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Imprensa

O jornalismo sem Octavinho

Com profunda consternação acabo de saber da morte de Octávio Frias Filho. Impacto maior por sua idade: 61 anos. Por sua morte sofrida (câncer no pâncreas) e rápida (menos de um ano depois do diagnóstico). E pelo dano que o seu precoce desaparecimento causa ao jornalismo brasileiro e à própria vida pública do país. No comando da Folha de S. Paulo por 34 anos, a partir dos 26, cinco anos depois de ter chegado à redação, ele realizou uma façanha rara na profissão: imprimiu a sua imagem e personalidade ao jornal. A Folha era Octavinho. No que tem de bom e de ruim, de elogiável e criticável.

Ele apagou o passado comprometedor do jornal, chefiado com mão forte pelo pai, Octávio Frias de Oliveira, sem entrar em conflito com ele. Pelo contrário, outra da sua realização foi ter substituído o patriarca sem confrontá-lo. Inteligente e de arguta visão empresarial, o pai compreendeu o papel do filho, que demarcou as duas eras assumindo a liderança na imprensa pelas diretas-já para a presidência da república, em 1984. A promíscuae vergonhosa  aliança da Folha com a ditadura militar virou passado remoto. O jornal desbancou O Estado de S. Paulo da liderança do jornalismo, tanto no aspecto estritamente jornalístico como empresarialmente: passou a vender bem mais e a faturar acima do concorrente direto de família quatrocentona, que desdenhava os plebeus.

Mesmo tendo assumido por sucessão uma empresa familiar, Octavinho provou sua capacidade pessoal para ocupar a posição como raros donos de jornais: sabia escrever, era verdadeiramente jornalista. Mais até: tinha aspirações literárias enraizadas, fato incomum entre jornalistas. Lia bastante e escreveu seis livros, quatro deles peças teatrais. Não era tão convincente, mas o desempenho enriquecia a sua biografia. Deu motivos suficientes para lamentarmos a sua morte.

Nunca trabalhei na Folha e durante 18 anos seguidos estive no Estadão. Fui surpreendido, em 2016, por um convite para participar de um seminário comemorativo aos 95 anos do jornal, em São Paulo. Quando caminhava do distante hotel até o auditório, nos Jardins, encontrei Octavinho. Ele deixara o carro a umas quatro quadras e ia sozinho a pé, com passadas largas e enérgicas, à maneira de um atleta, embora de paletó e gravata. Nem parecia o poderoso dono do jornal que ainda era o de maior circulação no Brasil. Abordei-o e ele me acolheu simpático.

No meio da conversa, perguntei-lhe se ele sabia que seu pai quase comprara o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, o mais influente no país até a IV República. Ele não sabia. Contei-lhe os detalhes, concluindo pelo erro que Niomzar Moniz Sodré Bittencourt cometera ao passar o jornal, herdado do marido, Paulo Bittencourt, para os empreiteiros da família Alencar, que estavam empenhados na campanha pela candidatura do ministro Mário Andreazza à presidência. Niomar achava que voltaria ao Correio depois do arrendamento, por isso não quis entregar o jornal a um concorrente direto. Frustrada a candidatura de Andreazza (“um general não bate continência a um coronel”), os arrendatários mataram o Correio.

Não sei se o encontro influiu no tratamento que a Folha deu à minha participação no seminário, com entrevista, matéria extensa e uma foto minha bem aberta na edição do dia seguinte.

Obrigado, Octávio Frias Filho.

Discussão

26 comentários sobre “O jornalismo sem Octavinho

  1. Lúcio, que pena não termos um personagem paradigmático na imprensa paraense. O Bom Dia Brasil exibiu extensa reportagem sobre Octávio Frias (talvez por causa, também, dos negócios que o Grupo Globo manteve com o Grupo Folha na construção do Valor Econômico). Fiquei também pensando no prejuízo da imprensa brasileira. E do país. A democracia brasileira deve, sem dúvida, ao jornalista que, com certeza, bebeu noutra fonte: Cláudio Abramos, citado por ele numa entrevista recuperada pela matéria do Bom Dia.

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    Publicado por NELIO PALHETA | 21 de agosto de 2018, 09:55
  2. Num almoço na “Folha”, em 2002, Frias perguntou formalmente ao Lula como ele se atrevia a se candidatar à Presidência da República, sem ter curso superior e sem falar inglês. Uma baita grosseria, bem ao gosto da típica arrogância de Otávio Frias. Pau da vida, Lula não respondeu. Ou melhor, respondeu por atitude: levantou-se e foi embora, dizendo sem nada falar.

    Enquanto esteve na presidência, Lula se recusou a ter qualquer contato com Frias ou com quem quer que ocupasse cargo de direção na FSP. Nos eventos em que o Chefe do Executivo era convidado pelo jornal, Lula se fazia representar pelo sub, do sub, do sub…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 21 de agosto de 2018, 10:42
  3. Enquanto isso a grande província se cala sobre a atitude da ONU, referente à Lula.

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    Publicado por Luiz Mário. | 21 de agosto de 2018, 10:52
  4. O motivo de seu destaque no painel da conferência da FSP com uma foto, retrata, fielmente, o que vc representa para o jornalismo brasileiro e que, infelizmente, muita gente aqui da terrinha procura ignorar.

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    Publicado por José de Arimatéia M. da Rocha | 21 de agosto de 2018, 11:02
  5. Estaremos lascados quando o LFP partir dessa pra melhor. Poucos jornalistas nesse estado tem compromisso com informação isenta e responsabilidade.

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    Publicado por Juju | 21 de agosto de 2018, 11:26
    • Colocavam na boca de Roberto Marinho a frase, literalmente lapidar: “Quando eu morrer, se eu morrer…”. Como não sei se o que me espera é melhor, vou me agarrando, por enquanto, a este vale de lágrimas. Menos lacrimoso com a sua vontade, graças a Deus.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 21 de agosto de 2018, 18:40
      • É bom mesmo. Porque depois da morte não há absolutamente nada. A matéria do seu corpo retornará a natureza e continuará sendo reciclada para sempre, mas apenas como átomos e não como LFP. Depois de uma semana e pouco de lamentações dos mais chegados, você será logo esquecido pela maioria das pessoas. Você será relembrado somente de vez em quando quando um pesquisador qualquer ler o que você deixou. A vida é assim: apenas um brevíssimo pulso de luz em um universo infinito.

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        Publicado por Jose Silva | 22 de agosto de 2018, 08:46
  6. Realmente é lamentável a morte de um jornalista que ocupa um lugar de liderança , tão jovem e ativo . Eu gosto da Folha . Especialmente das reportagens sobre o cotidiano e o espaço que oferece para os leitores se manifestarem , escrevendo artigos e opiniões.

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    Publicado por Marly Silva | 21 de agosto de 2018, 11:54
  7. Perdemos um grande brasileiro. Otávio gostava da pluralidade. Quem forma opinião é o leitor. Não é redação do jornal. Isso é respeito.

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    Publicado por Marcelo (@omarcelolopes) | 21 de agosto de 2018, 17:44
  8. Lúcio,
    É verdade, sim, que a FSP deu destaque ao Lula. E, se há algum grande jornal brasileiro com um mínimo de imparcialidade partidária, sem dúvida que é a Folha. É o único grande jornal brasileiro onde é possível ler duras críticas à linha política do próprio jornal.

    À época do acordão pra garantir a reeleição do FHC, era possível ler, nas páginas da FSP, uma longa análise do ombudsman acusando o jornal de “fernandohenriquismo”.

    Tudo isso é verdade. Mas também é verdade o episódio do almoço, tal como relatei acima. E é, também, verdade, que Otávio Mesquita era extremamente vaidoso e arrogante. No fundo, tinha desprezo por boa parte das pessoas que, agora, o elogiam, sem tê-lo conhecido pessoalmente. É um hábito bem brasileiro, “canonizar” um poderoso logo que ele morre.

    Quanto à conduta da FSP, que já reconheci expressamente, é coisa da democracia.

    Como disse Millor, na tirania, o mais forte faz o que quer. Na democracia, o mais forte também faz o que quer, mas deixa o mais fraco reclamar…

    É o “jus esperneandi” a que gostava de se referir o filósofo grego levemente italiano, Rômulo Maiorana, o pai.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de agosto de 2018, 08:30
  9. Uma das mais bem feitas análises sobre o PT, eu li na Veja, logo após a posse do Lula, em 2003. Dentre muitas outras coisas, a análise destacava o fato de que o PT emergira diretamente dos movimentos sociais, que atuam basicamente por meio de mobilizações e negociações. Por essa razão, segundo a tal análise, a negociação estava no DNA do petismo.

    É bem isso. No PT desde a sua fundação, muitas vezes eu deplorei a inevitável tendência partidária de tentar resolver tudo pela via negocial. Sempre achei que um pouco de confronto só faria bem ao partido e ao país. A meu pensar, a negociação a qualquer custo resultou no mensalão & adjacências.

    Mas, Lúcio, o que fez a Veja se colocar frontalmente contra o Lula, foi este ter fechado a torneira que alimentava o esquemão do Grupo Abril na área de educação, com especial destaque para os livros didáticos (mas não se limitando a eles). A partir daí o Grupo Abril começou a encolher. Raro foi o ano, a partir daí, que o grupo não fechou pelo menos uma empresa, num momento em que a economia brasileira bamburrava. Um monte de gente crescendo, e o Grupo Abril encolhendo. De 2003 a 2012, mais ou menos, o grupo passou de 18 empresas para apenas 5.

    Foi por isso, a meu ver, que os Civita passaram a devotar um ódio mortal a Lula.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de agosto de 2018, 09:12
  10. E, salvo enorme engano meu, a torneira que enchia o tanque dos Civita foi fechada, para mui grande contrariedade do senhor Cristovam Buarque, o cavaleiro da triste figura que, no início do primeiro mandato do Lula, ocupava o cargo de Ministro da Educação (do qual foi demitido por telefone).

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de agosto de 2018, 09:21
    • Elias,

      Discordo cordialmente. Cristovam sempre foi honesto e verdadeiramente preocupado com a educação (basta ver o que ele fez como governador e parlamentar). Ele, ao contrário, do Lula, queria priorizar a educação básica ao invés da educação superior. Esta foi a divergência principal que culminou com a saída do Cristovam. O tempo e os indicadores mostraram que o Cristovam estava mais do que correto.

      De qualquer forma, quem tinha algum orgulho próprio no PT acabou pulando fora da nau depois do escândalo do mensalão e de várias decisões equivocadas do iluminado durante o seu primeiro mandato.

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      Publicado por Jose Silva | 22 de agosto de 2018, 10:58
  11. Caro José,

    Lei eleitoral é superior à Lei Magna?

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    Publicado por Luiz Mário. | 22 de agosto de 2018, 12:02
  12. José,
    Por acaso, acompanhei de perto a exoneração do Luiz Araújo, pelo Cristovam Buarque. Não teve nada a ver com educação básica. Teve a ver com apoio de Buarque a IES particulares, em detrimento às IES públicas federais.

    Quanto ao mais, é bom não esquecer que, na gestão Lula — sem nada a ver com Cristovam Buarque — o FUNDEF foi transformado em FUNDEB, isto significando a incorporação da Educação Infantil, não mais se limitando, portanto, ao Ensino Fundamental. Os recursos destinados a esse fundo mais que triplicaram em relação ao FUNDEF. Se isso não é priorizar a educação básica, então não entendo mais nada.

    Agora, é claro que Lula deu especial destaque à criação de novas universidades públicas. Eu era garoto quando foi criada a primeira universidade pública paraense, a UFPa. Mais de 30 anos depois. o Pará continuava a ter uma única universidade federal. Lula mudou radicalmente esse quadro, no Pará e em outras unidades da Federação. Não creio que seja uma boa um paraense discordar disso, independentemente da preferência partidária.

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 22 de agosto de 2018, 14:56
    • Elias,

      Obrigado pelos esclarecimentos. O que eu soube dos bastidores foi uma outra história.

      Sobre as universidades públicas paraenses. O Lula criou de fato novas universidades ou ele apenas fragmentou a que já existia? Há gente que diz que as “novas” universidades públicas paraenses até hoje, dada as precárias condições estruturais, não passam de campi avançados de uma universidade que possa usar realmente ostentar tal nome.

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      Publicado por Jose Silva | 22 de agosto de 2018, 16:19
    • Encontrei esse trecho nos jornais de 2004: “ Na conversa por telefone, Lula alegou a Cristovam que o está demitindo porque a reforma universitária pretendida pelo governo necessita de alguém de fora do ambiente acadêmico”. Qual reforma foi feita? Se havia alguma planejada, ela foi abortada. Alguém pode adicionar mais informação?

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      Publicado por Jose Silva | 22 de agosto de 2018, 20:33
  13. Viva às redes sociais! Sem elas a falida retórica, que sempre serviu à corrupta elite, para a manutenção do status quo, não seria revelada.

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    Publicado por Luiz Mário | 23 de agosto de 2018, 10:34
  14. José,
    Há, na web, farto material sobre a evolução da política educacional brasileira. Torna-se relativamente fácil identificar o direcionamento estratégico de tal ou qual governo.

    Vou apenas exemplificar, primeiramente usando dados extraídos do Boletim Legislativo nº 26, de 2015. Trata-se da aplicação de recursos federais no FIES e no FUNDEF/FUNDEB. As informações financeiras são em R$ milhões de 2014.

    I – Recursos federais aplicados no FIES

    2004: R$ 1.138, 0,03% do PIB e 0,19% da Receita Líquida (RL) da União
    2007: R$ 1.149, 0,03% do PIB e 0,15% da RL
    2010: R$ 1.211, 0,02% do PIB e 0,12% da RL
    2014: R$ 13.769, 0,25% do PIB e 1,36% da RL

    II – Recursos federais aplicados no FUNDEF/FUNDEB

    2004: R$ 832, 0,02% do PIB e 0,14% da RL
    2007: R$ 2.984, 0,07% do PIB e 0,39% da RL
    2010: R$ 2.421, 0,15% do PIB e 0,75% da RL
    2014: R$ 10.862, 0,20% do PIB e 1,07% da RL

    Observe que, no governo Lula, os recursos destinados ao FUNDEF/FUNDEB em relação ao PIB, saltaram de 0,02% em 2004, para 0,15% (7,5 vezes). Do ponto de vista da Receita Líquida da União, a relação é de 5,4 vezes (de 0,14% em 2004 para 0,75% em 2010).

    Se isso não significa priorizar, não faço mais a menor ideia do significado do termo.

    Na gestão Dilma, houve um significativo aumento das aplicações federais em educação, e uma parcela significativa — aliás, majoritária — dese aumento foi direcionada ao ensino superior. Em 2014, a destinação de recursos ao FIES voltou a ser superior ao FUNDEB.

    Isso não significa que as aplicações no FUNDEB refluíram. Observe que elas saltaram de R$ 2,4 bilhões em 2010, para 10,9 bilhões em 2014, ou seja, um aumento de 354,2%. No mesmo período, a destinação de recursos ao FIES passou de R$ 1,2 bilhão para R$ 13,8 bilhões, i.é., aumento de 1.050%.

    Mesmo sem significar refluxo no FUNDEB — já que as aplicações nesse fundo cresceram mais que proporcionalmente em relação à inflação, ao PIB, à Receita Líquida da União e ao escambal da Bahia — é notória a maior ênfase conferida pela gestão Dilma ao ensino superior.

    Só pra não perder o hábito de falar mal do Temer, uma comparação (agora em R$ milhões correntes): os recursos destinados ao FUNDEB passaram de R$ 13.287 em 2015, para R$ 13.674 em 2016. Aumento de 2,9%.

    Comparar essa mixórdia com os “anos petelhos” é até covardia. Pura sacanagem!

    O Lúcio Flávio é uma das poucas pessoas inteligentes neste país que, sinceramente, acredita que a Dilma foi pior do que o Temer (a Miriam Leitão não vale, porque é opinião paga). Não é que a Dilma tenha sido boa, antes pelo contrário… o Temer é que é péssimo!

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 23 de agosto de 2018, 12:15

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