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Imprensa, Política

Arquivos do JP (1)

O boicote da imprensa

ao prefeito Edmilson

(JP 235, 2ª quinzena de maio de 2000)

A Coordenadoria de Comunicação Social da prefeitura aproveitou a Conferência Nacional de Comunicação do Partido dos Trabalhadores, realizada em São Paulo, entre os dias 12 e 14, para apresentar a “postura criativa” que julga haver adotado “para enfrentar os desmandos, a falta de ética e preconceito da mídia local em relação à Administração Popular de Belém”. A Comus considera que o governo Edmilson Rodrigues tem sofrido uma campanha de hostilização, que “recrudesceu neste ano eleitoral”.

A reação hostil da grande imprensa, entretanto, remontaria a 1996, quando “pela primeira vez na história de Belém, foi eleita uma administração oriunda dos movimentos organizados de trabalhadores”. A Comus crê que a elite local “foi pega de surpresa e a diferença de tratamento da mídia foi percebida logo nos primeiros momentos do novo governo municipal, seja através do boicote, seja através dos ataques diretos em forma de desafio e desqualificação”.

Mas a prefeitura teria deixado bem clara a sua posição desde então: “Mudou o relacionamento comercial com os veículos de comunicação – desfazendo contratos superfaturados e exonerando jornalistas e colunistas que recebiam como comissionados e não trabalhavam – e implantou serviços de comunicação até então inexistentes na Comus”.

Não tanto assim. De fato, no seu primeiro trimestre de governo, Edmilson Rodrigues adotou uma postura agressiva em relação à velha promiscuidade entre o poder e os principais veículos de comunicação da terra, chegando ao exagero de organizar um comício em frente à sede do jornal O Liberal. Em seu discurso, prometeu acabar com o império da família Maiorana. Podia ter começado revendo uma expressiva dívida de IPTU dos Maiorana (seria atualmente de R$ 800 mil, segundo a Secretaria de Finanças) e submetendo a auditagem uma dívida de publicidade municipal no valor de R$ 2 milhões deixada pela gestão anterior, de Hélio Gueiros.

Após uma sucessão de arengas, o então secretário de finanças, Geraldo Lima, foi demitido e a dívida, integralmente quitada. A prefeitura petista foi além: cedeu R$ 100 mil para uma campanha ostensivamente comercial de venda de fitas de vídeo encartadas em O Liberal, parceria inédita em todo o país em relação a esse tipo de mídia. Foi um período de namoro que ambas as partes sabiam que seria tão curto quanto artificial. O grupo Liberal faturou bastante nesse período, aproveitando para acumular vacas gordas para o período seguinte.

Todos sabiam que ele tinha data certa para começar: a antevéspera das eleições municipais. Os Maiorana jamais apoiariam a reeleição de Edmilson Rodrigues, mesmo a peso do ouro que receberam durante a ilusória pax armada. Chegada a data-limite, iniciaram uma ofensiva contra o governo petista, chegando ao cúmulo de não aceitar a veiculação da propaganda municipal na TV Liberal.

A Comus deve ter levado material rico para exibir em São Paulo. Mas não deve ter levado toda a verdade sobre o contencioso. Não é verdade, por exemplo, que o PT haja reformado a postura viciada da prefeitura de Belém diante da imprensa. Corrigiu alguns erros, repetiu outros e criou novos. A verba publicitária continua a ser uma ferramenta para influenciar e fazer amigos, não exatamente para prestar contas ao público.

A Província foi tratada a pão e água enquanto criticou a administração petista. Hoje, com as verbas fluindo, quase chega a ser porta-voz, permitindo até que matérias editoriais oriundas das sombras publicitárias da administração do PT sejam publicadas sem identificação.

E o que dizer do pior veículo de toda a imprensa marrom mundial, o Jornal Popular, cheio de matérias pagas, sempre elogioso, desbragadamente elogioso, em todas as referências que faz à prefeitura de Belém petista? E se há radialistas recalcitrantes em seguir normas éticas e mesmo profissionais em suas locuções, incapazes de reconhecer o tratamento preconceituoso dado ao PT, há também maus radialistas que só dizem amém aos atos do professor Edmilson Rodrigues. Gratuitamente?

As queixas e relatos da Comus podem ser um bom motivo para aprofundar a análise e a denúncia, e tentar modificar a relação imprensa e poder em Belém e no Pará. Por isso, ao ler a notícia do Jornal do Povo sobre a participação da coordenadoria no encontro nacional do PT, remeti-lhe um questionário. As respostas vieram, como tem que ser num relacionamento maduro. Mas eram insatisfatórias.

Enviei mais perguntas. Fiquei sem retorno. A Comus não deu os nomes dos maus jornalistas que recebiam sem trabalhar na PMB e, por isso, foram demitidos, reagindo com “ataques raivosos” à prefeitura. Também não detalhou a quitação da dívida junto a O Liberal, nem várias outras questões por mim suscitadas.

Mesmo sem esses acréscimos, publico abaixo o questionário, na forma de entrevista, esperando que haja um segundo turno de informações da Comus e que os interessados ou atingidos se manifestem. O poder público é maltratado quando seus atos são apresentados defeituosamente ou maldosamente e não tem o direito de corrigir os erros detectados, nem mesmo de exercer o sagrado direito de resposta. A sociedade precisa fazer a imprensa respeitar para valer o compromisso com os fatos e a verdade.

Voluntariamente, muitos órgãos da mídia não parecem capazes de aceitar esse princípio básico da democracia. Mas também os poderosos costumam considerar a crítica como ato de lesa-pátria ou lesa-majestade. O crítico é tratado como herege. Por tudo ser personalizado, a crítica passa a ser ato infamante em si, por existir. O que impede a pedagogia da cidadania, a democracia e a relação civilizada.

Todos esses males só podem ser combatidos a partir de um agente corretivo de largo espectro: a informação. A verdade está em algum ponto entre o argumento de uma parte e o da outra. Ambas contribuem para o esclarecimento quando o apresentam por completo, com todas as provas. E quando se submetem ao movimento contrário. A quem se julga detentor legítimo da verdade, quanto mais informação, melhor.

Por isso, espero que a Comus complemente o questionário. E aproveito para pedir, de público, que o Jornal do Povo, veículo da prefeitura, volte a ser remetido para o meu endereço. A suspensão coincidiu com o aprofundamento das minhas críticas à PMB. Pode ser mera coincidência mesmo. Mas só o futuro dirá. O futuro sempre responde.

(Publicarei as respostas que foram dadas na próxima edição. Não foi atendido o questionário seguinte – nem nunca mais.)

Discussão

Um comentário sobre “Arquivos do JP (1)

  1. Queria votar em candidatos de esquerda, queria ter como não fazer por falta de informação, o mal juízo e ter arrependimento tardio pelas obras de destruição da vida humana, em todas as suas faces, obrigado pelo espaço, mas também, muitos não são atingidos como deviam pelas várias fontes de construção do conhecimento.

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    Publicado por Nelyo Gama | 28 de junho de 2018, 21:26

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