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Cidades

Belém (27)

A alça rodoviária da cidade fluvial

(Artigo publicado em setembro de 2001)

Ao participar da inauguração da ponte do Mosqueiro, mais de duas décadas atrás, o então presidente da República, general Ernesto Geisel, se virou para seus companheiros de palanque e perguntou pela utilidade econômica da obra.

– O que se produz nessa ilha?

O governador Aloysio Chaves engoliu a resposta. O prefeito Ájax d’Oliveira veio em seu socorro. Explicou ao prussiano presidente que a ponte ia favorecer o lazer dos belenenses, obrigados até então a servir-se de um navio ou de balsa para desfrutar dos prazeres da “bucólica”, como os colunistas sociais tratavam a outrora paradisíaca ilha.

Se ressuscitasse e voltasse ao Pará para inaugurar a ponte sobre o rio Guamá, em meio a fanfarras e apoteoses de período eleitoral, como o do próximo ano, provavelmente o aplicado general faria a mesma pergunta: qual o uso econômico dessa cara obra de arte e do sistema rodoviário do qual faz parte? Mais adestrado para esse tipo de discurso, o governador Almir Gabriel haveria de citar números e entoar argumentos para sustentar que a Alça Viária será uma revolução na paisagem da Grande Belém. Terá ainda papel importante na integração do Estado do Pará.

A ladainha já é bastante conhecida, quando nada pela intensa propaganda feita em torno da obra. Toda a retórica, porém, tangencia o ponto fundamental: ao decidir executar o projeto, o governo paraense optou por uma fórmula convencional e pela mesmice, mais fácil de engolir porque já vem numa embalagem pré-fabricada. Um modelo exótico de intervenção, cujo dano só não é bem avaliado porque apenas os benefícios são alardeados, não os seus custos.

Tocada em ritmo acelerado para poder render votos, impressionando as pessoas convidadas para visitas dirigidas ao canteiro de obras, a Alça Viária já engendrou dois fatos concretos, um de valor mais simbólico e outro de crueza nada metafísica. O primeiro é a topada da frente de construção da rodovia da margem direita da ponte sobre o Guamá.

Os serviços estão parados porque ainda não se decidiu o que fazer com um posto de gasolina instalado exatamente no leito da rodovia. O posto já estava ali quando os técnicos projetaram o traçado da Alça. Por que deixaram o problema interferir no andamento da obra? A solução não podia ter sido antecipada? Não sairia mais barata com essa antecipação?

O segundo fato é mais grave: habitantes rurais de municípios sem perspectiva econômica do nordeste do Estado e da região do salgado, sofrendo influência mais direta da capital, já estão se estabelecendo ao longo do traçado da rodovia, invadindo terrenos para ter seu lote quando a obra estiver concluída. Isto significa que o efeito imediato da Alça será a ampliação e inchamento dos problemas urbanos de Belém, a consolidação da anomia social, atraindo mais pessoas para habitar a periferia da cidade e tangenciar as possibilidades de incorporação econômica.

Essa perversa agitação social erra tão previsível e inevitável quanto o impacto econômico das pontes e da estrada a elas associada. É claro que elas beneficiarão vários setores e atores. Mas prejudicarão outros. Podem prejudicar mais do que beneficiar. Admitamos que os efeitos positivos existirão: parte da carga que atualmente vem para o porto de Belém será deslocada para Vila do Conde, de lá voltando para cá. Talvez a mudança fosse vantajosa se essa nova pernada fosse feita em barcaças ou alvarengas. Mas o meio de transporte será o caminhão. Um custo a mais, um impacto adicional, um elemento aduzido à descaracterização da função de uma cidade estuarina.

Raciocínios apressados na condenação do sítio portuário de Belém serão reforçados e outras fantasias adquirirão contornos de verdade. Belém ficará ainda mais rodoviária e menos fluvial, um destino que não estava escrito nas estrelas, que até podia ser reescrito, desde que tivéssemos uma administração pública mais identificada com a geografia da cidade. E com sua paisagem social.

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