//
você está lendo...
Cultura

Arquivo JP (20)

Pessoal

(Publicado no Jornal Pessoal 238, de julho de 2000)

Alguém, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, parece atribuir a mágoa pessoal meu artigo contra a decisão do Plades, o programa de mestrado da instituição, de excluir o economista José Marcelino Monteiro da Costa de uma banca examinadora de dissertação acadêmica. Esclareço, para quem possa aceitar a explicação, que jamais me magoei com o Naea. Espero que a recíproca seja verdadeira. Mesmo que não seja do lado de lá, continua firme do lado de cá.

Durante menos dois anos atuei no Naea como professor-visitante. Foi uma bela experiência para mim, um oásis de fecundidade intelectual em meio a tormentos profissionais e pessoais da temporada. Saí porque quis, espontaneamente, por motivos que tornei públicos com tranquilidade e sinceridade.

Mas acompanho o Naea desde suas origens, no início da década de 70, ora como colaborador, ora como crítico. Uma atividade não impedia a outra porque jamais renunciei ao que penso e sempre procurei contribuir para criar alguma coisa. Por isso mesmo, quando chamado ou convidado, sempre que pude respondi presente, fossem convergentes ou dissonantes os auditórios.

Aliás, minha relação com Marcelino tem sido mais de contracanto do que de uníssono, dentro e fora do Naea. Mas quando meus contendores têm a competência dele e sua riqueza pessoal, é com eles que mais aprendo enquanto profissional e também enquanto ser humano. Meu propósito no artigo foi alertar o Naea para combinar os valores que importa e as normas externas que lhe cumpre obedecer com nossas riquezas internas e as exceções à regra, sem o que se favorece a burocracia em prejuízo da inteligência.

O que não fica bem numa instituição voltada para o conhecimento: ela deve saber encarar a verdade e deixar de lado misérias e picuinhas inerentes à nossa condição humana, lamentável e maravilhosa, que nos pune e nos redime, nos agrilhoa e nos liberta.

Arte

Benedito Mello é um dos maiores pintores paraenses de todos os tempos. A exposição programada para comemorar seus 60 anos de carreira tem tudo para ser histórica. Mas não o local indicado para abrigá-la. É inaceitável a decisão da Secretaria de Cultura do Estado de deslocá-la para a Estação das Docas, quando tinha a Galeria Fidanza, na Feliz Lusitânia, como o caminho natural.

Além do ambiente mais propício, a apreciação das riquezas e sutilezas da arte de Benedito seria favorecida pela iluminação do local. Como custou muito caro, esse sistema, informatizado, deve ser usado para destacar trabalhos tão matizados como o de Benedito, que já se tornaram clássicos sem perder a força do conteúdo e o frescor da novidade.

O Boulevard das Artes, rés-a-baía, devia ficar para os novos artistas ou para os trabalhos de vanguarda, experimentais, ou aqueles de visitação mais rápida. A Secult aproveita-se do nome de Benedito Mello para tentar valorizar o espaço, mas fere e apequena a dimensão do acontecimento, através do qual nós todos, indistintamente, podemos agradecer ao grande artista a oportunidade de apreciar sua criação e desfrutar de sua benfazeja presença física.

Cinema

Éramos meia dúzia de pessoas no Cine Líbero Luxardo a assistir Rocco e seus irmãos, o filme de Luchino Visconti que marcou nossa geração 30 anos atrás. No espaço cultural ao lado, o Teatro Margarida Schivazzappa, se apresentavam grupos folclóricos juninos. Não havia muito mais gente ali. O ambiente do Centur, com seu antigo monopólio quebrado, parecia cenário do neo-realismo italiano.

Na entrada comum, encontro Maria Sylvia Nunes, cheia de vontade de ver os nossos pássaros helênicos ao tucupi. Admiro-lhe a vibração, partilhada por Gilberto e Lilia Chaves. Sylvia tem em casa cópia integral em vídeo do filme. Mas só o vê em momentos especiais, que contrabalancem o clima pesado da fita, caindo para o depressivo.

Quando a luz se apaga na sala de exibição, pergunto-me por que minha memória do primeiro contato não registrou essa sensação de incômodo. Mas quando as luzes voltam a se acender, três horas depois, dou razão à amiga: num fim de noite de sexta-feira, sozinho, surpreendido na rua por uma chuva torrencial, enfrentando-a depois de uma breve espera, chegando ensopado em casa, penso nessa sensação agridoce de desesperança que Visconti deixa ao final de sua obra (e de quase todas?).

Um aristocrata tenta colocar acima de tudo sua consciência social, que renega sua classe, mas é afogado pela dor moral, pela angústia de olhar em frente a partir do que está ao seu lado e não divisar as luzes de uma utopia (nem o príncipe verdadeiramente maquiavélico a realizaria), só aquela contraluz diluída no horizonte, aguada.

A luz do filme é perfeita. A música é fugidia, encantatória. Os atores estão inspirados. Há alguma dose exagerada de dramaticidade, uma teatralidade grega com um tom a mais de artificialidade e formalismo que polvilha de tênue bolor (e nonsense) alguns momentos do filme.

Mas é realmente uma tragédia eterna que estamos vendo. A verdadeira arte incomoda, ativa ideias e sentimentos inconscientes ou adormecidos, faz sofrer e angustiar, dá alegria e comove, sublima e aprofunda, inacabada como a vida que desabou aquosa naquela noite, lavando o asfalto sujo da rua e trazendo o lixo vegetal das árvores para, no chão, longe das estrelas, recomeçando o processo, velho e sempre novo, que nos comanda e nos aniquila, oferecendo-nos o céu. Sem que saibamos antecipar sua materialidade com nossa metafísica de serventia nula, como na Tabacaria de Fernando Pessoa.

Discussão

2 comentários sobre “Arquivo JP (20)

  1. Belíssimo texto. Poético.

    Obrigado.

    Curtir

    Publicado por | 11 de julho de 2018, 07:38

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: