seu juízo categórico e desinformado atesta a vacuidade e a leviandade de algumas das nossas ditas melhores elites. Gente maravilhosa, desde que não trate de Brasil.

Felizmente, algumas realimentam a confiança no Brasil. Como um certo Euclides da Cunha. Ele foi “cobrir”para o jornal O Estado de S.Paulo o cerco a Canudos, no sertão baiano, com parte das ideias que Lobato tinha sobre os jecas tatus das vizinhanças da sua fazenda, em Taubaté. No caminho entre Salvador e Monte Santo, Euclides reviu e refez tudo, não com base em releituras ou quetais, mas por puro instinto. O puro instinto que distingue o verdadeiro gênio, como Euclides, do grande intelectual, como Monteiro Lobato. E de uma mulher linda, como Danuza.

Ainda bem que sobre eles a bela Danuza Leão não destilou seus preconceitos de pobre instinto.

Discussão

2 comentários sobre “Lula (15)

  1. Para quem quiser aprender mais sobre o preço do bifinho nosso de cada dia:

    https://www.videocamp.com/pt/movies/sob-a-pata-do-boi

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 12 de junho de 2018, 11:04
  2. Nada como um excelente pupilo a revelar os conhecimentos do mestre…

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário | 12 de junho de 2018, 18:59

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