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Imprensa, Política

Lula (16)

Liberdade: a essência

do melhor jornalismo

(Publicado no Jornal Pessoal 327, de agosto de 200$

Sou contra o monopólio do exercício do jornalismo pelos detentores de diploma do curso de comunicação social. Pelos mesmos motivos, sou contra o projeto que institui o Conselho Federal de Jornalismo, inspiração da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), apadrinhada pelo governo Lula.

Não se pode igualar a profissão de jornalista à de médico ou engenheiro. Há um forte componente vocacional na aptidão para o jornalismo. Algumas pessoas nascem para o jornalismo quando entram na vida consciente. Têm dons aparentemente inatos que são fundamentais para o bom jornalista: curiosidade ilimitada, memória aguçada, gosto pela leitura, escrita clara e fluente. Mas não gostam de academias. Preferem aprender na vida. Não podem ser obrigadas a aprender o que já sabem, ou a saber o que já fazem. Como aproveitá-las se só podem exercer o jornalismo se forem graduados no curso superior de comunicação social?

Enquanto a matéria de engenheiros e médicos é exata e vidas podem depender do que fizerem, os jornalistas lidam com uma matéria prima frequentemente imaterial, subjetiva, suscetível a distintas (e até antagônicas) abordagens. Jornalismo, definitivamente, não é ciência exata, embora deva ser delimitada pela busca da exatidão, do rigor, da objetividade (que nada tem a ver com neutralidade, que inexiste).

Dou de troco que o jornalista precise ter curso superior. Mas qualquer um. Pode ser até de física. Dois excelentes jornalistas, dentre outros, deveriam ter sido físicos: Raimundo Rodrigues Pereira e Bernardo Kucinski. Felizmente, para o jornalismo, eles foram expurgados de seus cursos originais pelos Torquemadas pós-64. Ao ancorarem na redação de Veja, em 1968, introduziram o rigor das ciências exatas num ambiente marcado pela imprecisão. Se tivessem demorado mais dois ou três anos, encontrariam a porta fechada. Teriam que desviar para a comunicação social. O jornalismo teria perdido muito.

Na mais famosa dupla do jornalismo em todos os tempos, formada por Bob Woodward e Carl Bernstein, que contribuiu decisivamente (nas páginas do Washington Post) para submeter Richard Nixon ao primeiro processo de impeachment proposto contra um presidente dos Estados Unidos, um tinha diploma; o outro, não.

Dentre todos os países que têm imprensa, na verdadeira acepção da palavra (nenhum é do “socialismo real”), apenas o Brasil aplica o monopólio do diploma de comunicação social. A novidade foi introduzida no país (e no planeta) no mais negro período da história republicana nacional, em 1969, quando a Junta Militar esquentava a cadeira presidencial para o general Garrastazu Médici, depois do afastamento e morte do general Costa e Silva. Essa junta governativa feroz queria uma imprensa livre, autônoma e crítica?

Jovens que se iludem, achando que o diploma é passaporte para o verdadeiro jornalismo, pensam que podem descartar o entulho autoritário e dar bom uso ao mecanismo técnico, formal, que regulamentou a profissão. Então por que o mundo não se curvou a mais esse “jeitinho” brasileiro? Por que o recrutamento de jornalistas nos países líderes da imprensa mundial continua aberto?

E por que uma parcela (50% nos Estados Unidos) continua a vir de outras origens que não dos cursos de jornalismo (formação diferente da do comunicador social), que existem e funcionam – bem ou mal – nesses países, sem que seus docentes e discentes julguem necessário (muito menos indispensável) a reserva de mercado do diploma?

É incrível a força do corporativismo, também no jornalismo. Essa força cega os alunos, os professores e os profissionais egressos desses cursos para a evidência ululante de que o Brasil é que está na contramão da melhor qualificação e recrutamento de jornalistas – e não o mundo todo. Essa visão sindical, autárquica, derivada do aparelho de Estado (se não diretamente, ao menos por emulação ou desejo), está por trás desse Conselho Federal de Jornalismo, que a Fenaj fecundou e o governo Lula pretende (ou pretendeu) dar à luz. Mesmo que a intenção seja das melhores, ela vai levar ao inferno da censura, à miséria da perseguição corporativa, à mesquinhez dos interesses grupais ou pessoais.

É evidente que a informação está cada vez mais sob o controle de grupos restritos, que a liberdade de informação serve a interesses inconfessáveis, que o jornalista é explorado – e várias outras mazelas. Mas esse remédio do Conselho matará o paciente, não agora, claro, mas daqui a pouco. Tentou-se algo parecido no governo nacionalista do general Velasco Alvarado, no Peru, e, depois, esteve na mira de aliados à esquerda do presidente Salvador Allende, no Chile. Nos dois casos, pude testemunhar a experiência e confirmar minhas premissas: o Estado é um macaco em loja de louça quando trata de valores imateriais, como cultura, informação, liberdade, criatividade. Quanto mais longe estiver, melhor.

Isso não significa omissão da sociedade. Há muitos anos proponho alternativas a esse intervencionismo, que começa salvacionista e acaba exterminador, sem qualquer exceção, mesmo quando os pródomos foram tão gloriosos, como na revolução soviética. Sete anos atrás tive mais uma amostra dessa truculência: meu companheiro de premiação, em Roma, o suave – mas enérgico – Fatos Lubonja, havia acabado de sair da prisão de Enver Hoxxa, o ditador da Albânia. Seu crime? Ser jornalista independente e escrever poesias. Poesias líricas, diga-se. Os ditadores detestam lirismo. Talvez porque lhes faça lembrar que perderam uma parte essencial do corpo humano: o coração.

Minhas sugestões. A primeira: transformar a rejeição, pela empresa jornalística, do direito de resposta do leitor em crime, punível, de imediato, com pesada multa, estabelecida em rito sumário, independentemente de contencioso sobre o conteúdo da carta enviada à redação. Esse procedimento acabaria com a arrogância e insensibilidade de órgãos da imprensa que ignoram o direito alheio e não corrigem os próprios erros.

A segunda sugestão: obrigar empresas jornalísticas de certo porte (pelo tamanho do capital, tiragem de jornais ou funcionamento à base de concessão pública, como televisão e rádio) a se tornarem sociedades anônimas e, a cada elevação obrigatória de capital, abri-lo à subscrição pulverizada dos cidadãos, tornando-se empresas populares, com todo respeito aos direitos dos acionistas minoritários (inclusive o detentor de uma única ação).

Meu entendimento é de que essas iniciativas (ou outras equivalentes) favoreceriam muito mais a liberdade de imprensa e o respeito ao profissional do que esse Conselho, sem as contra-indicações e efeitos colaterais desse tipo de remédio. Medicamento que, como diziam nossos pais, é de arrasar redações.

Discussão

Um comentário sobre “Lula (16)

  1. Estes ditadores querem o tal “controle” o que só as ditaduras sabem o que seja.

    Quem não sabe sequer o que é honestidade nunca saberá o que é jornalismo livre.

    Curtir

    Publicado por Gavião do Goiabal. | 13 de junho de 2018, 14:54

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