//
você está lendo...
Economia, Minério, Multinacionais

Itabira: Carajás amanhã

Itabira, em Minas Gerais, hoje, é Carajás, no Pará, amanhã. As famosas jazidas de minério de ferro de Itabira só irão durar mais 10 anos. Em 2028, depois de 80 anos de exploração, elas estarão exauridas, sem interesse comercial. Os buracos abertos pela extração do minério, que revoltaram o mais famoso itabirano, o poeta Carlos Drummond de Andrade (“Itabira é um retrato na parede e como dói”, escreveu ele), estarão transferidos para Carajás. Mais 30 anos depois de Itabira, o S11D, o melhor depósito de ferro do mundo, também estará se esgotando, após o maior investimento da mineração.

Reproduzo a seguir o material divulgado por Marcos Caldeira, editor de um pequeno jornal alternativo, sugestivamente denominado O Trem, heroicamente editado em Itabira. Apesar da extensão, decidi manter a íntegra do texto para que os desatentos paraenses se conscientizem do que Carajás representa para o Estado – e o que não representa.

O TREM já entrevistou grandes escritores, historiadores, cientistas, cineastas e jornalistas, brasileiros e europeus, e nunca teve problema como o surgido, recentemente, com o gerente geral da Vale em Itabira, Rodrigo Chaves, que topou dar entrevista ao jornal, mas depois desistiu de responder às perguntas. Abandono de entrevista

Antes de contar o ocorrido, convém explicar que, sim, O TREM pôs em fogo alto a argumentação sobre a atuação da empresa Vale em Itabira, desde que cravou para 2028 a data para o fim do minério explorável na cidade onde foi fundada em 1942. O assunto é gravíssimo e exige discussão permanente, pois a economia local é dependente do minério.

Informação crucial para o destino de Itabira, mas a mineradora ficou caladinha na cidade, ocultou-a num turbilhão de dados em volumosos e herméticos, quase impenetráveis, relatórios técnicos, como o Formulário 20-F, apresentado, por exigência do mercado, à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Nada comunicou ao prefeito, aos vereadores, à imprensa. Não teve clareza com Itabira, foi alta traição.

A companhia tocou no assunto às claras somente após a notícia circular em Itabira – O TREM a encontrou num fechado site sobre mineração, direcionado a quem é do ramo, e a fez circular imediatamente em suas redes sociais. Semanas depois, a Vale deu entrevista coletiva na prefeitura, alegou estar preocupada com o destino do município e informou que participará de comissão municipal para estudar alternativas econômicas para Itabira. Preocupada com Itabira, Vale? Por que, então, não deu essa notícia grave à população antes da imprensa? Que interesse por Itabira é esse que omite da população dado determinante para seu futuro?

A partir daí o assunto mineração – sempre presente no jornal – subiu mais no interesse editorial dO TREM, que deseja ouvir todo mundo que tem informação relevante e que possa somar entendimento.

O jornal comunicou à Vale o interesse em entrevistar o diretor Antonio Padovezi, que formou raízes em Itabira e está domiciliado no Pará, o estado, não o bairro itabirano, onde, aliás, sua esposa tem clínica de odontologia. Resposta do assessor de comunicação da Vale Leandro Grandi: “O porta-voz da Vale sobre exaustão de reservas minerais em Itabira é o gerente-executivo do complexo Itabira, Rodrigo Chaves. Te interessa enviar as perguntas por e-mail para que o Rodrigo responda?”

O TREM desejava ouvir Antonio Padovezi, presencialmente, mas a Vale cercou o homem e ofereceu Rodrigo Chaves, e apenas por e-mail. É como querer entrevistar Roberto Carlos, mas indústria do entretenimento sentenciar: “Dou-lhe Amado Batista, é ele ou nada”. Pelo visto, será vão o sonho de conversar com Frank Sinatra, digo, com o presidente da Vale, Fabio Schvartsman. Sim, foi a resposta ao assessor: O TREM quer entrevistar Rodrigo Chaves, ainda que por e-mail.

O jornal formulou as perguntas, enviou a Rodrigo Chaves e dias depois recebeu da Vale apenas uma nota gelada e, pior, sem responder a várias indagações. O TREM voltou à Vale, em contato com outro assessor: “Christiano Borges, boa tarde, o combinado, como a própria Vale sugeriu, foi entrevista com Rodrigo Chaves. Mandei as perguntas, mas só recebi uma nota seca, sem menção de quem respondeu. A quem devo atribuir essas informações passadas ao jornal, visto que ainda não inventaram entrevista com sujeito oculto? E sobre as perguntas não respondidas? Favor assinalar a alternativa correta: ( ) A Vale responderá? ( ) A Vale não responderá? Minha intenção era publicar a entrevista hoje, mas adiarei até termos um material jornalístico compreensível e de qualidade”.

Calou-se e deu o assunto por encerrado, deixando várias perguntas sem respostas. Foi como se O TREM e a Vale jogassem xadrez, mas subitamente a mineradora decidisse dar um pontapé no tabuleiro e sair correndo, deixando o parceiro de jogo sozinho, catando peças no chão. Não se trata de caso isolado. A empresa tem se negado a responder a numerosas perguntas do jornal, indo na contramão do que prega em suas comunicações: diálogo franco, compromisso social, respeito à população das cidades onde atua, blablablás e trololós. O jornal acaba de criar a seção Perguntas dO TREM que a Vale não Responde.

EIS, NA ÍNTEGRA, AS PERGUNTAS QUE O TREM FEZ AO

GERENTE RODRIGO CHAVES, MAS ELE NÃO RESPONDEU

O TREM – Por que a empresa Vale não passou a Itabira a informação de que as reservas minerais de Itabira se esgotarão em 2028?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – Quanto minério ainda há por explorar em Itabira até 2028?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – Em Itabira, muito se fala em dívida histórica da Vale com Itabira, pela épica destruição ambiental e outros fatores. Para o senhor, há mesmo essa dívida histórica?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – A dívida histórica foi quantificada no governo de Olímpio Pires Guerra. Auditoria profissional fez o levantamento e colocou preço. Com base nesse estudo, a prefeitura moveu dois processos contra a Vale, nos estertores da fase estatal da empresa. O processo não prescreveu, tramita na Justiça. Qual a opinião do senhor sobre esse assunto?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – Em 2003, a Vale reuniu itabiranos na Acita e comunicou que pesquisas geológicas apontaram, na época, mais cerca de 75 anos de mineração em Itabira, o que mexeu com a economia local. A julgar por essa comunicação da Vale, teríamos ainda, pela conta de hoje, mais aproximadamente meio século mineração e não, como se diz agora, apenas mais 10 anos. Houve um erro crasso da Vale aí?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – A empresa Rio Tinto acaba de colocar em funcionamento um trem autônomo, sem condutor. A Vale pretende adotar esse modelo?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – A Vale prega, em sua propaganda, que mantém relacionamento respeitoso com as comunidades onde atua. Às 13h24 de 9 de maio, O TREM perguntou à Vale quais foram os investimentos públicos feitos pela empresa em Itabira, informação importante para entender a atuação local da companhia. Às 10h44 de 18 de julho, a empresa respondeu isto: “A Vale não disponibiliza as informações de desembolsos gerais por município”. Sim, demorou dois meses e uma semana para responder que não responderá. O senhor considera isso modelo eficiente de relacionamento?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – A Vale é uma empresa boa para Itabira hoje?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – Itabira não tem local específico em que os itabiranos e turistas possam conhecer a importante história da empresa Vale em Itabira. Essa falha não significa que a Vale está desvalorizando sua própria história na cidade?

RODRIGO CHAVES – …

O TREM – Opinião de um empresário de Itabira sobre a Vale, publicada nO TREM há três meses: “Há os graves erros ideológicos da empresa, ou seja, valer-se da ignorância de vários governantes de Itabira. Eles, estudados e capazes, compraram muitos caciques da tribo com apitos e miçangas: uma pracinha aqui, outra ali, essas coisinhas. Isso revela ausência de uma visão estratégica, até mesmo em relação à substituição da própria empresa na economia da cidade”. Assunto importante. Poderia comentá-lo, por favor?

RODRIGO CHAVES – …

NOTA QUE A VALE PASSOU AO TREM APÓS DESISTIR DA

ENTREVISTA, COM COMENTÁRIOS DO JORNAL ENTRE PARENTÊSES

VALE: “Desde 2002, o relatório Form 20-F, que é publicado anualmente, indica exaustão das reservas de Itabira ocorrendo na década de 2020. O último levantamento indica a data provável para 2028. Os relatórios sempre estiveram disponíveis no site da Vale.”

(O TREM: balela para enganar desmiolados. A informação é crucial para Itabira e devia ter sido tratada às claras com a cidade, fora dos relatórios cheios de trechos herméticos, difíceis de compreender, quase impenetráveis. Relatório da Vale é grego para os políticos de Itabira. Cadê o tal diálogo franco pregado nas comunicações da empresa? Outra coisa: a Vale comunicou a Itabira, em 2003, com estardalhaço, que havia minério em Itabira para mais cerca de 75 anos, promovendo otimismo e passividade. Nome do funcionário da Vale que deu a notícia: José Francisco Viveiros, então diretor da companhia.)

VALE: “A Vale vai continuar em Itabira. A empresa está estudando possibilidades de manter atividades na cidade para além de 2028. Entre as possibilidades está a de continuidade das operações das usinas de Itabira para processamento de minérios produzidos em outras localidades”.

(O TREM: a frase “A Vale vai continuar em Itabira” tem a consistência de uma maria-mole. É um sonífero para acalmar a população e evitar pressão sobre a companhia. Ninguém tem condição de garantir a permanência da Vale em Itabira após o esgotamento de suas reservas minerais na cidade. Pode especular, mas garantir, não. Fazê-lo é irresponsabilidade. Não dá para cravar nem mesmo a presença da companhia em Itabira nos próximos 10 anos. Uma cordilheira de minério pode ser descoberta na Malásia e causar radicais alterações no mercado e também há a possibilidade de surgir um produto que torne o ferro secundário na indústria e o atire na obsolescência, como carta de papel após a internet. A Vale continuará em Itabira enquanto puder lucrar com Itabira. Quando não mais, juntará seus ferros, pegará o embornal e tchau.)

VALE: “A Vale sempre trabalhou para deixar um legado positivo para Itabira. As operações da Vale na cidade contam com 4.100 empregados, gerando massa salarial (Fopag) de cerca de R$ 14 milhões/mês. De acordo com dados da ANM, Itabira recebeu mais de R$ 182 milhões de Cfem entre 2015 e 2017. O ICMS gerado pela Vale para Itabira foi de quase R$ 240 milhões entre 2015 e 2017”.

(O TREM: a Vale está dizendo, nas entrelinhas, que o dinheiro que passa ao município em royalties e impostos é mal utilizado pela política, e está acusando a população de ser bunda-mole na cobrança por bons resultados. Com a Vale é assim: importa mais o que quer dizer nos arredores de suas comunicações do que na literalidade do que expressa. Nesse ponto, a empresa tem razão: sim, o dinheiro é mal utilizado pela política. Para ficar num exemplo gritante, um prefeito recente de Itabira gastou verba da Cfem, que deve ser usada na diversificação da economia, para pagar sepultamento de indigentes. Mas acrescente: o dinheiro que a empresa coloca no cofre da prefeitura em royalties e impostos é merrequinha pelo tanto que lucra em Itabira.)

VALE: “Além disso, uma série de ações foram feitas nos últimos anos, ajudando a colocar Itabira como importante pólo regional de educação e turismo. Investimentos como a implantação da Unifei estão entre as contribuições que a Vale já fez neste sentido”.

(O TREM: verdade. A Vale destinou cerca de R$ 50 milhões para equipar os laboratórios do campus itabirano da Unifei. Decisão acertada, inteligente. O TREM não pretende acusar só o lado perverso da mineração, tem espaço para o lado bom. Pode danar a fazer coisa boa para Itabira que terá o reconhecimento do jornal. Coisa grande, determinante, não venha com miçangas e lantejoulas.)

VALE “As discussões sobre o futuro da economia pós-mineração são importantes para todas as cidades que contam com a presença da atividade, independentemente da duração das reservas. A Vale já se comprometeu com o prefeito e com o presidente da Câmara de Vereadores a continuar a participar ativamente dessas discussões e, na medida do possível, dar apoio às iniciativas do grupo de trabalho criado”.

(O TREM: comprometeu-se, mas só depois que a notícia da exaustão mineral em 2028 vazou, graças à imprensa, e jogou Itabira num redemoinho de justificadas aflições. Antes, estava debaixo do calado. Veremos se essa comissão municipal será para valer mesmo ou artifício para enganar desmiolados. Falar nisso, cadê a tal comissão? Até agora, nada.)

Discussão

6 comentários sobre “Itabira: Carajás amanhã

  1. Espetacular a entrevista com o assessor que se cala. No ritmo atual do jornalismo brasileiro, mesmo com a fobia do tempo real, é criminoso esconder informações. O TREM está corretíssimo na busca da confirmação a respeito do esgotamento das reservas de ferro de Itabira. Acredito, Lúcio, que a Vale regrediu de vez em se tratando de comunicação. Em 1987, quando fui correspondente do Jornal do Brasil em São Luís, as respostas vinham rápidas e pontuais, mesmo quando ocorriam acidentes no mar, como foi o caso do naufrágio do navio coreano New Word, na Baía de São Marcos – um a mais na história de acidentes naquela área. Minha breve experiência com a busca de informações na Vale, pelo visto, produziu resultados positivos. O superintendente do Terminal Marítimo Ponta da Madeira era Cândido Cota Pacheco. Nada escondiam, tudo comentavam, mesmo que o tema fosse delicado para a empresa. Associo-me a você e aos que solidarizam com O TREM em sua incessante peleja para bem informar o povo de Itabira, de Minas e as próprias autoridades da República. No plano local, prefeito e vereadores devem, sim, receber todas as informações decorrentes do tal Formulário 20-F. É vergonhoso que norte-americanos recebam em primeira mão informações sonegadas ao perplexo povo itabirano. Deplorável a atitude dos que se curvam ao seus-Mercado e cospem no prato em que comem.

    Curtir

    Publicado por Montezuma Cruz | 17 de agosto de 2018, 11:58
  2. Corrijo: Cotta Pacheco.

    Curtir

    Publicado por Montezuma Cruz | 17 de agosto de 2018, 12:00
  3. Perdão, mais uma correção: se curvam ao deus-Mercado

    Curtir

    Publicado por Montezuma Cruz | 17 de agosto de 2018, 13:42
  4. Lúcio, o texto poderia até ser embalado numa cápsula do futuro, para ser aberto futuramente no dia do fechamento de Carajás. Se houve até certo tempo uma concessão à exploração mineral predatória neste país, já é tempo de se rediscutir no congresso o assunto, com a população cobrando não apenas os impactos ambientais e econômicos locais, mas sobretudo uma nova política nacional voltada para a sustentabilidade do futuro deste país sem a dependência deste ciclo de matéria prima mineral. Ah! para isso temos que promover uma severa renovação dos representantes no congresso; ou continuaremos os “bundas-moles” de sempre, acreditando que os pegadores de propinas vão nos representar como deveriam.

    Curtir

    Publicado por J.Jorge | 17 de agosto de 2018, 15:16
  5. Eleições 2018:
    Estou tentando dimensionar a participação de médicos proprietários de clínicas populares na política. A cada eleição surgem novos nomes, na capital e no interior. Em minha leitura, vejo um aumento de demanda por serviços fora do âmbito (oficial) do SUS, principalmente na atenção básica, que é notoriamente uma das piores do Brasil; o curioso é que a maioria destes atua como doublê de médico do SUS e médico popular. Há casos em que não se trata de apenas um único e modesto estabelecimento na periferia; a CP é apenas o acesso a uma rede de atendimentos direcionados a outros estabelecimentos (onipresença existe), e não raro com o reforço de meios obtidos nas relações entre o público e o privado. Nove em cada dez usuários do SUS conhece a importância do “conhecimento”.

    Curtir

    Publicado por J.Jorge | 18 de agosto de 2018, 08:32

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: