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Imprensa, Política

O pior vem aí?

Jair Bolsonaro flutua em torno de 20% das intenções de voto nas pesquisas já divulgadas sobre a corrida eleitoral à presidência da república. Deve ter mantido esse índice depois da entrevista de quase meia hora que concedeu ontem à TV Globo, no Jornal Nacional. Seus seguidores devem ter consolidado a sua convicção de que ele é mesmo o melhor, que não se curvou aos dois entrevistadores, fustigou a Globo e não teve papa na língua ao dizer o que pensa. Venceu o debate.

Venceu mesmo, graças à fragilidade de William Bonner e Renata Vasconcellos. São dois excelentes apresentadores de televisão, mas deficientes jornalistas. Seguindo seus roteiros, como dois autômatos diante do teleprompter, não tiveram a capacidade de improvisar, rever suas prioridades, ajustar a sua mira e responder à altura ao entrevistado. Pareciam decididos a forçá-lo a se ajustar ao script, como se – no ajuste da famosa piada – quisessem acertar previamente om os russos antes de derrotá-lo. Esperto e ladino (está na atividade política pelo dobro do tempo em que permaneceu na caserna, chegando a capitão do Exército), o deputado federal Bolsonaro refazia o trajeto e se saía bem ao partir da defesa (na qual é inconvincente) para o ataque.

Premeditando o tosco ataque que iria sofrer, decorou a parte essencial do editorial que Roberto Marinho assinou, em O Globo, defendendo a “revolução democrática redentora” de 1964, na qual teve parte ativa (juntamente com Júlio Mesquita Filho, de O Estado de S. Paulo). Só quando a ditadura eclipsara, ele admitiu publicamente o erro, confissão oportunista e de pouco valor para a história. Só depois da saia justa é que Bonner tentou explicar a contradição, mas sem poder redimi-la.

O candidato do PSL deu outras estocadas procedentes, como ao criticar a tática da empresa de obrigar seus empregados mais bem pagos a adotar a figura de pessoas jurídicas nas relações de trabalho para se livrar de custos sociais, tática adotada por toda grande imprensa.

Incorporando discurso constante dos petistas e que Lula e Dilma já fizeram, refizeram e desfizeram, conforme sua aproximação ou distanciamento da emissora, Bolsonaro acusou a Globo de viver “em grande parte de recursos da União. São bilhões em recursos da propaganda oficial do governo”, o que é verdade. Ele interromperá o procedimento padrão adotado por todos os governos, desde 1965, de se aliar ao maior conglomerado do país?

A insistente e primária tentativa dos dois apresentadores de forçar um confronto entre Bolsonaro e o já designado grão-vizir da economia sob o seu comando, se ele se tornar presidente da república, foi ridícula. Os dois poderiam ter se restringido a expor o candidato diante do público em função dos plenos poderes que desde agora transferiu a Paulo Guedes sobre todos os assuntos econômicos, que o ex-capitão desconhece (como a maioria dos militares, por deficiência curricular nos seus cursos de formação).

Claro que se ele se eleger, para desgraça do Brasil, poderá demitir o economista, do qual é totalmente dependente no momento. Não é essa contingência que está em causa. Ela é previsível. O que incomoda e assusta é o dia seguinte. Sabe-se o que pensa Paulo Guedes. Mas não se sabe o que pensa Bolsonaro sobre temas econômicos. Num país em grave crise, com a estagflação à porta, essa imponderabilidade é tão assustadora que, por este e outros motivos, o dólar está em 4,10 reais.

Para quem pensa o debate de ontem foi de arrasar. Talvez Temer não seja o pior depois de Dilma, que parecia insuperável na sua incompetência patológica. O pior ainda parece espreitar o Brasil.

Discussão

26 comentários sobre “O pior vem aí?

  1. A viabilidade eleitoral (até o momento) de Bolsonaro foi a herança mais concreta que Moro e os procuradores da Lava Jato deixaram ao Brasil. O ódio aos políticos automaticamente se fez o ódio à política. E múltiplos ódios se personificaram em Bolsonaro. E a notória incompetência? Não vem ao caso para os odiadores dos políticos, eleitores cativos do Capitão

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    Publicado por Kleber | 29 de agosto de 2018, 13:36
  2. Bolsonaro não tem a menor chance. Seu eleitorado é limitado e a personalidade e caráter do candidato não ajudam. Ele já atingiu o seu máximo. A rejeição à figura tanto no país como no exterior é enorme.

    Certamente seus seguidores tentarão usar robots e outros mecanismos para espalhar mentiras e leviandades pelo mundo virtual, mas creio que a sociedade brasileira já está vacinada contra esta estratégia idiota usada pela coligação PT-PMDB na última eleição.

    Não sei se estou sendo otimista demais, mas creio que, pelo andar da carruagem, que não há o mínimo risco de ter gente pior do que a dupla Dilma-Temer comandando o país no próximo mandato.

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    Publicado por Jose Silva | 29 de agosto de 2018, 14:21
    • Quem você acha que vai para o segundo turno com ele?

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      Publicado por Jonathan | 29 de agosto de 2018, 19:48
      • Difícil arriscar. Não tenho certeza se o Bolsonaro irá para o segundo turno. As coisas podem mudar muito com a campanha devido ao grande numero de indecisos. As eleições deste ano estão complicadas.

        Torço pelas Marina. Temos que ter alguém da Amazônia na presidência. Se não for desta vez, estaremos condenados para os próximos 100 anos.

        Se ela for para o segundo turno com o Bolsonaro ela ganha com certeza.

        Acho que as grandes questões hoje são se Lula transferirá votos para o poste dele e se o Alckmin terá alguma vantagem com mais tempo na TV.

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        Publicado por Jose Silva | 30 de agosto de 2018, 09:43
      • Primeiro diz que Bolsonaro não tem a menor chance. Depois, que não tem certeza se irá para o segundo turno. Torce pela Marina Silva, porque “temos que ter alguém da Amazônia na presidência”. Ó, raios, e o que tem a ver os alhos com os bugalhos em apenas duas linhas??? Quer mudar o país elegendo uma comunista “melancia”, uma eterna petista despreparada, mas com clorofila fazendo seu “teatro de tesouras” socialista, mulher que desde moça liderava invasão de propriedades, à mão armada!, e que hoje repete o mantra da “função social da propriedade”, senha para o Estado roubar o patrimônio dos outros e alimentar o mercado da tal “reforma agrária”? Valha-me Deus! Ou é muito sem noção ou não tem a menor compreensão dos reais problemas do País, sobre o que nos impede de crescer economicamente. Vive isolado na sua bolha.
        José Silva é mesmo um comunista desocupado, o papagaio de pirata do Lúcio, que não tem mais nada a fazer na vida a não ser dedicar todo tempo de sua vida a comentar suas baboseiras e puxar o saco do Lúcio. Quem paga essa conta desse desocupado?

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        Publicado por Anônimo | 30 de agosto de 2018, 11:09
      • Olha, o idiota voltou a baila, arrotando as tradicionais asneiras como sempre. Será que esta pessoa conseguirá mostrar um pouco de inteligência e civilidade algum dia? Tudo indica que não, pois o ódio ao diferente e a capacidade limitada de argumentar faz parte do DNA de tal criatura.

        Eu disse que o Bolsonaro não tem chance de ser presidente, pois ele tem 20% do eleitorado e uma alta rejeição. Entretanto, como a eleição está muito disputada ele pode chegar ou não ao segundo turno com esse 20%. Entendeu? ou precisa desenhar? Infelizmente o blog não permite desenhos. Senão eu faria este favor para você.

        Sobre os seus comentários imbecis sobre a Marina, nem preciso rebater. É mais um conjunto de asneiras inventadas por uma mente doente e decrépita que ainda não ainda percebeu que a Guerra Fria terminou.

        Lúcio, é claro que o anônimo tem ciúme de você. Por favor, dá um pouco de atenção para esta criatura carente.

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        Publicado por Jose Silva | 30 de agosto de 2018, 11:37
  3. A GLOBO, como membro e porta-voz da corrupta elite, criou um monstrinho que agora se volta contra seu criador. Não pode ser esquecido que a entrevista seria de 15 minutos, mas, como a emissora tentou, anteriormente, “esmagar” o Ciro Gomes, sendo, ao contrário, esmagado por ele, se viu obrigado a alongar o tempo para outros entrevistados e revelou o monstro que pariu.

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    Publicado por Luiz Mário | 29 de agosto de 2018, 14:37
  4. Excelente análise, Lúcio.

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    Publicado por Jonathan | 29 de agosto de 2018, 19:38
  5. Triste Brasil.
    Pior um pouquinho a cada golpe!

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    Publicado por Alonso Lins | 29 de agosto de 2018, 19:40
  6. Lúcido, a Globo anda falando muita bobagem. Hoje vi, na Globo News, uma entrevista feita pela Leilane com a Cristiana Lobo, com o único objetivo (foi o que me pareceu) de desmontar o Bolsonaro. Entre outras coisas, disse que ele não consegue falar sobre o programa de governo porque não foi ele quem escreveu. Nessa lógica, será que alguma vez o Lula redigiu algum programa? E as perguntas da Leilane, todas, pareciam ensaiadas para respostas programadas. Escolher quem? Tá difīcil votar.

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    Publicado por Ademar Amaral | 29 de agosto de 2018, 21:17
    • Ademar,

      Vote em qualquer candidato bem-intencionado. Não espere milagre pois a situação está ruim mesmo. Se alguém conseguir unificar o país novamente em torno de um projeto de longo prazo de desenvolvimento sustentável já será uma grande vitória.

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      Publicado por Jose Silva | 30 de agosto de 2018, 09:47
      • “desenvolvimento sustentável”, arrrrrghhhhhh… bocó-munista

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        Publicado por Anônimo | 30 de agosto de 2018, 11:12
      • Hum…o anônimo esqueceu de tomar a sua dose de pílulas hoje. Como é incapaz de entender qualquer conceito mais avançado, prefere atacar com asneiras. Que pobreza de mente e espírito.

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        Publicado por Jose Silva | 30 de agosto de 2018, 11:46
  7. Sobre economia e economistas: dois presidentes economistas sofreram impeachment e quebraram o país.

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    Publicado por jjss555 | 29 de agosto de 2018, 22:01
  8. Conjecturando, como propõe o texto:

    Estaria o milico de pijama usando a mesma estratégia de Hitler pra chegar ao poder: 1º – usa a falsa ideia de que é militar da ativa, como fez o nazista, 2º – usa a falsa ideia de que respeita todas as religiões, como fez o nazista, 3º – depois de eleito, mata quem não é da sua religião, como o nazista fez com os judeus? Será?!

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    Publicado por Luiz Mário | 30 de agosto de 2018, 10:15
    • Luiz,

      Sem estresse. O ídolo dos inconsequentes não chegará ao poder. Felizmente, a quantidade de homem, branco, machista, rico e inculto no Brasil é muito pequena para eleger um presidente.

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      Publicado por Jose Silva | 30 de agosto de 2018, 11:40
  9. a situação eleitoral do Brasil é TRISTE. Todos os candidatos parecem sair de um circo de horrores. São dérbios, mentirosos, ladrões , corruptos e comprometidos com o interesse do grande capital. E o pior é que a maioria da população do pais crê nesses sujos. A maioria da povo do Brasil é desprovida de inteligência cultural e política, pois apenas isso pode explicar sucesso do novo “messias brasileiro”, Bolsonaro , “o salvador da pátria” . O símbolo da pobreza política.

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    Publicado por José Maria | 30 de agosto de 2018, 11:01
  10. Caro José Silva,

    Viva às redes sociais!

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    Publicado por Luiz Mário | 30 de agosto de 2018, 14:11
  11. Lúcio, também não achei graça nenhuma na entrevista – meio decoreba, meio inquisitora – do jornal nacional. Por achar irritante mudei o canal da TV. A única conclusão a que se chega é que nenhum candidato se apresentou com 100% de conduta limpa segundo a Globo. Não compro nem divirjo desta postura, daí o meu voto nulo de sempre.
    Tive uma interpretação um pouco diferente da sua. Não achei o Bolsonaro tão sábio assim.
    O que o Bolsonaro tem de bom é que nasceu sob um mapa astral que o tipifica como pessoa humana muito prática e direta no trato com alguns problemas, o que dá uma idéia de que o interminável discurso dos intelectuais sobre a culpabilidade, se é da sociedade que maltratou o meliante, ou do próprio; ainda, se moços de 16, 17 anos podem barbarizar cidadãos honestos sob um manto da absolvição total em razão da imaturidade; questões estas que parte da sociedade quer mandar para a fogueira, junto com seus anjos do mal. O Bolsonaro, para quem pensa assim, é o candiato mais próximo de se tornar “o Cara”.

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    Publicado por J.Jorge | 30 de agosto de 2018, 23:29
    • Não existe ninguém 100%. Não existe o milagreiro, o “cara”. O último a ser tachado assim foi parar em Curitiba. Mas existem ideias. Pode-se gostar ou não delas. Pode-se não gostar da pessoa mas é possível gostar das ideias dela e vice versa. Ou de nem uma coisa e nem outra. As carapuças collor, messias, hitler etc. não cabem no mito. Mito do conservadorismo e não de um salvador da pátria, que ele não é e nem nunca será. Apenas um conservador. É por isso que as pessoas têm dificuldade em lidar com ele. Ele não é o que elas querem que ele seja. E mais: se ele aprontar, impeachment nele. E aprendam votar. Existe um vice.

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      Publicado por jjss555 | 31 de agosto de 2018, 09:53
      • JJSS,

        Você tem razão. Bolsonato é um conservador tradicional, que quer manter as coisas como elas estão e como sempre foram. Tem gente que gosta desta ideia. Fazer o que?

        Ainda bem que não haverá necessidade do impeachment do tal mito, pois ele não tem a mínima chance de ser eleito presidente.

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        Publicado por Jose Silva | 1 de setembro de 2018, 06:51
    • Se puder, leia o artigo sobre ele que publiquei no Jornal Pessoal.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de agosto de 2018, 10:31
  12. Jair Bolsonaro é como o Neymar Jr. a cada dia é visto mais como um modelo do que um craque. Mas tá valendo!
    Não são somente os problemas da segurança pública (ou ou da falta desta) pública que muitos brasileiros gostariam de ser tratados pelas mãos de um caudilho. Eu mesmo gostaria de colocar na cesta do caudilho mais pacotes de demandas nacionais. Quem sabe um caudilho no ministério da saúde, para acabar com todos os conselhos, comissões, grupos de trabalho, colegiados, etc, e em troca ditar sozinho regras claras e eficazes. A ineficiência das imunizações e da atenção básica é um problema que está tomando conta do país. A ANS quer pendurar nos planos de saúde a coberturas de centenas de novos procedimentos – concomitantemente com o repasse dos reajustes que profissionais e estabelecimentos bem entendem. Por causa disto o custo dos planos subiu de foguete e milhões abandonaram por não poder pagar. O brasileiro recebe pouca ajuda para prevenir agravos de doenças e pouco dinheiro para tratá-los. Plano de saúde privado não precisa ser universal e inacessível. Outra grande geradora de decisões equivocadas é a ANVISA, que ao longo do tempo mirou numa Bélgica e perdeu a oportunidade de ser uma Costa Rica; em vez de cadastrar e controlar todos os brasileiros que necessitam de medicamentos especiais para não criarem mais problemas para si e para a sociedade, trata-os como párias da sociedade que precisam se munir de intermináveis expedientes burocráticos e corporativistas (veja aí um link entre os colegiados e o corporativismo, diga-se um cartório, diga-se uma exploração oficializada) para adquirir o produto, não importando o que vai fazer daí em diante. Alguém explica a relação entre meretrizes vigaristas, o Rohypnol e os médicos que prescrevem para elas?

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    Publicado por J.Jorge | 31 de agosto de 2018, 00:05

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