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Cidades, Ecologia

Belém (28)

Água de Belém

(Artigo publicado em 2001)

A paradoxal situação de uma cidade com 1,2 milhão de habitantes afligida por sérios problemas de abastecimento de água potável, embora cercada de água por todos os lados (inclusive por cima, como sempre gostam de lembrar os apreciadores das maravilhosas chuvas de quase o ano inteiro), revela a incompetência de Belém na gestão dos seus recursos hídricos, sua insensibilidade diante da sua localização geográfica.

Periodicamente, como agora faz de novo O Liberal, a imprensa revela a gravidade das ameaças às fontes de suprimento da população belenense: contaminação das águas em índices alarmantes, avanço da ocupação humana nas margens do conjunto de lagos do complexo Água Preta-Bolonha e crescente assoreamento dos reservatórios. Há ainda a poluição do rio Guamá, cada vez mais a fonte principal da coleta de água.

Uma bombástica reportagem parece abrir a possibilidade para medidas profundas de combate ao problema, mas logo o interesse é amortecido e as coisas voltam a ter sua aparência de normalidade. Um novo retorno ao mesmo assunto, porém, confirma que a situação segue uma tendência de agravamento ininterrupta.

Os lagos vão se tornando meros reservatórios para as águas do Guamá, bombeadas em volumes sempre maiores para serem acumuladas em áreas que encurtam constantemente. Nessa progressão, haverá um dia em que a água irá diretamente do rio para o tratamento químico, sem qualquer possibilidade de estocagem intermediária.

O governo deveria discutir a questão abertamente com a sociedade e buscar as formas de combate mais eficientes que existem no mercado. É pouco provável que um muro, ainda mais porque concebido originalmente em função do já agonizante projeto do prolongamento da 1º de Dezembro, contenha o avanço dos invasores, seja na instalação de novas residências em local impróprio como através de infiltrações subterrâneas.

A pergunta que os mais atentos acompanhantes do problema se fazem é: há futuro para os lagos como mananciais de água potável para Belém? Ainda que tecnicamente exista um meio de preservá-los, a solução é econômica? O poder público está em condições de banca-la?

É claro que o preço tem relação direta com o benefício. Os belenenses estão sendo atacados por um inimigo insidioso: a má qualidade da água que lhes é fornecida. Por um lado há a presença de microorganismos e até de coliformes fecais numa proporção de causar arrepio e pânico. De outro lado, há o feroz tratamento químico, feito para atacar a matéria orgânica e que traz como subproduto agentes agressivos ao organismo humano. Os americanos, que introduziram o cloro no tratamento de água, estão revendo o uso desse componente, associado ao incremento do câncer.

Se o complexo Água Preta-Bolonha está condenado, a única saída seria descentralizar as fontes de água de Belém, hoje totalmente concentradas na castigada – mas ainda bela – área do Utinga-Aurá? Esta é uma questão a ser discutida com seriedade. Mesmo que se deva optar pela água subterrânea, espalhando as estações de tratamento e as fontes de suprimento, setorizando-as, Belém não pode mais deixar para depois o desafio de salvar a última floresta nativa da área metropolitana.

Se isso ainda é possível, as prefeituras de Belém e Ananindeua, junto com o governo do Estado, deveriam criar um plano de uso para essa área, agindo com rigor e vontade para conter e corrigir o avanço das frentes de ocupação das matas remanescentes de igapó e várzea. O efeito indireto dessa decidida ação seria o salvamento do sistema hídrico, muito mais complexo do que aparenta.

Isso é matéria onírica? Se os governos acham que sim, cabe à sociedade forçá-los a pensar diferentemente.

Discussão

3 comentários sobre “Belém (28)

  1. Seria muito bom usar os aquíferos, contudo, em regiões como a área da Augusto Montenegro, na qual foi permitido edificar aleatoriamente, sem uma reflexão séria sobre as zonas de recarga, é questionável a sustentabilidade de um modelo de abastecimento subterrâneo.

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    Publicado por Antonio Carlos Santos do Nascimento Passos de Oliveria | 13 de julho de 2018, 10:09
  2. Ótima reportagem sobre o caso dos mananciais de abastecimento e água de Belém. A situação do abastecimento da cidade é precária e contrasta com a visão geral de abundancia de água doce que se tem da região, mas que são realmente graves em locais como São Paulo onde a água é realmente escassa em relação a grande população. O saneamento é um problema real das cidades grande, mas muito pior quando mal estruturadas e não planejadas para o seu crescimento. Mas esse crescimento é ruim não só para saúde da população, mas para uma cidade ribeirinha que vai perdendo suas características e virando as costas para seus rios. Mas do que tudo o meio-ambiente almeja, e que o poder público deve fiscalizar, e a manutenção de seu equilíbrio e a capacidade da natureza de se regerar. Quando a sociedade e o governo não atuam, os problemas se voltam para os mesmos.
    Diante da situação qual a visão que tens hoje desta mesma situação do Bolonha e da instalação de um local protegido como o Parque do Utinga? foi bom e realmente importante?
    Para complementar a discussão trago um texto mais didático que também fala da situação hídrica de modo geral.

    sábado, janeiro 26, 2008
    As conseqüências do desperdício global de água.
    Cai do céu,mas pode faltar. A humanidade desperdiça e polui a água como se nada valesse – e já paga o preço por isso.
    Diogo Schelp

    O nosso planeta azul vive um paradoxo dramático: embora dois terços da superfície da Terra sejam cobertos de água, uma em cada três pessoas não dispõe desse líquido em quantidade suficiente para atender às suas necessidades básicas. Se o padrão atual de aumento de consumo for mantido, calcula-se que essa proporção subirá para dois terços da população mundial em 2050. A explicação para o paradoxo da escassez na abundância é a seguinte: a água é um recurso renovável pelo ciclo natural da evaporação-chuva e distribuído com fartura na maior parte da superfície do planeta. Acontece que a ação humana afetou de forma decisiva a renovação natural dos recursos hídricos. Em certas regiões do mundo, como o norte da China, o oeste dos Estados Unidos e o Lago Chade, na África, a água vem sendo consumida em ritmo mais rápido do que pode ser renovada. Estima-se que 50% dos rios do mundo estejam poluídos por esgotos, dejetos industriais e agrotóxicos. “Em alguns casos, a sujeira é irreversível e aquela fonte de água jamais poderá voltar a ser utilizada”, disse a VEJA o belga Jan van Wambeke, chefe de desenvolvimento de terras e água do escritório latino-americano da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Calcula-se que 30% das maiores bacias hidrográficas tenham perdido mais da metade da cobertura vegetal original, o que levou à redução da quantidade de água.

    Nos últimos 100 anos, a população do planeta quadriplicou, enquanto a demanda por água se multiplicou por oito. Estima-se que a humanidade use atualmente metade das fontes de água doce do planeta. Em quarenta anos, utilizará perto de 80%. Apenas 1% de toda a água existente no planeta é apropriada para beber ou ser usada na agricultura. O restante corresponde à água salgada dos mares (97%) e ao gelo nos pólos e no alto das montanhas. Administrar essa cota de água doce já deveria despertar preocupação similar à existente em relação à gasolina. Não é o que acontece. Em tese isso faz sentido, pois a água é mais abundante e barata que o petróleo – combustível fóssil cuja escassez nos deixa apreensivos quanto ao futuro e já nos custa caro na hora de encher o tanque do carro –, com a vantagem de ser um recurso renovável. O petróleo, no entanto, pode ser trocado por outras fontes de energia. Já a água é insubstituível. “Ainda hoje usamos esse bem vital com a mesma falta de cuidado que se tinha no século XIX”, diz a especialista em água Petra Sánchez, da Universidade Mackenzie, em São Paulo.

    Muitos especialistas temem que no futuro haja guerras não mais por petróleo, mas por água. Em parte, o perigo está no fato de que nenhum país é totalmente dono de sua própria água. A maior reserva de água subterrânea existente no mundo, o aqüífero Arenito Núbia, distribui-se pelo subsolo de quatro países – Líbia, Egito, Chade e Sudão. O aqüífero Guarani, segundo em extensão, é dividido entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Mais de 200 rios cruzam fronteiras nacionais. Pouca gente nota, mas a água tornou-se um dos produtos mais presentes no comércio global. Países com poucos recursos hídricos, como a China, compensam a escassez importando a “água virtual” embutida em produtos agrícolas ou industriais. Calcula-se que sejam necessárias 10 toneladas de água para produzir o equivalente a 2 dólares em trigo e a mesma quantidade do recurso natural, em média, para obter um produto industrializado de 140 dólares. Como se gasta muito mais água na irrigação do que nas fábricas, em proporção ao valor final do produto, pode valer mais a pena para um país importar alimentos e concentrar suas forças na indústria. A China, uma das nações com a menor disponibilidade de água doce per capita, está passando por essa transição. Recentemente, os três maiores lagos chineses foram cobertos por algas devido à poluição, que matou os peixes e impediu o uso da água no abastecimento da população. Na semana passada, o governo chinês anunciou um projeto para despoluir todos os lagos do país.

    Os fatores humanos da escassez de água são agravados por eventos climáticos. De todas as previsões relacionadas ao aquecimento global, a mais surpreendente talvez seja a de que o clima da Terra ficará mais úmido, mas não de forma uniforme por todo o planeta. Haverá mais chuvas nas regiões próximas aos pólos e secas mais intensas nas áreas subtropicais. Isso deve piorar um problema contra o qual a humanidade já luta há milênios: a natureza nem sempre nos dá a água no lugar, no momento e na quantidade que precisamos. Mesmo países com água em abundância, como é o caso do Brasil, não estão livres de dilemas. O acesso à água potável depende de um sistema eficiente de coleta, tratamento e distribuição. Há duas razões principais para isso. A primeira é o crescimento populacional das cidades, que leva ao esgotamento das fontes hídricas próximas dos centros urbanos. A solução é trazer a água, um recurso pesado e difícil de transportar, de lugares cada vez mais distantes. Parte da água que abastece São Paulo é captada a 100 quilômetros de distância. A segunda dificuldade na captação de água limpa a baixo custo para as cidades é a poluição.

    O uso de água imprópria para o consumo humano é responsável por 60% dos doentes no mundo. Por dia, 4.000 crianças morrem de doenças relacionadas à água, como a diarréia. Os especialistas costumam alinhar duas soluções principais para evitar a escassez de água de qualidade, própria para o consumo humano: cobrar mais pelo uso do recurso e investir no tratamento dos esgotos. O objetivo de cobrar mais pela água é desencorajar o desperdício. Na irrigação, por exemplo, que consome 70% de toda a água doce utilizada no mundo, pode-se economizar com sistemas de gotejamento e borrifação, mais eficientes que as técnicas de alagamento das lavouras. No Brasil, cobra-se pelo uso da água em apenas duas bacias hidrográficas formadas por rios de jurisdição federal (a lei permite que se faça o mesmo em outras cinco). A segunda solução, o tratamento de esgoto, possibilita que a água seja devolvida à natureza ou reutilizada. No fim do mês passado, o condado de Orange, um dos mais ricos da Califórnia, inaugurou a maior estação do mundo dedicada a transformar esgoto em água potável. Depois de limpa, a água é injetada no lençol freático do qual a cidade se abastece. É uma providência que vem em boa hora. A Califórnia não é apenas uma das regiões mais secas dos Estados Unidos – é também onde se encontra o maior consumo hídrico per capita do mundo. Sabendo usar, não vai faltar.

    Com reportagem de Alexandre Salvador e Denise Dweck

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    Publicado por Fabrício | 10 de outubro de 2018, 15:26

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