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Cultura

Arquivo JP (37)

Jornalismo cultural: o saber em pílulas

 

(Jornal Pessoal 241, agosto de 2000)

As gerações que respiraram o ar puro da democracia e da liberdade entre 1946 e 1968 abriam as páginas dos muitos bons jornais disponíveis nesse período com ansiedade. Nos dias de suplementos e cadernos especiais, podia-se ter aulas de cultura lendo resenhistas, articulistas, colunistas, cronistas e escritores do tamanho de Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, Mário Faustino, Ferreira Gullar, Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues, Antônio Cândido, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector… – uma relação representativa ocuparia linhas e linhas de texto.

A cultura brasileira estava vivamente abrigada na imprensa, com seus altos e baixos, prós e contras, em toda a sua pujança e mediocridade, cristalinamente desigual. Cultura e jornalismo se fundiam, entre faíscas e curtos-circuitos. Mas gerando luz e calor.

Desde o Ato Institucional número cinco, de um lado, e a abertura sem controle do país à sociedade de massa moldada além-mar, de outro, o Brasil tem empobrecido. O jornalismo cultural reflete essa decadência, que não é exatamente decadência, no sentido moral, mas empobrecimento mental mesmo. Ele é tal que algumas pessoas das mais recentes elites pensantes, quando questionadas a respeito, reagem alegando em defesa que os tempos, agora, são pós-modernos. Motivo de uma já extensa bibliografia, esse é um daqueles conceitos camaleônicos, que se presta a tudo sem conseguir ser, jamais, preciso. Como o Zellig de Woody Allen.

No universo pós-moderno, a ênfase cultural que resultava em criações como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil ou os suplementos literários de O Estado de S. Paulo e do Estado de Minas, hoje soaria como humanismo fora de moda, desatualizado, “não-palatável” a gerações que parecem consumir cultura como o Bode Francisco Orellana (criação do humorista Henfil): comendo os livros, ao invés de lê-los, engolindo sem mastigar, digerindo sem deglutir. Por isso, os agora dinossauros foram substituídos nos segundos cadernos por gente ágil, leve e solta, muito bem informada sobre tudo, mas pela rama.

José Lino Grünewald teria emprego nesses cadernos culturais se fosse começar a carreira neste momento? Foi uma das coisas em que pensei enquanto assimilava a notícia da sua morte, aos 62 anos, no Rio de Janeiro, no mês passado. Eu conhecia Zé Lino, como o chamavam os mais íntimos, de longe, a partir do “sereno” que cabia a um foca diante de notáveis jornalistas.

Era aos sábados, quando ERA impresso o Quarto Caderno, na redação do Correio da Manhã, aquele lugar encantador que a intolerância e o radicalismo, de um lado e do outro do espectro ideológico, acabaram por transformar em ruínas na rua Gomes Freire, na Lapa carioca. Alguns dos mais ferozes debates eram travados ali entre Zé Lino, Ely Azeredo e Antônio Moniz Vianna em torno do cinema.

Mas a irreverência no conflito de idEias tinha sanção legal do editor do caderno, Paulo Francis, e se estendia a todos, colaboradores eventuais ou detentores de cadeira permanente. O Quarto Caderno foi o último suspiro de inteligência enragé antes dos últimos vestígios de luz serem sufocados pelo AI-5 e sua espiral de medo. Foi, também, um dos mais nobres espaços da imprensa republicana no Brasil. Voltaria, hoje? Voltaria a velha (e ainda vanguardista) Senhor?

A cultura na ponta da língua

Há uma questão, geralmente omitida ou subestimada: as ideias eram postas em cheque permanentemente, em qualquer lugar, diante de qualquer auditório, sem marcação prévia. Numa redação de jornal, numa livraria, num boteco, no meio da rua. Não dava para pedir tempo, ir ao banheiro, sair atrás de um copo de água (de resto, o único líquido que não era requisitado pelos circunstantes).

Quem sabia, falava. Quem não sabia, ficava calado. Quem não sabia e falava, podia ser destruído. Quem não sabia e prestava atenção, aprendia. Querendo, podia bater palma. Era bem recebida, sem ser necessária a qualificação ou o currículo (Lattes?). Como jurados, um garçom ou um doutor tinham o direito de voz. Era preciso saber o que falar. Mas também saber como dizer. Profundidade e clareza, consistência e leveza, essa conciliação que é o ideal do intelectual, acessível a poucos, mas que qualquer um tem o direito – e deve ter a possibilidade – de buscar.

Num espaço para 10 parágrafos de tamanho médio, Otto Maria Carpeaux dava lições inesquecíveis, sem o ranço de um magister dixt que impera nas academias, mesmo sem as cátedras. Agora que o primeiro volume da sua obra, reunindo artigos de jornal, está disponível no mercado, convinha aos mais jovens libertar-se da intolerância e do preconceito para usufruir do que é a nata desse gênero em extinção: o ensaio em tamanho compacto, o que significa concentração de ideias para o leitor diluir ao longo do tempo, em novas leituras e reflexões, direcionadas ou sugeridas pelo autor, que já fez esse caminho.

O que temos no atual jornalismo cultural brasileiro é tão mais pobre que parecemos haver andado para trás em matéria de civilização, de refinamento, de sofisticação, de profundidade. Os redatores dos suplementos que subsistem, anêmicos, nos nossos jornais policromáticos apenas ouviram o galo cantar ou mal entraram na estrada do conhecimento, mas já se consideram rodados em letras. Lançam juízos de valor sobre todos e todas as coisas, mas não parecem dominar o assunto sobre o qual sentenciam.

Por exemplo. A última página da última edição de julho do suplemento Ideias, do Jornal do Brasil, é dedicada à reedição das obras de Jean-Paul Sartre pela Nova Fronteira, “como parte das comemorações dos 20 anos de sua morte”, segundo a autora do texto (de 10 parágrafos), Leneide Duarte. Acho que nem os espíritas comemoram dessa maneira uma morte, embora a recebam com alegria – incompreensível para nós, católicos, praticantes ou não, mas condenados à angústia pendular (e insolúvel) entre a vida e a morte, entre o fim e a ressurreição. Qualquer pessoa menos apressada falaria no registro ou na memória dos 20 anos da morte do filósofo francês. Não em “comemorações”. Mesmo os inimigos de Sartre, adocicados pelo tempo, não chegaram a tal escárnio. A ausência de intenção só agrava a “mancada”.

A cultura de orelhada

Embora destinados a um espaço jornalístico especializado e dirigidos a um público supostamente mais exigente, esses anódinos textos parecem resultar de uma rápida passagem pelo arquivo, combinada com um press-release e uma bispada numa orelha de livro, os ingredientes costurados e emendados segundo uma fita métrica [antes da ditadura gnoseológica da internet]. Só esse método justifica uma observação da jornalista do Ideias: “O casal Jean-Paul Sartre-Simone de Beauvoir, apesar de nunca ter assinado nenhum [um] papel para formalizar a união nem nunca ter morado sob o mesmo teto, foi um mito daquela geração”.

Vários outros casais se formaram na França, na época, da mesma maneira, e nunca se tornaram mitos. Outros casais, como André-Clara-Malraux, para não deixar o território francês, mesmo sendo convencionais nesse aspecto, também se tornaram mitos. A legenda permaneceu porque Sartre e Simone pensavam autonomamente – e pensavam muito bem, teorizando sobre o que faziam, o estar e ser no mundo se refletindo e projetando no espaço e no tempo, chegando até a remota Belém do Pará. Lendo a trilogia de romances de Os Caminhos da Liberdade, me comportava na noite me imaginando Mathieu Delarue, com meu calculado ar blasé, minhas roupas displicentes de cor neutra, minhas frases inconclusas – meu existencialismo, é claro.

Literatura era vida, paixão, sedução, mistério. A jornalista do suplemento do JB deve ter absorvido muitos drops edulcorados sobre Sartre em clippings ou na internet, mas não nos convence de que o leu. Ou não acharia “um primor de honestidade intelectual e sinceridade absoluta somadas a um sutil senso de humor” Sartre afirmar que só leu já adulto (com mais de 35 anos) o filósofo dinamarquês Sören Kierkgaard, geralmente apontado como o precursor do existencialismo, ou o primeiro dos existencialistas: “eu sabia que ele existia, mas era apenas um nome para mim e esse nome, não sei por que motivo, me era antipático. Acho que por causa dos dois a”.

Lendo As palavras, e lendo não às pressas, para pinçar frases para um texto, mas numa relação de absorção e fertilização, a resenhadora encontraria testemunhos muito mais encantadores, honestos, bem humorados e profundos de Sartre sobre sua vida e sua relação com a cultura, num livro definitivo, no mais alto estágio que a memorialística humana já alcançou. Mas por que entregar a responsabilidade de uma página “comemorativa” aos 20 anos da morte de um dos pensadores do século a uma marinheira de primeira viagem?

Nos jornais das décadas de 40 a 60, o editor do caderno ligaria para um Fernando Peixoto e lhe pediria um artigo, não sem antes discutir a abordagem, questionar o parágrafo de abertura, a finalização, um toque de originalidade, uma repercussão local de Sartre, enfim, um diálogo entre duas pessoas que dominam o assunto, não entre neófitos, para que um não dê ordens absurdas e outro não reinvente a roda sobre uma quadratura do círculo.

Pessoas que amam o que fazem, por isso tendo incorporado o objeto à sua vida. Talvez não muito sólidos na base teórica, talvez desatualizados na interpretação do tema, mas familiarizados com ele, incapazes de cometer os frequentes deslizes dos atuais resenhadores de livros, que lamentam a falta de tradução de obras que já foram traduzidas, mas num horizonte menos próximo da sagrada biografia desses resenhadores, na qual pretendem estar plantado o umbigo do mundo.

Quem conviveu com José Lino Grünewald tomou homéricos porres com ele, aprendeu tudo o que se podia saber sobre o tango, teve acesso a percepções cinematográficas insuspeitadas, trocou desaforos futebolísticos e usufruiu primorosas traduções que ele fez nos intervalos de tantas atividades, como Os Cantos, de Ezra Pound, um labirinto pelo qual tateávamos até ele iluminar aquelas cavernas mitológicas com a luz de uma erudição formada nas ruas, não num tugúrio acadêmico.

Nosso intelectual combatia em praça pública, possessivo, trágico, miserável, mas essencial. Hoje, está privatizado em universidades públicas, prisioneiro atrás das grades de ouro da carreira, delimitado entre seus pares, desnatado, desnaturado, um alimento congelado. A nossa imprensa com ele, é seu espelho, seu outro igual, nesta era em que a xerox significou para o livro o que a fotografia é para os índios isolados: uma sugadora da alma.

Discussão

2 comentários sobre “Arquivo JP (37)

  1. Lúcio,

    Este texto foi de 2000. Como você avalia a situação hoje. Parece que há uma revista nova tentando resgatar a cultura das resenhas literárias. E a Piaui?

    No exterior, a cultura continua. Pois tanto o New York Review of Books e o London Review of Books continuam sendo publicados normalmente. Nos jornais diários, as resenhas, tal como as reportagens, hoje são mais compactas, talvez pelo tempo limitado de atenção que um leitor concede a cada assunto que lhe interesse.

    Por fim, você não acha que está havendo uma transição na forma pela qual as pessoas interagem com as estórias criadas por outros? No passado as estórias eram orais e assim foi até a criação da imprensa. Depois a literatura se tornou o mechanism dominante de como contar estórias. Depois surgiu o cinema e a televisão, que, de alguma forma, competiram com a literatura. Hoje fala-se que o futuro das estórias está nos espaços virtuais de 3D, onde o espectador poderá até mesmo interagir com os personagens, tal como existe, de forma simples, em alguns jogos eletrônicos.

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    Publicado por Jose Silva | 9 de agosto de 2018, 10:17

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