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Estrangeiros, Grandes Projetos, Minério, Multinacionais

Do Amapá a Carajás: a mesma história

Em janeiro de 1957 o primeiro navio desatracou do porto de Santana, no Amapá, próximo à foz do rio Amazonas, carregando 20 mil toneladas de manganês destinado aos Estados Unidos. Quatro décadas depois da decadência da borracha, da qual foi a maior produtora mundial até 1912, a Amazônia voltava ao mercado internacional com uma nova mercadoria valiosa.

A responsável pela exploração de uma das mais ricas jazidas de manganês do mundo era a Icomi, que só tinha cinco anos de vida quando começou a implantar o primeiro dos “grandes projetos”, em sociedade com a empresa que mais consumia manganês nessa época, a Bethlehem Steel, dos Estados Unidos.

A concessão dada pelo governo federal era de 50 anos, mas antes do final prazo contratual não havia mais minério com teor comercial e a Icomi devolveu a mina e todo patrimônio que construíra para desenvolver a mineração para um Estado que mudara desde o início da atividade, mas não chegara ao progresso prometido.

Esse ciclo se fechou sem sequer um registro na imprensa ou interesse da sociedade. No entanto, mais do que nunca, as lições dessa experiência são importantes e extremamente úteis.

Hoje, 60% da receita da Vale, a segunda maior empresa do Brasil e a terceira mineradora do mundo, com a extração de minério de ferro provém do seu sistema Norte, entre o Pará e o Maranhão, a partir da província mineral de Carajás, a maior de todas. Minas Gerais perdeu sua tradicional liderança.

A rentabilidade proporcionada pelo domínio do minério mais rico do planeta deverá permitir à Vale encerrar este ano com um crescimento de 7% no faturamento e 34% no lucro líquido, segundo as previsões do Credit Suisse.

Os minérios e derivados, que já são responsáveis por 85% das exportações do Pará, o quinto maior exportador do Brasil e o segundo em saldo de divisas, deverão crescer ainda mais. A Vale se preparou para isso.

A paralisação do Brasil por 12 dias em maio, provocada pela greve (ou locaute) dos caminhoneiros, abalou toda a economia nacional. A Vale foi uma rara exceção a esse quadro geral de retração, principalmente para as maiores corporações do país.

O sistema logístico da empresa é de tal magnitude que ela contornou os bloqueios nas rodovias através das suas ferrovias, que vão do interior para o litoral, sincronizando as atividades das suas unidades de produção. Não só n não teve perdas como cresceu.

No segundo trimestre deste ano a antiga estatal bateu seu recorde, tanto de produção quanto de venda de minério de ferro, concentrada nas exportações, especialmente para a China. Seu valor de mercado foi a 300 bilhões de reais, superando o Itaú e a Petrobrás. Ficou abaixo apenas da cervejeira Ambev. Em dólares, foi a 73 bilhões, apenas sete a menos do que as duas maiores do mercado, a BHP Billiton e a Rio Tinto, com US$ 80 bilhões cada uma.

A tendência, porém, é favorável à mineradora brasileira. Seus papéis tiveram rentabilidade maior do que as duas concorrentes e prometem manter seus índices. A mina S11D, em Carajás, que custou US$ 14 bilhões, entrou em operação. Já é a segunda mina mais produtiva da empresa. Logo será a primeira.

No 1º semestre deste ano, o sistema Sul/Sudeste produziu 100 milhões de toneladas contra 87 milhões de toneladas de Carajás. Mas no 2º trimestre a proporção se inclinou para a extração no Pará, que produziu 46 milhões de toneladas contra 50 milhões de toneladas em Minas Gerais, tradicional fonte de minérios e líder absoluta até surgir Carajás.

Enquanto a produção no Sistema Norte cresceu 11,4%, o incremento total foi de 5,3% no último trimestre, apontando para a direção da nova liderança em minério de ferro, pondo fim a um longo reinado de Minas.

A empresa quer reduzir progressivamente a produção de minério de ferro de baixo teor e dar preferência aos produtos que classifica como premium. O minério pobre, que representava 77% do total no ano passado, neste ano já caiu para 68%. E persistirá nessa tendência.

O minério de fero paraense possui teor de 65% de hematita pura contra 62% do australiano, que é o padrão de valor no mercado internacional. Graças ao prêmio de qualidade, a Vale ganhou US$ 114 milhões a mais no 2º trimestre.

Significa que rapidamente o S11D se pagará integralmente em curto prazo, começando logo a mudar o perfil dos produtos da Vale e contribuindo para a sua maior rentabilidade, com reflexos sobre o seu valor de mercado e a cotação dos seus papéis em bolsas do mundo inteiro.

A melhoria da qualidade do produto não implicará em redução do volume físico da produção. Pelo contrário. No 1º semestre a Vale extraiu 178 milhões de toneladas. A previsão para o 2º semestre é de 200 milhões, mas poderá ir além, superando a meta de 390 milhões de toneladas.

Para que a operação seja possível, o trem de cargas de Carajás foi duplicado. Passou de 330 para 660 vagões, de 3,5 mil metros para 7 mil metros de extensão, o maior do mundo, superando os rivais australianos.

Agora, cada trem pode carregar 68 mil toneladas. Com 10 viagens diárias, são 680 mil toneladas. Em um ano, 230 milhões de toneladas. Ao preço de US$ 50 a tonelada, abaixo do que está sendo praticado no momento, são mais de US$ 11 bilhões (em torno de R$ 40 bilhões). Ou US$ 34 milhões, na forma do melhor minério de ferro do mundo, saindo todos os dias pelo super-trem. Uma montanha de ferro sendo carregada de Carajás para o exterior, com destino principal na distante China. Cada vez mais minério, cada vez mais rico.

Este é o tamanho da Vale no Pará. Qual o tamanho do Pará na visão da Vale? Um local propício para extrair rapidamente os seus minérios, aumentando o faturamento e mais ainda o lucro, com isso expandindo seus investimentos e sua presença mundial?

Sinais de alerta, que fazem lembrar do exemplo do Amapá, já começaram a aparecer. A produção da mina do Azul, em Carajás, a principal fonte de manganês no Brasil, tão rica quanto a da Serra do Navio, ficou, no 2º trimestre deste ano 26% menor do que no mesmo período de 2017, principalmente diante do teor de minério da jazida, que resultou “em uma redução de recuperação em massa do produto”.

A mesma queda foi registrada na extração de níquel na mina do Onça Puma, pelo mesmo motivo: teores menores no minério. Situação que também se repete na mina de cobre do Sossego. Apenas no Salobo a produção cresceu.

Um ciclo que se encerra em cada uma dessas jazidas, igual como no Amapá?

O governo local chegou a preparar um plano de industrialização, prometendo que desta vez a mineração resultaria “num oásis de paz e prosperidade”. Ela não repetiria “a triste história de outrora, resumida em esgotamento e miséria”.

Depois da extração de 19 milhões de toneladas de manganês de alto teor, ao longo de quatro décadas, o Amapá era pouco mais do que “esgotamento e miséria”. Nada de novo, portanto, na linha das regiões coloniais da Terra.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

4 comentários sobre “Do Amapá a Carajás: a mesma história

  1. O Caso UFRA:
    Mulheres pegaram a moda de fazer e distribuir “nudes” pelas redes sociais, para depois se escandalizam com certas reações contrárias. Respaldadas nas “letras das leis”, elas garantem que apelar para a nudez é um direito e ninguém deve criticá-las ou investir de modo a parecer assédio e importunação seual. É a consagração nacional da cultura “Geisy Arruda” que expõe a sensualidade – e a nudez feminina em qualquer instituição pública ou privada, fazendo disso uma ferramenta de promoção social a despeito de quaisquer normas, regulamentos e convenções sociais ou religiosas.
    Que sigam em frente no país da bandalheira.

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    Publicado por J.Jorge | 10 de agosto de 2018, 13:37
  2. Na ditadura ou na democracia, mineração deixa apenas o buraco.

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    Publicado por Mucura preta. | 10 de agosto de 2018, 15:06
  3. Mais um exemplo concreto de que capitalismo sem regulacão inteligente não funciona aqui e em nenhum lugar do mundo. Sábios são os noruegueses que cobram alto das empresas para extraem o seu petróleo e usam os recursos para criar um fundo soberano que custeia a melhoria da qualidade de vida de todos os habitantes de lá. Portanto, não supreende que eles estejam entre os países com a melhor qualidade de vida do mundo.

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    Publicado por Jose Silva | 10 de agosto de 2018, 19:25

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