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Ecologia, Floresta

O fim da floresta?

Maio pode ser considerado um mês de transição, na Amazônia, entre o período de muitas chuvas, de outubro a abril, e o seu declínio no rumo do verão, com as menores precipitações entre agosto e setembro. Em maio deste ano, 634 quilômetros quadrados (63 mil hectares) de florestas foram derrubados no mês passado, computadas apenas áreas com mais de 10 hectares. Em maio do ano passado, o desmatamento foi de 365 quilômetros quadrados (36 mil hectares).

Um hectare é uma área de 100 por 100 metros, ou 10 mil metros quadrados, referência mais compreensível para quem mora numa cidade. Seria como se três vezes e meia a área de Ananindeua, o segundo mais importante município da região metropolitana de Belém, no Pará, com quase 500 mil habitantes, tivesse sido desmatada num único mês.

O incremento na derrubada de florestas foi, assim, de 73% em maio deste ano, na comparação maio do ano passado, segundo dados do monitoramento realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, divulgados no mês passado.

O Sistema de Alerta de Desmatamento do instituto registrou ainda o crescimento na degradação da floresta, provocada por queimadas ou extração seletiva (e não o corte raso, que é mais visível) de árvores, principalmente no leste do Pará. O levantamento somou 130 quilômetros de florestas degradados, que foram empobrecidas ou desvalorizadas comercialmente.

Os dados caracterizam também o avanço do desmatamento sobre unidades de conservação, criadas com a missão de proteger a natureza. Atraiu a atenção do instituto a distribuição dos alertas no Pará, com uma concentração alta em áreas protegidas. O engenheiro ambiental Antônio Victor Fonseca, pesquisador do Imazon, montou um ranking do desmatamento nessas unidades.

No topo está a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, com 82 quilômetros quadrados perdidos. Em seguida, a reserva do Jamanxim, com a redução de 38 quilômetros quadrados, dentro da qual as áreas individuais foram de dimensões maiores.

O pesquisador não acha possível por enquanto avaliar as causas desse aumento na derrubada de florestas: as informações são recentes e os dados anuais do SAD ainda não foram fechados, já que o ciclo de monitoramento começa em agosto.

Quase metade das florestas perdidas (48%) cobriam áreas no Pará. Mato Grosso (com 29%) e o Amazonas (15%) completam o ranking dos maiores desmatadores no mês passado. Embora menor, o índice do Amazonas preocupa muito. É que o desmatamento está se deslocando para o corredor do sul do Amazonas, que permanecia quase intocado até recentemente. Com essa nova frente, a destruição de florestas tem se concentrado nos últimos três anos num espaço contínuo de quatro Estados: Amazonas, Pará, Rondônia e Mato Grosso.

Fonseca ressalta que esse desmatamento não avançou para o interior do Amazonas graças a um cinturão de áreas protegidas no sul do Estado, como o Mosaico do Apuí, um conjunto de unidades de conservação que ocupa áreas nas divisas com Pará e Mato Grosso. Mas esse fato não chega a ser tranquilizador. Fonseca alerta para as pressões em curso que visam reduzir áreas protegidas nessa região.

Esta situação deverá se agravar com o avanço do verão, que está começando muito forte. O clima da natureza favorecerá as derrubadas e as queimadas, com decisiva ajuda do ambiente político de eleição, que estimula as práticas populistas dos políticos de troca de votos por apoio a iniciativas tidas por produtivas.

Essa combinação pode levar a um resultado desastroso, como o que provocou o desmatamento recorde de todos os tempos. Foi em 1987, quando, no clima da nova constituição, a possibilidade de ampliação das áreas de imóveis rurais privados passíveis de desapropriação, levou os fazendeiros a buscarem no desmatamento a imunização contra essa ameaça. Puseram abaixo muita floresta para tornar suas propriedades produtivas, ainda que de forma irracional, para evitar que elas pudessem ser desapropriadas por interesse social para fins de reforma agrária.

Assim, contra todas as recomendações da razão, a destruição da maior floresta tropical do planeta prosseguirá, afastando-se cada vez mais das tentativas de proteger esse patrimônio único e tão valioso. Os resultados apurados neste ano pelo Imazon delineiam mais um agravamento nas frentes de desmatamento e ameaçam retirar qualquer possibilidade de adoção do desejado desmatamento zero, ironizado e ridicularizado pelos agentes da destruição.

No entanto, Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Imaflora, Imazon, Instituto Socioambiental, IPAM, TNC e WWF, organizações não-governamentais reunidas no Grupo de Trabalho pelo Desmatamento Zero produziram o relatório “Desmatamento zero na Amazônia: como e por que chegar lá”.

No documento, divulgado em Bonn, na Alemanha, no final do ano passado, o GT argumenta que não há mais justificativas para a destruição da vegetação nativa do Brasil. “Continuar desmatando resulta em desequilíbrio do clima, destrói a biodiversidade e os recursos hídricos, traz prejuízos à saúde humana e, ao contrário do que muitos acreditam, compromete a competitividade da produção agropecuária”, segundo a nota então divulgada.

O estudo observa que em 2016 o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa no Brasil. Zerar o desmatamento seria “a forma mais rápida e fácil de reduzir emissões e cumprir com o acordo de Paris”.

As ONGs reconhecem que o Brasil já conhece o caminho para o desmatamento zero e sabe como chegar lá. “As medidas implementadas nos últimos anos (2005-2012) derrubaram as taxas de desmatamento na Amazônia em cerca de 70% e indicam que os elementos necessários para atingir o desmatamento zero se encontram presentes”, destaca a publicação.

“O Brasil já sabe o caminho para chegar ao desmatamento zero, mas tem seguido na direção oposta. Temer e o Congresso vêm discutindo e aprovando medidas que incentivam ainda mais desmatamento, grilagem e violência no campo. Caso ações não sejam tomadas urgentemente, o cenário é de permanência de altas taxas de desmatamento na Amazônia”, comentou Cristiane Mazzetti, especialista em Amazônia do Greenpeace Brasil.

O relatório reforça, ainda, a importância da mobilização da sociedade contra as tentativas recentes de enfraquecer a proteção florestal, como a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução da proteção de Unidades de Conservação, a paralisação dos processos de demarcação de Terras Indígenas e a anistia de grilagem de terras públicas – gerando um lucro de R$ 19 bilhões para grileiros.

As propostas colidem com a prática corrente dos que se empenham em pôr fim ao que mais caracteriza a Amazônia: a sua floresta.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

11 comentários sobre “O fim da floresta?

  1. Estamos no inverno no hemisfério sul. Verão é período quente e úmido, com maiores índices pluviométricos. Inverno é frio e seco, com menos chuvas. Logo, as coisas queimam mais no período seco.

    Concordamos que desmatamentos e queimadas causam graves danos ao meio ambiente.
    Podem-se estabelecer as mais severas leis e fiscalizações ao meio ambiente, mas de nada vão adiantar se não houver alternativas econômicas que desestimulem o aproveitamento predatório da floresta, conscientizando os agentes de que o uso racional da terra gera sustentabilidade a longo prazo, ou seja, garante a fruição dos dividendos que a terra pode dar, por um período maior.

    É equivocado na nossa mentalidade dizer que o homem vai destruir o planeta. Ora, ele está aí há bilhões de anos, e vai seguir seu destino eterno, se regenerando após desaparecermos, sem que sequer nos demos conta da dimensão do tempo numa escala inimaginável.

    Greenpeace e ong’s ambientalistas criam mais problemas que soluções. Vão matar o homem e a floresta numa tacada só, como o JP e o blog num só tiro. Nunca oferecem um debate racional com análise profunda sobre o meio ambiente. Se atêm a estatísticas pouco confiáveis, mas vivem do mercado político da crítica apaixonada no terreno das conquistas morais perante o público.

    Antonio Gramsci estava certo até para o monopólio das virtudes no meio ambiente, revertendo inverno em verão se preciso for. O homem que quer sobreviver que viva na miséria da esmola estatal ou morra de fome. Afinal, o que importa é a narrativa, num inverno que já virou verão.

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    Publicado por Anônimo | 12 de julho de 2018, 20:43
    • Estamos em pleno verão. Nem é preciso ir a outra fonte: basta respirar.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de julho de 2018, 20:48
    • Do ponto de vista técnico, o hemisfério sul está mesmo no inverno e o hemisfério norte no verão. Desta forma, o anônimo está certo. Como a Amazônia está na faixa equatorial, talvez esta diferença passe despercebida pelos habitantes da região, onde o inverno é seco e o verão chuvoso.

      O anônimo está correto em dizer que a espécie humana não está destruindo o planeta. Na verdade, ela está destruindo ela mesma pois com a perda das florestas, poluição dos rios e ar, expansão de espécies exóticas, degradação de ecossistemas e mudanças climáticas, todo o sistema biológico que permitiu a nossa espécie florescer desaparecerá. O resultado nos já conhecemos: extinção.

      ONGs ambientalistas chamam a atenção para o problema e usam resultados publicados pelos melhores cientistas do mundo (incluindo economistas) para argumentar que o problema ambiental exige uma solução urgente. Mais racionalidade do que isso impossível. Quem deve encontrar as soluções é a sociedade nacional, implementando-as via um conjunto de políticas e investimentos estratégicos.

      Já está mais do que provado (basta ler qualquer revista científica séria ou os livros do Lúcio) que na Amazônia desmatamento extensivo não leva a desenvolvimento humano. Ao contrário, o desmatamento é fonte de criminalidade, doenças, degradação social e moral. Desenvolvimento de fato na Amazônia passa pelo desmatamento zero, ou seja, proteger tudo o que resta para forçar o bom uso das áreas que já foram degradadas, que equivalem ao tamanho da França. A ideia do desmatamento zero foi proposta pelo Museu Paraense Emilio Goeldi onze anos atrás junto com um conjunto de recomendações de como chegar lá. O que as ONGS estão fazendo é apenas chamar atenção para uma ideia que surgiu em um instituto de pesquisa do governo brasileiro.

      Cabe ao governo e a sociedade proteger a floresta. Cabe aos empresarios sérios investir em formas inovadoras de usar as áreas degradadas. Infelizmente o governo não protege o que deveria e a maioria dos empresários locais e alienígenas não faz o que é preciso, preferindo degradar os ecossistemas regionais com o apoio dos políticos e do dinheiro gerado, na maioria dos casos, por atividades ilegais.

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      Publicado por Jose Silva | 13 de julho de 2018, 09:37
      • Só há duas estações por aqui: quando chove mais ou quando chove menos (ou, como já acontece em micro climas: quando não chove). Agora chove menos ou não chove. Para o calendário do fogo e do desmatamento, é o que importa.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de julho de 2018, 10:42
      • Obrigado, José Silva – pela concordância e complementação.

        Lúcio, deixa disso, não tira a bronca. Pare de falar que nem o jornal Liberal da TV. Estamos no inverno no hemisfério sul.

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        Publicado por Anônimo | 13 de julho de 2018, 11:34
  2. Grata pela excelente postagem. O cenário é arrasador sob todos os prismas. O supra-sumo é o faroeste diário e apocalíptico e as condições insalubres de vida. Tragédias anunciadas e apequenadas pelos diversos graus de informações manipuladas pela ignorância cega e obtusa. A desgovernança da cegueira possui apoiadores e destinatários.

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    Publicado por Amelia A. Oliveira | 13 de julho de 2018, 10:24
  3. e com este povinho (com as raríssimas exceções) que mora aqui, já era a floresta, além dos devastadores de fora da região que também não deixam a desejar neste serviço, podemos contar com o fim mesmo do que ainda há de mata nestas bandas, já que estamos falando de uma causa cuja culpa é a da espécie humana capitalista, como é a de agora!

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    Publicado por felipe puxirum | 13 de julho de 2018, 11:12
  4. Quando percorremos a rodovia Belém-Brasília, no trecho do município de Paragominas, principalmente, temos a sensação de estar atravessando um deserto.

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    Publicado por Pedro Pinto | 17 de julho de 2018, 09:32

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